Osvaldo Cabral

Todos contam... para pagar!


Alguém acredita num governo que, nos últimos três anos, não quis saber da opinião de ninguém, mostrou-se autista relativamente às chamadas de atenção sobre os erros cometidos e agiu com alguma arrogância face a alguns deles, agora no final do mandato é que vai ouvir toda a gente?
Agora é que todos contam?
O que é que se andou a fazer nos últimos três anos?
Onde estão as reformas prometidas?
O sistema eleitoral continua a marcar passo, a questão da gestão partilhada do mar há muito que devia estar fechada e os valores do próximo Quadro Comunitário de Apoio continuam a arrastar-se pelos gabinetes de Santana e do Terreiro do Paço.
O que andamos a fazer nestes últimos três anos foi a criar buraco atrás de buraco nas contas das empresas públicas, para, agora, sermos chamados a pagar a conta, como está escarrapachado no Plano e Orçamento do próximo ano.
Aqui vai uma história que nos contaram ainda esta semana.
Na nota 16 do Relatório e Contas da SATA de 2018 pode ler-se o seguinte:
“Por deliberação em Assembleia Geral de acionistas, na sequência da resolução do Conselho do Governo Regional n.º 13/2017 de 21 de fevereiro de 2017 e n.º 85/2018 de 18 de julho de 2018, a acionista SATA - Sociedade de Transportes Aéreos, SGPS, S.A. deliberou um aumento de capital social em dinheiro, no montante total de 44.983.945 Euros. Do aumento de capital deliberado, foram realizados 10.977.431 Euros, diferindo-se a realização do valor remanescente de acordo com o disposto nos artigos 277º n.º2 e 285º n.º1, ambos do Código das Sociedades Comerciais, no montante total de 34.006.514 Euros (Nota 36). O montante subscrito e não realizado no montante de 34.006.514 Euros, encontra-se registado como um valor a receber (Nota13). Importa salientar que a realização deste aumento de capital encontra-se assegurada pela Região Autónoma dos Açores, atendendo ao processo de dissolução em curso da SATA SGPS.”
Em suma, o governo, em 2018, aumenta o capital da SATA em quase 45 milhões mas só dá 11 milhões, ficando a dever 34 milhões.
Para o próximo ano, sem que tenha (que se saiba) resolvido o problema dos 34 milhões em dívida, o governo promete, no Plano de 2020, mais 47 milhões para um novo aumento, assim o disse o Vice, de 40 milhões.
Presume-se que seja um aumento novo porque o outro já foi e era de 45 milhões.
Moral da história, o governo, que ainda devia 34 milhões, promete aumentar mais 40 milhões, para um total de 74 milhões, mas orçamenta 47 milhões, o que quer dizer que ainda fica a faltar 27 milhões.
Dá para perguntar se isto é mesmo para se fazer ou vai ficar por mais uma execução malabarista?
Noutro episódio de malabarismo, a Senhora Secretária do Ambiente, Energia e Turismo parece que fez desaparecer 4 mil passageiros da DELTA, ao dizer que esta companhia só transportou, em 2019, cerca de 13 mil passageiros (12 mil em 2018).
Na verdade, com uma taxa de ocupação dos aviões da ordem dos 81%, terá transportado cerca de 17 mil passageiros. Que podem não ter sido todos americanos disto não temos dúvida. Mas não deixaram de ser passageiros e turistas.
Ou será que a taxa de ocupação não foi os declarados 81%?
Para onde foram parar tantos americanos?
É outro mistério deste final de mandato, como aquele em que se prometeu médico de família para toda a gente até finais de Setembro.
À medida que se aproximam as eleições regionais, cheira cada vez mais a propaganda.
“Agora é que vai ser”, parece o lema da governação de duas décadas, a mesma que criou um buraco de mais de 1.300 milhões de euros só no sector da Saúde (Saudaçor e hospitais), mais 300 milhões na SATA e a herança de uma empresa caótica, uma intervenção escandalosa na Sinaga que nos vai custar mais de 30 milhões, uma dívida de 8 milhões à ATA e por aí fora.
Ainda ontem chegou-se a acordo entre as três instituições europeus para a aprovação do próximo orçamento europeu, onde é visível que cerca de metade dos fundos – 83,93 mil milhões de euros (+ 4,1 % do que em 2019) – será utilizada para tornar a economia mais competitiva.
Desse montante, 58,65 mil milhões de euros (+ 2,5 % do que 2019) destinam-se a reduzir as disparidades económicas no interior dos Estados-Membros e entre os diferentes Estados-Membros, a estimular o crescimento e a criação de emprego.
Por cá, fazemos o contrário: arrecadamos mais receitas - que é como quem diz, mais impostos - para pagar a gestão ruinosa dos desvarios políticos destes últimos anos.
É disto que deviam estar a reflectir nos palcos do marketing.
Claro que todos contam... para pagar a conta do desastre em que deixaram aquelas empresas.
Com roupagem fina, em pés de lã, o homem do fraque vai bater-nos à porta já no próximo orçamento.
E ninguém nos ouviu para isso.
Agora já vai tarde.

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MAIS UM SOCO NO ESTÔMAGO - A SATA acaba de encaixar mais um forte soco no estômago, com o anúncio da TAP em voar de Ponta Delgada para Boston a partir do próximo ano.
É uma excelente notícia para o sector do turismo, para a comunidade açoriana na Nova Inglaterra e para uma sã concorrência entre duas empresas de aviação, embora com dimensões diferentes.
Não deixa de ser uma má notícia para a SATA, porquanto vai perder mercado e não sei se aguentará a concorrência, caso a TAP entre em Boston com preços competitivos a que a SATA não poderá responder.
Era uma notícia esperada.
A SATA não soube tratar esta rota com a devida atenção que merecia, uma das mais rentáveis e com mais prestígio.
Fugiu, inclusivé, de Providence, onde tinha encontrado mais valias que mais nenhuma companhia internacional conseguiu obter naquele aeroporto.
Pode ser que, agora, possa acarinhar de outra forma esta rota, até porque o mercado americano não se esgota na nossa comunidade.
O certo é que, à maneira que a SATA se vai definhando, a TAP vai ocupando, paulatinamente, o seu espaço. E isto poderá significar muita coisa.
Para já, ais uma dor de cabeça para a nova administração da SATA.

Novembro 2019
Osvaldo Cabral