Osvaldo Cabral

E depois de Outubro?



A História política ensina-nos que, em períodos de aflição, os cidadãos procuram sempre uma referência, um líder, um porto de abrigo seguro que guie a comunidade para uma espécie de salvação sensata.
Os exemplos nos Açores são muitos, mas limito-me aos mais recentes, já na Autonomia contemporânea, em que, logo após a tragédia de 1 de Janeiro de 1980, na Terceira e nalgumas ilhas do Grupo Central, a forte intervenção do Governo de Mota Amaral no ciclo da reconstrução fez-lhe guindar para resultados eleitorais estratosféricos (de 53 para 57% em Outubro do mesmo ano, enquanto o PS afundava-se dos 32 para 27%).
O fenómeno repetiu-se em Outubro de 1997, aquando da tragédia na Ribeira Quente, com o Governo de Carlos César acabado de tomar posse. A boa prestação da nóvel liderança valeu, três anos depois, um crescimento eleitoral de 45 para 50%, enquanto o PSD dava um trambolhão dos 40 para os 32%.
Este ano o fenómeno não deve fugir à regra.
Em Fevereiro os analistas, com base nos primeiros estudos de opinião recebidos por alguns partidos (nunca revelados publicamente), andavam a discutir o tamanho da perda eleitoral do PS, com uma quase certa perda da maioria absoluta.
Agora, com a crise pandémica, deu-se uma reviravolta na avaliação da prestação do Governo de Vasco Cordeiro.
O Presidente do Governo percebeu que tinha aqui uma oportunidade histórica para dar a volta, uma vez que a crise sanitária obrigava ao confinamento da oposição (até do parlamento, a quem compete fiscalizar o governo), dando o palco todo para a actuação do líder a que os cidadãos se agarram na hora da aflição.
Foram meses de dois protagonistas apenas: Vasco Cordeiro e Tiago Lopes.
Bastou alguma sensatez nas decisões, jogar com o binómio medo/segurança, impor regras duras mas seguras (alguns abusos à mistura, é certo), mas o suficiente para o povo percepcionar que havia quem mandava (apesar da oportuna divergência com o Governo da República em fechar os aeroportos).
Por agora o objectivo parece atingido: o julgamento eleitoral, em Outubro próximo, será com base nesta avaliação final e os anos anteriores desta legislatura, que foram bem desastrados, já estão esquecidos.
A não ser que surja, até Outubro, algum contratempo tão surpreendente como em Março - o que não é verosímil -, resta agora manter o barco a navegar em mar calmo, com visitas frequentes a todas as ilhas, inaugurações quanto baste, espalhar dinheiro pelas empresas em crise, auxiliar os que perdem rendimento, injectar mais nas instituições sociais e está feito o passeio tranquilo por mais quatro meses para o julgamento final.
Só há um único problema que vai assaltar a mente de algumas pessoas: e depois de Outubro?
Ninguém adivinha o que aí vem, mas o cenário mais provável é que no início do próximo ano comecem a chegar as primeiras ajudas financeiras da Comissão Europeia, a que se acrescenta o envelope financeiro do novo quadro 2021-2027, que nunca será menos do que 1,5 mil milhões de euros.
Será o suficiente para manter a região na acalmia do emprego, criação de riqueza e consequente retoma das actividades económicas mais importantes (junto com uma aposta forte no Serviço Regional de Saúde)?
Vai depender - muito! - do comportamento externo e de como iremos lidar com os buracos internos que, entretanto, não nos livramos nesta pandemia.
Temos problemas gravíssimos para resolver internamente, que se agravaram com esta crise, mas que já definhavam antes da pandemia.
A SATA é um deles, cuja resolução parece mal encaminhada, a julgar pelo que estamos a ver na TAP, o que poderá criar uma explosão social grave na região, aliada a outros sectores do sector público empresarial regional que estão em graves dificuldades e de quem dependem muitas famílias.
Mas isso já é em 2021.
Até Outubro, é empurrar com a barriga...

Junho 2020
Osvaldo Cabral