Osvaldo Cabral

Em paz sujeitos



António Costa e Rui Rio pertencem a uma geração que desconhece a História política das Autonomias.
São líderes pragmáticos, habituados às decisões com vista a resultados práticos, porque o tempo eleitoral de cada um é curto no sistema político português.
Por esta via, calculistas como são, desprezam as minorias eleitorais e valorizam o discurso confortável das concentrações urbanas.
É isto que explica, de certa forma, a atitude de ambos em relação às Regiões Autónomas.
Rui Rio, naquele episódio das eleições europeias, desvalorizou os eleitores social-democratas dos Açores, dizendo que 12 mil votos "não é uma fortuna".
António Costa, por sua vez, não receou ir contra os seus camaradas açorianos nesta crise sanitária, impondo as viagens da TAP para estas ilhas, inicialmente com o argumento da "continuidade territorial" e, agora, mais recentemente, no parlamento, repisando que, “se neste momento, a Madeira e os Açores não estão isoladas do mundo, isso deve-se às instruções do Governo para que a TAP continue a voar todas as semanas para as Regiões Autónomas”.
Perante estes episódios, poucas ou nenhumas vozes das estruturas partidárias regionais ripostaram.
Este silêncio submisso tem uma explicação comum, que é a dependência de ambos os partidos perante os líderes nacionais por razões de financiamento.
O PSD-Açores não sobrevive sem o financiamento da sua estrutura nacional, quer para as campanhas eleitorais, quer até para o pagamento do salário do seu líder regional.
Por sua vez, Vasco Cordeiro vai necessitar, neste tempo agravado pela pressão eleitoral, da urgente boa vontade de António Costa para três problemas cruciais.
O primeiro é a ajuda do Estado para a grave crise económica que vamos enfrentar.
Vamos depender do Estado português e daquilo que ele decidir quanto ao quinhão que nos caberá da União Europeia.
Em segundo lugar, temos outro problema gravíssimo para resolver já a seguir, que é a questão da SATA.
É outro imbróglio que não podemos resolver sozinhos, necessitando, mais uma vez, do apoio do Estado português e, quiçá, da tolerância da Comissão Europeia.
Finalmente, há outro problema emergente que está em cima da secretária de António Costa desde Dezembro do ano passado para despacho.
Trata-se da substituição dos cabos submarinos, que ligam os Açores ao mundo, um projecto que poderá custar mais de 120 milhões de euros e cujo grupo de trabalho, liderado pela Anacom, já apresentou o respectiva proposta ao Estado português.
Por cada mês de atraso - e já vamos em Maio - é mais um risco que corremos, porque o estado em que se encontram os actuais cabos não vai durar muito mais, esperando-se as assinaturas, para breve, de António Costa e Mário Centeno.
Habituados que estamos a ouvir alguns discursos inflamados, dos líderes locais, contra o centralismo e as afirmações levianas das estruturas nacionais, desta vez assistimos a um silêncio estranho, mas que só tem explicação com o ano eleitoral em que estamos a viver.
A grande ironia disto tudo é que, exactamente por esta situação, os líderes nacionais vão acabar por ceder às pretensões açorianas.
Rui Rio estará ao lado de José Manuel Bolieiro, porque foi um dos que o empurraram para a liderança regional e pretenderá dar sinais de apaziguamento depois de tudo o que disse no tempo de Alexandre Gaudêncio. Tentará espreitar nas eleições regionais algum alento que o motive para as nacionais.
António Costa, pelos mesmo motivos, mas mais animador na presente conjuntura, dará o empurrão necessário até ao período das eleições.
É que ele quererá ficar colado à vitória retumbante que o PS vai ter em Outubro nas regionais (a pandemia trouxe bons ventos e as sondagens que têm caído em Santana confirmam a reviravolta bastante animadora).
Ripostar numa altura destas, criar conflitos com os líderes nacionais, ir contra o sentimento generalizado da população (é curioso o esforço que os partidos da oposição estão a fazer para não falarem da polémica sobre a inconstitucionalidade ou não das quarentenas), poderá ser uma estratégia discutível e tem os seus riscos históricos, mas, pelo menos no pensamento dos teóricos salvíficos, é preferível ter os cofres cheios do que não ter nada para distribuir nos próximos tempos.
O único problema, para os espíritos crédulos, é que perdemos a nossa divisa histórica: "Antes morrer livres que em paz sujeitos".
O que não é coisa pouca.

Maio 2020
Osvaldo Cabral