Osvaldo Cabral

Desemprego encapotado



Há muito desemprego encapotado na região.
O malabarismo que se tem feito com os desempregados nos programas ocupacionais não esconde os problemas sociais que estamos a enfrentar e que vão piorar com esta crise pandémica.
O primeiro boletim mensal do desemprego divulgado pela Secretaria Regional de Duarte Freitas é uma excelente iniciativa de transparência estatística, não escondendo a situação relativa a este sector.
Ficamos a saber que em Novembro e Dezembro os desempregados quase não mudam, mas os programas ocupacionais aumentam mais 570 efectivos.
Prolongar infinitamente os mais de 4 mil desempregados em programas ocupacionais é prolongar a precariedade laboral e retirar a possibilidade de quem procura emprego poder alcançar aqueles postos de trabalho.
Urge, por isso, criar riqueza, com mais investimento, que tenha como consequência mais emprego.
Se os privados estão de pantanas, é ao sector público que cabe um maior esforço nestes tempos de crise.
Muitos governos, incluindo o de Portugal, estão a aproveitar a emissão de dívida pública a juros negativos.
O insuspeito Francisco Louçã, ainda esta semana, desafiou o governo: "No meio da estagnação destes últimos 10 anos, Paul Krugmam, um Prémio Nobel da Economia que não tem medo das palavras, escreveu um artigo com um apelo provocatório, a dívida é boa. A conta não é difícil de fazer: se for bem usado, o momento excepcional em que se pode fazer investimento com juros negativos é uma oportunidade para recuperar infraestruturas, criando emprego agora e poupando gastos futuros. Assim, é o momento de construir e reequipar hospitais e escolas, reparar pontes e desenvolver os caminhos de ferro, ou iniciar a adaptação energética, por exemplo. Depois será mais caro e a perda de tempo é também um preço para a estupidez".
O apelo é semelhante para cá: precisamos nos Açores de reequipar e modernizar os hospitais e centros de saúde, ampliar pistas de aeroportos, como é o caso flagrante da ilha do Pico, remodelar e expandir as estradas marítimas internas e para o exterior, com o tal novo modelo de logística que todos os especialistas reconhecem, e investir em mais recursos para o sector da educação e qualificação dos açorianos.
Agora que fomos autorizados a alterar o Plano de Resiliência, que estava mal feito, é preciso, também, canalizar mais recursos para a iniciativa privada, motor essencial da economia, retirando algumas das verbas absurdas que estavam inscritas em projectos não prioritários, como a transição energética.
Cometemos o erro de não criar na região um Banco de Fomento Regional, fiados nas boas intenções do Governo da República, mas agora somos confrontados com uma decisão do Banco Português de Fomento, que retira aos Açores e Madeira a possibilidade de acederem à linha de Apoio à Economia Covid-19, no valor de 1.050 milhões de euros, dirigida às empresas exportadoras da indústria e do turismo.
Como já muito bem protestou a Madeira, esta instituição pública foi criada pelo Estado para contribuir para um "Portugal competitivo", para "um futuro mais inovador e sustentável", promovendo a "coesão económica e social territorial do país".
Ora, a "continuidade territorial" só se aplica às Regiões Autónomas nos estados de emergência?
Na "emergência económica" ficamos excluídos porquê?
É um pouco como os investimentos do "Mar 2020", em que a esmagadora parte da extensa Zona Económica Exclusiva está nos Açores e na Madeira, mas estas recebem apenas 73 e 40 milhões de euros, respectivamente, enquanto que as grandes fatias vão para a região Centro (197 milhões de euros) ou Lisboa (170 milhões)!
Se a "bazuca" europeia já chega tarde e a más horas, se não contarmos com a solidariedade nacional e se não aproveitarmos o financiamento a juros negativos, então temos a tempestade perfeita para as próximas gerações, que vão continuar a engrossar os programas ocupacionais.
Esta é a hora!

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OLHEM POR RABO DE PEIXE - Uma cerca sanitária, em qualquer comunidade, é um tormento. Então apanhar com ela por três vezes, é assustador.
Coloco a dúvida sobre se esta medida é a única possível ou se haveria outras alternativas, pelos problemas sociais e psicológicos que tudo isso implica numa população inteira.
Não é justo que uma parte enorme da população pague pelo mau comportamento de uma minoria, pelo que o endurecimento das restrições deveria ter outro foco, mais localizado, mais selectivo e mais eficazmente fiscalizado.
Presumo, de qualquer modo, que as autoridades sanitárias saberão o que estão a fazer.
O que me parece errado é que estas medidas não sejam acompanhadas por um pacote específico de ajuda aos sectores económicos da Vila.
Rabo de Peixe tem uma indústria fortíssima na área das pescas, mas também noutras áreas, como as madeiras, turismo local, comércio alimentar e restauração.
Sacrificar todos estes negócios, de que dependem inúmeras famílias, é aterrador para tanta gente que retira destas actividades o seu ganha pão.
Muitos destes negócios estão paralisados há vários dias, com os empresários a verem a concorrência, nas freguesias vizinhas, a laborarem sem problemas e a "roubarem-lhes" a clientela.
É um duro golpe e profundamente injusto para tantas actividades que não contribuíram para o problema sanitário da Vila.
Os governantes da área económica ainda vão a tempo de se reunirem com os autarcas e empresários da Vila, antes que alguns entreguem as chaves à porta do Palácio de Santana, como já ouvi.
É da mais elementar justiça.

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CORVO - Na ânsia de querer ser contra, o Bloco de Esquerda precipitou-se e cometeu um erro político ao questionar a vacinação de toda a população do Corvo. É claro que se trata de uma medida acertada das autoridades de saúde e que tomara termos vacinas suficientes para fazer o mesmo em todas as ilhas.
O que o Bloco de Esquerda devia fazer era influenciar o governo que apoia em Lisboa, do seu amigo António Costa, para promover uma vacinação em massa nos Açores, tornando-a a primeira região imune da Europa.
Isto sim, seria uma oposição visionária.

Fevereiro 2021
Osvaldo Cabral