Osvaldo Cabral

Mais governação e menos política



Ainda vamos no início da crise e já todos percebemos que, nesta fase, como nas seguintes, vamos precisar de verdadeiros líderes, de governantes e não de políticos.
Gente que não pense nos interesses eleitorais e que mostre cabeça fria, serenidade nas decisões, rapidez nas medidas, comunicação eficiente e coragem para desafiar todas as contrariedades, internas e externas.
Ainda não chegamos à fase crítica da crise, mas é neste início que se devem tomar as medidas necessárias para travar mais tarde o agudizar do período crítico.
A prevenção e prudência são fundamentais para ajudar a travar o inimigo.
As autoridades regionais estiveram muito bem ao agir rapidamente quando se conheceu o primeiro caso positivo, isolando a Terceira, num critério que pode ser discutível, mas que, por agora, é o mais sensato em defesa da saúde pública.
Certamente que será um critério a adoptar quando surgirem outros casos noutras ilhas, pelo que não se compreende a atitude inqualificável do Governo da República em nos coarctar a gestão da crise face ao exterior.
Temos que ser mais firmes e menos submissos quando os interesses da região - neste caso sobre as nossos vidas - são postos em causa pela cegueira do centralismo lisboeta, seja de que cor for.
No final destes dias conturbados certamente se fará o balanço político sobre o que falhou na solidariedade nacional e confiemos que os nossos representantes políticos estejam à altura, em defesa dos cidadãos açorianos e das suas vidas.
Agora precisamos mais de governação e menos de política.
É preciso começar a pensar, também, na economia, sem descurar, nunca, a saúde, que está primeiro do que tudo.
As consequências desta crise vão ser piores do que uma catástrofe sísmica.
Vamos enfrentar um poderoso terramoto, seguido de tsunami.
É urgente que o Governo Regional comece a definir medidas de apoio económico às famílias e às empresas, sem esperar pelo governo central, propondo, desde já, um "pacto regional" entre partidos e parceiros sociais para que se consiga um consenso generalizado na procura de soluções imediatas.
É muito provável que muitas famílias vão ficar em casa, por longos meses, a tomar conta dos filhos, muitas empresas vão fechar por período prolongado e as escolas não vão abrir nem tão cedo.
O Governo da Madeira já anunciou algumas medidas imediatas, isentando as famílias de pagamento de água e luz, pelo menos este mês, e alguns municípios continentais anunciaram a isenção do pagamento de muitos serviços e actividades dos seus munícipes.
Temos que avançar, rapidamente, com estímulos às famílias açorianas, porque no final deste mês já vão começar a pensar como irão sobreviver com menor receita e as mesmas despesas.
Há que chamar, por exemplo, a banca à mesa da crise; a mesma banca que os cidadãos ajudaram a reerguer-se, na crise recente do sistema financeiro, com enormes sacrifícios, tem agora uma oportunidade de, também, mostrar a sua solidariedade aos cidadãos, se é que não deseja enfrentar mais uma crise de imparidades de famílias e empresas credoras.
É preciso criar estímulos ao nível da fiscalidade, às empresas e famílias, coisa que apenas compete ao governo e ao parlamento.
Nestes últimos anos o turismo era o sector que estava a puxar a economia. Foram muitos os investimentos no sector, correspondendo ao apelo da governação para que se criassem mais postos de trabalho e mais riqueza.
Vai ser o sector mais sacrificado nesta crise de saúde pública.
O emprego nas actividades associadas ao turismo representava quase 19 mil postos de trabalho, cerca de 15% da população activa.
As actividades que mais emprego vinham gerando no cluster turístico eram a restauração (32 a 46%), hotelaria (17 a 19%), transportes (18 a 26%) e serviços culturais e recreativos (13 a 15%).
Se perdermos metade disto nos próximos tempos, vamos sofrer uma crise profunda, económica e social, na nossa região.
Segundo o recente estudo sobre o turismo na região, da autoria de Antónia Canto e João Pedro Couto, o Valor Acrescentado Bruto do turismo, há três anos, representava 9,7% de um total de 3,5 mil milhões de euros, valor que injectou muita riqueza na nossa economia e que este ano, pelo menos, vai sofrer um rombo nunca visto.
Há três anos, um outro estudo interessante, desta vez de um aluno da Universidade dos Açores, João Alberto Amorim Cordeiro, para uma dissertação de Mestrado, provava como o turismo estava a ter um impacto económico de peso em todas as ilhas.
Transcrevo apenas uma parte da conclusão: "Aferindo-se o impacto desta indústria conclui-se que esta tem um peso significativo sobre o aumento do PIB com reflexo na geração de emprego, na RAA. Pelos valores estimados verificamos que o aumento de 1% do turismo contribui para o aumento do PIB regional em 0,31%. Também o crescimento de 1% no PIB da Região contribui em 0,11% para a criação de emprego. A importância do turismo nos Açores vem em parte da diversificação da sua oferta e do efeito multiplicador desta indústria, com efeitos diretos indiretos e induzidos, sobre o crescimento económico. Em termos absolutos, esta constatação demonstrou-nos que por um aumento de 5000 passageiros embarcados e desembarcados, aumenta em aproximadamente 2 milhões de euros o PIB, gerando cerca de 19 novos postos de trabalho. A região ainda está a dar os primeiros passos no sector, o que significa que o mercado tem espaço de crescimento. Além disso os Açores têm potencialidade devido a sua localização geográfica entre a Europa e os Estados Unidos da América, a qualidade dos seus recursos naturais, dão ao setor muito boas perspetivas de crescimento para o futuro, capaz de poder contribuir para o crescimento do PIB e da criação de emprego, na RAA".
Imagine-se como estarão, agora, aqueles que investiram tanto neste sector: os donos dos 2.700 estabelecimentos turísticos desta região, dos mais de 2.500 alojamentos locais, muitos deles com elevados créditos contraídos na banca, os empresários dos restaurantes e das empresas de animação turística, os mais de 2.350 empregados ao serviço dos hotéis... e as imensas famílias destas ilhas.
Ou o governo mexe-se rapidamente, dando um sinal de que vai estar ao lado das pessoas, mas com medidas e não profissões de fé, ou a calamidade vai ser ainda maior.
No meio de tudo isto, por incrível que pareça, quem vai beneficiar com esta crise será, imagine-se, a SATA.
Ela que já estava em coma, a respirar pelo ventilador, vê agora uma luz ao fundo do túnel.
É que a Comissão Europeia, por causa desta crise de saúde pública, já admitiu que os governos vão poder ajudar novamente às transportadoras aéreas, autorizando injecções de capital e, provavelmente, com estímulos comunitários ao sector da aviação, como houve no passado.
O que faz um vírus...

Março de 2020
Osvaldo Cabral