Osvaldo Cabral

Um governo bipolar



O governo de Vasco Cordeiro sofre de uma doença grave: é bipolar, com sintomas agudos.
Num dia está irritado com toda a gente, no outro está de bom humor e cede onde jurou que nunca cederia.
Nunca se viu tamanha desorientação política num governo nestes 40 anos de Autonomia.
O último governo de Carlos César tinha sido o pior de todos.
Quando Vasco Cordeiro tomou conta do barco, renascia muita esperança e, por isso, teve o resultado eleitoral mais vistoso que o PS poderia obter.
O primeiro mandato foi uma desilusão.
O eleitorado não perdoou e castigou bem o PS nas eleições de 2016.
Quando se esperava que Vasco Cordeiro tinha aprendido a lição e iria corrigir a trajectória, eis que temos o pior governo de todos os tempos, com a agravante de lá se manterem os mesmos que apoiaram os governos de Carlos César, sem pestanejarem.
O caso, agora ocorrido, do descongelamento das carreiras dos professores é de bradar.
Levaram um ano a empatar com aquela obsessão inútil, manifestamente maníaca, de que iriam esperar pela decisão do governo da República.
Prejudicaram professores, pais e alunos, estragaram a credibilidade de um Secretário Regional - que já andava nas ruas da amargura - e de vários deputados que defenderam, com unhas e dentes, a posição governamental, para agora darem uma imensa cambalhota, deixando toda a gente estupefacta.
O principal sintoma da doença bipolar é isso mesmo, segundo os especialistas: "um estado de humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável. Nas fases iniciais da crise a pessoa pode sentir-se mais alegre, sociável, activa, faladora, auto-confiante, inteligente e criativa".

Com a elevação progressiva do humor e a aceleração psíquica podem surgir outros sintomas, como "irritabilidade extrema", "zanga-se quando os outros não acatam os seus desejos e vontades", "grandiosidade, aumento do amor próprio", "alterações emocionais súbitas e imprevisíveis" e, não menos importante, "perda da noção da realidade".

Está tudo diagnosticado: há muito que este governo vive em estado de negação e dá-se muito mal com a realidade.

Não entende os sinais da sociedade e, pior de tudo, tem manifesta falta de autoridade perante os cidadãos.

O próprio líder perdeu toda a autoridade no governo e no partido.

Quis demitir o Secretário da Saúde naquela triste história do helicóptero desviado e não conseguiu, porque o lóbi político da Terceira não deixou.

Fez uma remodelação de Directores Regionais desconhecidos, substituindo-os por outros que ainda nem se deram a conhecer, para parecer que mandava.

Agora, matou politicamente o Secretário da Educação e, indirectamente, deixou mal Sérgio Ávila, mas não consegue a demissão de nenhum deles.

É, nitidamente, um Presidente sem autoridade e sem apoio público de ninguém.

Sinceramente, este governo não tem as mínimas condições para resolver coisa nenhuma nesta região.

São trapalhadas a seguir de trapalhadas.

A mais preocupante é a da SATA, com uma incapacidade e incompetência governativas que nunca se viu em tantos anos.

Depois do estrondoso falhanço da privatização da Azores Airlines, já estamos a caminho do fim do ano e ninguém sabe qual é a estratégia que já devia estar implementada como alternativa.

Estão a definhar a SATA de forma deliberada, porque têm o medo eleitoral de aceitar a única alternativa em que vamos desembocar: pedir ajuda à União Europeia, através do governo da República.
Enquanto isso, a SATA vai estar com a manutenção não programada e demorada de alguns aviões, porque não tem dinheiro, como o A320 CS-TKK, vão-se perdendo tripulações (novos pilotos que aguardavam type rating foram para a TAP e outros mais antigos vão seguir o mesmo caminho), são precisos mais de 90 milhões até meio de Dezembro para pagar leasors, combustíveis, bancos e vencimentos.
Estamos metidos num grande sarilho e há por aí muita gente que nem faz ideia da dimensão do desastre.
A carga negativa que a SATA transporta todos os dias é um sofrimento confrangedor que devia levar este governo ao crucifixo.
Sabem o que são mais de 200 milhões de euros de passivo?
Então aqui vai:
É trabalho de um ano de cerca de 14.300 pessoas a ganhar 1.000 euros por mês;
É o orçamento de um ano completo dos custos com pessoal de todas as escolas da Região (mais do que o vencimento anual de todos os professores juntos);
É o valor de cerca de 14 escolas novinhas em folha (a 15 milhões de euros cada uma);
É todo o valor gerado em todas as actividades do turismo durante um ano;
São todas as contribuições feitas para a segurança social nos Açores durante um ano (2015);
São todos os pagamento de prestações sociais feitos ao longo de dois anos;
São 7 anos de subsídios de desemprego pagos ao valor de 2015;
São mais de dez anos das transferências para o RSI (cerca de 18 milhões por ano);
São 8 anos de complemento regional de pensões.
Veja-se só este dado aterrador: os prejuízos da SATA estão a "comer", todos anos, o valor acrescentado do turismo, a nossa maior riqueza neste momento, que serve apenas para sustentar a gestão governamental ruinosa da transportadora.
Se em 2018 se confirmarem os resultados negativos de cerca de 45 milhões de euros, isto equivale a metade do trabalho facturado durante um ano inteiro com o labor de todos os trabalhadores do sector!
Este governo precisa urgentemente do Natal.
Para pedir ao Menino Jesus que lhe cure desta doença depressiva e nos salve a todos desta solene imolação.

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MAIS UM “BIGODE” - O Governo dos Açores acaba de levar mais um “bigode” de um privado da Madeira, ao conseguir iniciar a operação de carga com um avião próprio, sem ajudas de ninguém, quando competia ao Estado - Governo da República e Governo Regional - resolverem este assunto, que se arrasta há anos, com a carga de vergonha que deve assolar a cara dos nossos governantes.

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E O RELATÓRIO? - O relatório da Comissão de Transparência sobre a privatização da Azores Airlines já foi entregue ao governo, ao que parece, há uma semana.
Quando é que vai ser divulgado?
Ou o governo tem algo a esconder?

Outubro 2018

Osvaldo Cabral