Osvaldo Cabral

A oportunidade soberana de Vasco Cordeiro



Pode um habilidoso truque semântico branquear um caso de abuso de poder nos Açores?
“Eu não interferi, eu tive uma intervenção” - é assim que a Presidente do Hospital de Angra justifica a sua intromissão no caso do helicóptero “desviado” para evacuar um seu familiar na ilha de S. Jorge.
Se isto não é para rir, então estamos perante um regime piedosamente inimputável.
Aliás, pelo que se foi ouvindo na comissão parlamentar, toda a gente envolvida nos seus respectivos cargos de nomeação fizeram declarações curiosas, num jogo declarado para tentar “limpar” a atitude da Presidente do Hospital de Angra.
Comecemos pelo Presidente da Protecção Civil, o tal que enviou o pedido para abertura de um inquérito, mas depois calou-se, em total desrespeito para com os médicos responsáveis pelas evacuações.
Disse ele, perante os deputados, que se contentou com uma série de reuniões depois do incidente para “evitar constrangimentos”!
O que é “evitar constrangimentos”? Evitar a abertura de um inquérito, como fez o Secretário da Saúde? Evitar consequências para com a Presidente do Hospital? Evitar que o caso viesse a público?
A denúncia, gravíssima, das médicas responsáveis pela evacuação naquele dia, era mais do que suficiente para que não houvesse “evitar de consequências” num caso escandaloso como este.
Aliás, nem era preciso nenhum inquérito. Bastava confirmar com as médicas o que aconteceu e as “consequências” seriam imediatas e nunca “evitáveis”.
Percebe-se o incómodo de toda a gente.
Até o Secretário da Saúde, imagine-se, recusa-se a falar na comissão parlamentar, “por respeito pelo inquérito que está a decorrer”.
Ou seja, o governante escuda-se num inquérito que ele próprio nunca quis que houvesse!
Completamente fragilizado, sem a noção de que perdeu toda a credibilidade, o Secretário Regional da Saúde não tem palavras para se defender, porque sabe que há quem o defenderá, em última instância, dentro da rede de interesses partidários que grassa numa determinada elite protegida pelo Vice-Presidente.
O Secretário da Saúde teve como principal colaboradora na sua equipa, quando era Presidente do Hospital de Angra, exactamente a actual Presidente do Hospital, tem como seu principal Adjunto um filho da Presidente do Hospital e tem um conhecido Chefe de Gabinete que dizem ser quem manda.
Este cenário é suficiente para se perceber a protecção que foi dada a este caso, nunca deixando que houvesse “consequências”.
Quando a Presidente do Hospital confessa que já interveio noutros casos e que antigos Secretários Regionais também o fizeram, então estamos no auge do apocalipse político.
Governantes a intrometerem-se em decisões médicas para evacuações? Quem são?
Como agem, por exemplo? Mandar vir um Falcon para evacuar algum familiar de governante ou autarca, é “interferência” ou “intervenção”?
Ora, aqui sim, excelente motivo para abrir um inquérito e averiguar que “intervenções” são estas.
Já todos percebemos que estamos perante um caso perdido.
E muita gente já pensa que isto não vai dar em nada, como aconteceu com outros casos.
É por isso que Vasco Cordeiro tem nas mãos uma oportunidade soberana para mostrar quem ainda manda no governo e no partido.
Não pode haver gente inimputável na administração pública regional nem nos partidos políticos.
É com estes exemplos que o governo e o PS estão a dar sinais de fim de estação.
Se Vasco Cordeiro quer reafirmar a sua liderança no próximo fim de semana e dar um sinal de esperança, com credibilidade renovada, tem aqui uma oportunidade que lhe caiu de mão beijada.

Setembro 2018
Osvaldo Cabral