Osvaldo Cabral

O que se passa com a inflação nos Açores?


É um assunto árido para a maioria dos cidadãos comuns, mas os efeitos da inflação numa economia são sinais importantes para quem segue com atenção o fenómeno.

Aqui nos Açores, por exemplo, a inflação tem vindo a cair desde há algum tempo, mesmo comparativamente com o resto do país, num processo que levanta alguns receios quanto ao evoluir da saúde económica da Região.

Pode parecer um paradoxo, mas basta perguntar a qualquer economista para se ficar a saber que uma inflação baixa significa uma queda de preços e isto pode ser sintoma ou de ganhos estruturais ou de perdas de mercado e consequente abaixamento de preços.

Comparando com outros locais, abstraindo dos fenómenos extraordinários e negativos, um abaixamento relativo dos preços até pode significar uma melhoria de competitividade, mas na maior parte das vezes é sinal de que os consumidores não estão a comprar, à espera de mais abaixamentos de preços, reflectindo-se nos stocks do comércio e indústria, que vendem menos e, portanto, se vendem menos há que produzir menos. Uma autêntica bola de neve.

Quando o fenómeno dura, há quem lhe chame "estagflação", devido à estagnação da economia, mas se cai para a deflação, então temos o caldo entornado, porque é mesmo sinal de crise.

O IPC (Índice de Preços ao Consumidor), que pode ser consultado, todos os meses, através da publicação do SREA ou do INE, é composto por vários produtos com pesos diferentes, pelo que enquanto uns produtos podem estar a cair outros podem estar a subir.

Desde Setembro de 2018, o IPC dos Açores apresenta taxas médias anuais abaixo do 1% e com tendência decrescente até ao último mês de Março.

Na história recente (desde 1998), para além do momento actual, os Açores tiveram variações abaixo de 1% entre Dezembro de 2009 e Setembro de 2010 e entre Junho de 2014 e Novembro de 2015.

As variações anuais mais baixas, com 0,2%, ocorreram entre Março e Junho de 2010.

A variação em Março de 2019 estava nos 0,29% nos Açores e em 0,99% no Continente.

Para avaliar melhor este fenómeno podemos olhar para as principais categorias de despesa, conforme publicação do SREA e reproduzidas no quadro abaixo.

Nas variações mensais registaram-se baixas significativas em diversas categorias de produtos, em Janeiro e Fevereiro, com menos quebras e mais subidas em Março.

Nas variações homólogas existem quebras nos três primeiros meses do ano, o que quer dizer que, na média, os preços estão mais baixos do que em iguais meses do ano anterior.

As categorias com quebras homólogas mais significativas foram: vestuário e calçado (-8,15 a 8,91%); transportes (-0,2 a -1,49%); produtos alimentares não transformados (-1,82 a -3,59).

Nas variações a 12 meses, as maiores quebras são: vestuário e calçado (-2,83 a 4,64); produtos alimentares não transformados (-1,98 a -2,39); produtos alimentares e bebidas não alcoólicas (1,03 a 1,28).

Na lista das maiores subidas estão: Bebidas alcoólicas e tabaco (2,58 a 3,12); mobiliário e acessórios para o lar (1,58 a 1,89); transportes (1,89 a 2,16); hotéis e restaurantes (1,84 a 2,17); produtos energéticos (2,08 a 2,46).

A conclusão que se pode tirar é de que têm sido os produtos de consumo imediato e essencial que têm baixado de preço, fazendo reduzir a evolução geral do nível de preços, pese embora algumas subidas muito consideráveis em alguns produtos, como as bebidas alcoólicas e tabaco e os produtos energéticos que têm evidenciado evoluções muito expressivas.

A descida no vestuário e calçado acompanha a tendência nacional.

Nos acessórios, equipamentos domésticos e manutenção corrente da habitação, na saúde e nos transportes, a evolução foi mais favorável do que a nível nacional.

Os Açores ficam pior nos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas e nas bebidas alcoólicas e tabaco.

Não é possível retirar daqui uma conclusão final óbvia, mas é um sinal de que não estamos com uma economia forte... nem pouco mais ou menos.

E quando assim é, o crescimento económico é pífio.

Neste cenário, o mais provável é que fiquemos entre os piores da Zona Euro, onde as perspectivas de crescimento são bastante fracas, mesmo com o Sr. Draghi a acreditar que a inflação se posicione perto dos 2%, mas avisando que mantém "a visão de risco para a economia no sentido 'descendente'."

Com a crise na lavoura, nosso principal motor da economia, resta-nos rezar para que não aconteça o mesmo no turismo.



Abril 2019

Osvaldo Cabral