Osvaldo Cabral

Bombeiros: filhos de um Deus menor



É nas horas de aflição que damos valor a quem nos acode.
A pandemia foi um exemplo de superação por parte de vários profissionais envolvidos nas piores situações de resistência, como foi o caso dos profissionais de saúde.
Merecem, por isso, a eterna gratidão de um povo aflito e é mais do que justo que, agora, estejam a ser repostas injustiças profissionais em várias classes do setor da saúde, desde médicos, enfermeiros, auxiliares e outros profissionais.
No meio destas correcções, mais do que justas, está a faltar uma, que tem vindo a ser esquecida ao longo dos anos pelos sucessivos governos: os bombeiros da nossa região.
Também eles se envolveram, com elevado sentido humanitário, no apoio à sociedade durante a pandemia, mas foram esquecidos porque não têm sindicatos, ordens profissionais ou outros elementos de influência crucial nos meandros políticos.
Nenhum governo se dignou, até hoje, corrigir situações que se arrastam escandalosamente na parceria com as associações e corporações de bombeiros dos Açores, deixando-os numa espécie de limbo do sistema, sem um modelo de financiamento e sem uma actualização permanente das parceiras, nas suas mais variadas vertentes.
Como é que é possível que a Lei de Financiamento às associações de bombeiros, com quase uma década de existência, já tenha sido adaptada na Madeira, mas nunca adaptada nos Açores?
Fizeram-se promessas, grupos de trabalho, inúmeras propostas e, chegados aqui, tudo na mesma!
Como é possível que os montantes de comparticipação mensal destinados a fazer face aos encargos da emergência médica pré-hospitalar e evacuação médica entre unidades de saúde ficam aquém das necessidades reais e diárias de alguns concelhos/ilhas (situação ainda mais evidente em tempo de pandemia), obrigando as associações à mobilização de meios humanos não abrangidos pelos contingentes de pessoal definidos nos protocolos com o Serviço de Protecção Civil e, por conseguinte, a um esforço financeiro suplementar para assegurar a qualidade do serviço a prestar?
Não sou eu que o digo, são as próprias associações a queixarem-se.
Como é possível que os preços que os hospitais pagam nunca tenham sido actualizados desde... 2014?!
Mais grave é o desprezo com que votaram os bombeiros logo após a aprovação - por unanimidade, imagine-se! -, no parlamento açoriano, a 6 de de Maio de 2020, a recomendar ao Governo Regional a adoção de medidas de apoio de emergência às associações da região, para fazer face às contingências resultantes da pandemia COVID-19.
Sabem o que aconteceu: as associações não receberam, em 2020, este apoio de emergência - o que deu, aliás, origem a um novo Projeto de Resolução, com o mesmo objeto do anterior, entregue no parlamento em 18 de janeiro de 2021 e aprovado, mais uma vez, por unanimidade em 25 de março de 2021.
Uma brincadeira de mau gosto a que os bombeiros se vêm sujeitando, com imensos sacrifícios a que os senhores políticos se esquivam como o diabo da cruz.
Durante a pandemia, os bombeiros da região assistiram à redução dos serviços prestados nos aeroportos (em virtude da suspensão e, posteriormente, redução das ligações aéreas entre todas as ilhas da Região e do exterior à Região) e dos serviços de prevenção à descarga de combustível e, ainda, à eliminação quase a 100% da prestação de serviços variados, como o apoio à segurança de eventos culturais e desportivos e o aluguer de espaços e equipamentos para formação externa, que foram suspensos ao abrigo das medidas de prevenção do contágio por COVID-19, tendo em vista a salvaguarda da saúde pública.
Estou a citar, novamente, a Federação dos Bombeiros, que acaba de entregar ao governo um caderno reivindicativo, com a esperança de que, desta vez, alguém tenha um mínimo de decoro e se sente à mesa com as associações desta região para se fazer justiça.
Já não são apenas os bombeiros a pedir.
É, certamente, toda uma população consciente do valor que representa para todos nós, cidadãos, termos à nossa porta um corpo de gente abnegada e voluntariosa, sempre que necessitamos.
Não é preciso mais nenhuma catástrofe natural ou de outra índole para sabermos o quanto podemos contar com o estoicismo e coragem dos nossos bombeiros.
Saibamos retribuir com justiça, porque eles também são homens e mulheres como nós e têm as suas famílias como nós.
Saibamos estar atentos.

Osvaldo Cabral
Março 2022