Osvaldo Cabral

Uma Saúde cancerosa



É assustador frequentar as unidades de saúde por estas ilhas fora ou até mesmo falar com os doentes e profissionais do sector.
Não há dia em que não apareça na comunicação social ou à porta dos hospitais inúmeras queixas sobre a desorganização que reina nestas unidades, a demora nas consultas e nas cirurgias e, agora, até a falta de medicamentos, coisa nunca vista no tão propalado Serviço Regional de Saúde.
Não é surpresa para ninguém que a política de saúde nestes últimos anos tem sido uma lástima.
Basta contar o número de Secretários que passaram pela tutela, o maior de todos até hoje.
O recente caso da falta de medicamentos no Centro de Saúde da Ribeira Grande é a ponta de um grande iceberg que navega ao deus dará, sob a espantosa desorientação da Secretaria Regional da Saúde.
A Ordem dos Enfermeiros denunciou o caso e o Secretário, incrivelmente, não só desvalorizou a denúncia como ainda ironizou, dizendo que a Ordem está “empenhada no anúncio constante desta falta de medicamentos”.
Como é recorrente nalguns políticos desta terra, o Secretário gostaria que os enfermeiros estivessem calados, escondendo do público mais esta trapalhada.
Garantiu, depois, que o problema estava resolvido. E não era verdade.
A Ordem dos Médicos foi ao Centro de Saúde e confirmou a miserável situação.
O Secretário, encurralado, lá veio dizer que, afinal, há necessidade de “reforçar os stocks de medicamentos”, mas não resistiu à alfinetada, afirmando que é necessário “melhorar os níveis de comunicação” entre médicos e enfermeiros, no sentido de “reportar as situações e intervir”.
Ora, foi isso mesmo que fizeram em Julho para a administração da Unidade de Saúde de S. Miguel, que nem se dignou responder.
Foi o Secretário que respondeu à denúncia, quase um mês depois, e ainda se queixa da falta de comunicação entre os profissionais...
Ou seja, um problema que depende exclusivamente da administração do Centro de Saúde e da própria tutela, que durou um mês a responder à denúncia dos enfermeiros, ainda tem o desplante de “empurrar” a borrada para cima dos profissionais de saúde.
E qual o papel da Unidade de Saúde de S. Miguel no meio de tudo isto?
A pobreza franciscana desta política de saúde é de tal ordem que voltou a apresentar, agora, um programa já proposto pelo CDS-PP há três anos - exacto, há três anos! -, mas só agora aprovado durante a discussão do Plano e Orçamento, para reduzir as listas de espera de cirurgias.
E o programa agora anunciado é todo decalcado de outros aplicados há vários anos, sem nenhuma inovação, sem mais financiamento e, portanto, com a perspectiva de um resultado exactamente igual aos outros, que foi... o aumento substancial das listas de espera!
Em poucos anos as listas de espera engrossaram de 8 para mais de 11 mil doentes. É obra!
Nunca se viu tamanha incompetência no sector da Saúde nesta Região.
Em 2011 foi aplicado um programa de recuperação tal e qual o de hoje e o compromisso era para uma redução durante o mandato.
Chegou ao fim do mandato e as listas de espera tinham crescido!
Em 2014, novo programa.
O Secretário da Saúde de então, Luis Cabral, anuncia “uma viragem” na gestão das listas, a situação “completamente resolvida” nalgumas especialidades e uma “redução significativa” nas listas de espera.
Estamos em 2017 e nunca tivemos uma lista de espera tão grossa como a actual.
Como é que que se pode acreditar nesta governação?
Agora vem o programa Cirurge , outro paliativo com pouco mais de 900 mil euros e apenas 175 mil até ao final do ano , metade do que pagou à Clínica Bom Jesus para operações às cataratas...
A Ordem dos Enfermeiros, em Lisboa, enviou para a Procuradoria da República um pedido de investigação sobre as mais de 2.600 pessoas que terão morrido à espera de uma cirurgia nos hospitais do país, no ano passado.
Era bom saber quantas nos Açores, também, já terão morrido, nestes últimos anos, à espera que lhes chamassem para as respectivas cirurgias.
Só a ortopedia tem uma média de 780 dias de espera em Ponta Delgada.
Alguém imagina um doente, por exemplo, a precisar de ser operado a uma anca ou a precisar de uma prótese e o sofrimento e as infecções que deve contrair ao longo dessa espera?
E a deslocação de especialistas às outras ilhas? Outra borrasca nunca vista.
Desde 2014 que, teimosamente, a Secretaria da Saúde cortou com as deslocações, baseadas no regime de então, para só agora pretender repor o desastre que criou e, mesmo assim, ainda nem avançou com a nova proposta para resolver o problema.
Ao que parece, o carteiro demora muito entre a Secretaria Regional e a Presidência do Governo para aprovação da nova portaria.
Perante este diagnóstico francamente cancerígeno, já gastamos milhões e milhões de euros, sem que ninguém se responsabilize pela situação caótica no sector.
A doença, pelo que se vai vendo, é para se agravar.
Sem cura à vista.