Osvaldo Cabral

Cheira a podridão



 

António Guterres chamou-lhe "pântano" e demitiu-se. Mota Amaral anteviu o mesmo e foi à vida.
Quando um regime está a bater no fundo, o cheiro é igual e torna-se fácil prever o que vai acontecer politicamente.
Em apenas três anos de legislatura - a segunda de Vasco Cordeiro -, é fácil perceber que algo vai mal no regime, com os sucessivos casos de polícia envolvendo organismo públicos, desastrada gestão de casos como o da privatização da SATA, falhanço total nas empresas públicas, péssimos resultados em áreas fundamentais como a Saúde e Educação, descalabro na política de coesão das ilhas e um padrão corrente de arrogância, autismo e com tiques de imposição, como aconteceu novamente com a recente comissão de inquérito aos cuidados continuados.
Se juntarmos tudo isto aos casos de algum nepotismo, como aquele denunciado pelo "Diário dos Açores" sobre o helicóptero desviado para beneficiar familiares, e as orientações e intervenções políticas na gestão de muitas actividades desta terra, então o cheiro a podridão é muito mais intenso.
Manter este tipo de regime tem custos elevados, saindo sempre do bolso do contribuinte.
Um governo serve para antecipar os problemas. Este, não só é incapaz de os antecipar, como lida mal com eles e revela enorme incapacidade para os resolver.
Ainda agora assistimos a um argumento exemplar, para justificar a atribuição de mais 2 milhões de euros à Sinaga (dinheiro deitado ao lixo, que bem serviria para investir na Educação das novas gerações ou melhorar o deplorável serviço de saúde nas ilhas mais pequenas e com os doentes abandonados à sua sorte), para produzir açúcar que já ninguém consome, quando é mais do que certo que o valor é para ir direitinho para a banca, para amortizar a enorme dívida da empresa.
De resto, toda a argumentação, agora vinda a público, para justificar a atabalhoada reestruturação do SPER, é uma mão cheia de nada.
Nas pescas não há nada de novo, pois a Santa Catarina continua a afundar-se em endividamento, aliás como várias outras entidades públicas; na refinação de açúcar só aparece um subsídio de 2 milhões para regular um mercado que não precisa de regulação nenhuma - desculpa de mau gestor; na SATA não se sabe quando se retoma o processo de privatização (será mesmo em Junho? alguém acredita?), mas certo é o elevado nível de resultados negativos; na Norma já se sabe que o concurso ficou deserto, mais um; na ATA o governo deixa um rasto de problemas intermináveis, criados enquanto controlou a instituição de lés a lés; na Associação Portas do Mar não fez nada, a não ser encostar o problema à Escola Hoteleira; na SPRHI foi mais um encosto; na Saudaçor vai-se preparando outro encosto.
A mais valia referida de 351 milhões de euros ignora as sucessivas injecções de capital e resultados transitados negativos, muito acima deste valor.
Parece que vivemos numa região que produz apenas dois tipos de cidadãos: os do RSI (Rendimento Social de Inserção) e os do RSP (Rendimento Social Político), em que os primeiros vão crescendo magrinhos e com subsídio de caridade, enquanto os segundos vão proliferando nos imensos corredores atapetados, anafadinhos e com mala de doutor recheada...
Um regime assim não dura muito.
Cai também de podre.

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O MESMO ANÚNCIO TODOS OS MESES - Como já aqui escrevi, se há coisa em que este governo é bom, é na propaganda.
Tem uma excelente rede de assessores e uma boa máquina de distribuição de conteúdos, dando voltas à cabeça dos jornalistas, sobretudo os menos atentos ao sério escrutínio que deviam fazer à actividade do poder.
Ainda agora quase toda a comunicação social 'pescou' a notícia do GAGS, fazendo parangonas com um novo sistema de incentivos às exportações, o "Export Açores", anunciado por Vasco Cordeiro durante a visita ao Salão Internacional do Sector Alimentar e Bebidas (SISAB), em Lisboa.
Pois bem, a medida, apresentada como nova, já é bem velhinha.
Foi anunciada no final do debate do Plano e Orçamento para 2019, no parlamento, em Novembro do ano passado... exactamente por Vasco Cordeiro e nos mesmos termos.
Voltou a ser anunciada em Dezembro, no âmbito da famosa Agenda Açoriana para a Competitividade, mas desta vez pelo Vice-Presidente, que a embrulhou num tal "Cluster Digital Açores", com muitas "vertentes" inovadoras, uma das quais exactamente os incentivos à exportação, denominado "Exportar Açores", "vector fundamental" para as empresas "valorizarem os seus produtos" e "criarem postos de trabalho".
Aliás, quem é empresário nesta terra já deve ter perdido a conta dos inúmeros planos e sistemas de incentivos à exportação anunciados nestes últimos anos.
Já vem de 2012, era então Vasco Cordeiro Secretário Regional da Economia, quando anunciou uma redução de taxas portuárias para contentores destinados à exportação, para exportarmos mais, frisando ser um "contributo muito importante para o fortalecimento da capacidade exportadora da economia regional".
Em Julho de 2013, Vasco Cordeiro volta a anunciar um sistema de incentivos à promoção e comercialização externa, visando facilitar "a colocação de produtos açorianos nos mercados de destino", "reforçar apoios " à circulação de bens e serviços entre as ilhas açorianas, assegurando assim o "incremento" do mercado interno e a "consequente" redução das importações regionais, previu uma maior procura dos produtos com a "Marca Açores" e ainda anunciou o baptismo de Lojas de Exportação em várias ilhas para apoiar as empresas com vocação exportadora.
Em Janeiro de 2016, o governo anuncia, numa resolução publicada em Jornal Oficial, que a "Marca Açores" é alargada a serviços e estabelecimentos, para "fidelizar novos mercados e fomentar a exportação".
Em Abril de 2017, o governo anuncia em S. Jorge um "Plano Estratégico" para exportar mais, mas desta vez apenas destinado aos produtos lácteos, para a indústria "reforçar a presença" nos mercados de exportação tradicionais e a procura de novos mercados.
Anúncios não faltam. O problema é que faltam os resultados.
Como é que uma região que produz pouco e importa quase tudo, tem produtos para exportar?
Mais: em vez de encarecerem os transportes e depois arranjarem programas para subsidiar o transporte, melhor era que melhorassem o transporte em primeiro lugar.
Até na estatística das exportações somos pobres.
As estatísticas de exportação são apenas para o estrangeiro, para onde até exportamos motores de aviões (quando os da SATA saem para revisão!).
As exportações a sério são para o continente e alguns países europeus: peixe para Espanha, conservas para Espanha e Itália, peixe, carne e lacticínios para o continente , serviços de turismo para o leque de países que compõem os nossos mercados emissores, e pouco mais do que isso, não havendo mesmo estatísticas para as exportações feitas via Lisboa e Leixões, mas só indicadores genéricos de tonelagem embarcada, que não diz muito do seu valor.
Mesmo assim, a acreditar na estatística, exportamos em 2011 cerca de 117 milhões de euros e em 2017 cerca de 90 milhões de euros, metade do que pagamos pelas importações.
Uma miséria para a nossa economia.
Mesmo que continuem, de mês a mês, a anunciar novas medidas e novos programas de incentivos à exportação...

Março de 2019
Osvaldo Cabral