Osvaldo Cabral

Vitória de Pirro



Tinha previsto na rádio pública, na sexta-feira, numa antevisão aos resultados eleitorais, que no domingo à noite iríamos assistir a duas forças políticas a cantar vitória.
A minha previsão era de 10 a 7 ou 9 a 8, nas Câmaras Municipais, a favor do PS.
Não era difícil adivinhar que o PS iria perder mais municípios e que o PSD não aguentaria Vila do Porto.
Basta olhar para o histórico das eleições anteriores e estar atento, todo o ano, para os sinais do comportamento popular, como é obrigação profissional de um jornalista e comentador.
As eleições criam dinâmicas e, nos últimos anos, era nítido que a dinâmica eleitoral do PS estava em queda, enquanto que o maior partido da oposição se encontrava em curva ascendente.
Desde que Vasco Cordeiro tomou conta do PS e da governação regional, em 2012, a degradação eleitoral nunca mais parou, quer nas regionais, quer nas autárquicas.
No ano seguinte, 2013, o PS perdeu, surpreendentemente, a Ribeira Grande e baixou, ainda que ligeiramente, a sua votação.
Há quatro anos, em 2017, nova queda: menos 2.500 votos, perde Nordeste e vê o seu principal rival subir mais 9 mil votos.
Tudo isto, somado às enormes perdas nas regionais, já constituía um sinal de alarme para os responsáveis socialistas tocarem a rebate e reflectirem sobre as causas da degradação eleitoral.
Não só o não fizeram, como prosseguiram com a mesma estratégia, os mesmos erros e recusando qualquer reflexão crítica interna sobre o que se passou.
O PS ganhou muitos vícios nos 24 anos de poder e o pior deles foi a “certeza absoluta” dos terrenos em que se movia, recusando ouvir qualquer reparo ou crítica, não promovendo o espírito crítico interno e apostando sempre nos mesmos.
O PS dos últimos tempos não tem nada a ver com o PS de há algumas décadas, onde se promovia a discussão interna e se abria as portas à humildade e a novos talentos.
O aparelho principal do partido fechou-se num círculo, afastou os poucos críticos e agora nem consegue promover os seus maiores talentos, de primeira água, para a linha da frente, como se viu nas desastradas escolhas dos candidatos à Câmara e Assembleia de Ponta Delgada.
Nisto os socialistas terceirense têm sido mais sensatos: perderam a Praia, mas tiveram a coragem de avançar com um candidato forte, ex-governante e com influência no interior do partido.
Em S. Miguel, os dirigentes do PS têm sido incapazes de fazer uma leitura limpa e sensata da nova realidade política e perdem credibilidade quando elevam ao extremo as expectativas negativas da governação da coligação.
Curiosamente é o mesmo erro que cometeu Passos Coelho, quando a ‘geringonça’ o apeou do governo.
O ex-Primeiro-Ministro nunca mais parou de alertar que vinha aí o “diabo” e o “diabo” nunca chegou.
Por cá os dirigentes do PS apregoam todos os dias o caos na governação, que estamos a bater no fundo e até se puseram ao lado de Costa nesta história triste do corte de verbas para os Açores.
Sejamos objectivos: se os açorianos estivessem zangados com esta solução de governo, se receassem o caos da coligação, teriam castigado os candidatos da coligação nas autárquicas de domingo.
Não aconteceu, como até reforçaram a votação na maioria dos candidatos da coligação.
Os militantes do PS têm todas as razões para questionar a estratégia que os dirigentes socialistas têm adoptado e devem mesmo questionar os seus responsáveis.
Em política tudo é questionável e o pior que pode acontecer a uma força política é ignorar os sinais, fazer de conta que está tudo bem e não admitir que se reflicta sobre isso.
O PS permite cantar vitória porque ganhou 9 Câmaras Municipais, mais do que as 8 conseguidas pelo PSD e coligação, mas é uma vitória de Pirro, com sabor a derrota, porque perde as mais importantes e porque vai perder a presidência da Associação de Municípios dos Açores.
A coligação já pôs em andamento as negociações para a Câmara das Velas (CDS) e a Câmara da Calheta (Grupo de Cidadãos) apoiarem o candidato da coligação, que será Pedro Nascimento Cabral.
Do outro lado, a coligação também canta vitória, porque obteve algumas conquistas inesperadas e aumenta a sua votação em relação há quatro anos.
Bolieiro tem razão para ver nisto um reforço da solução governativa, mas era bom que não entrasse em euforia, porque este bom resultado das autárquicas não apaga os disparates que alguns governantes da coligação têm cometido.
Era bom que a coligação lesse alguns sinais destas eleições, a começar pelo que aconteceu no Corvo e em Santa Maria.
Quando os aparelhos regionais dos partidos se intrometem, descaradamente, nos processos locais, passando por cima dos responsáveis por ilha, o castigo é mais do que certo.
Depois de ganhar as eleições regionais ao PSD em 1996, o PS levou doze anos até conseguir roubar a maioria das Câmaras Municipais aos sociais-democratas.
Era tarefa quase impossível a coligação fazer, agora, o mesmo, com apenas 10 meses de governação, mas tem razões para pensar que esta dinâmica eleitoral vai trazer benefícios no futuro a médio prazo.
Para tal é preciso que a coligação corrija muito do que ainda tem para corrigir.
Depois dos resultados de domingo certamente que ninguém estará a pensar em remodelações ou acertos no governo, mas é bom que Bolieiro pense nisso nos próximos tempos, pois já todos percebemos que há na sua equipa algumas cartas fora do baralho.
Se esta solução governativa funcionar no futuro, Bolieiro já terá sucessor quando fizer todos os mandatos que terá de fazer.
A vitória de Pedro Nascimento Cabral é uma espécie de corredor que começa no Largo do município e acaba em Santana.
Manter uma Câmara Municipal 28 anos depois, com as trapalhadas vividas nos últimos tempos à volta de negócios como a Calheta e a Azores Park e mudanças de 3 presidentes num só mandato, era mais do que suficiente para a oposição ter aqui uma janela de oportunidade que certamente não se repetirá.
O PS desbaratou a oportunidade.
Quanto aos restantes partidos, foram todos engolidos pela bipolarização e já se percebeu que alguns deles, como o Chega, foi fogo fátuo, uma combustão instantânea que se apagará nas próximas regionais.
Vem aí, agora, um novo e decisivo desafio para os autarcas eleitos.
O desempenho da ‘bazuca’ também dependerá deles.
Era bom que o Governo Regional começasse a traçar um rumo sobre o que vai fazer com os milhões que irão chover nos próximos tempos e não esquecesse que os municípios serão dos principais parceiros para construir a nova etapa e a nova oportunidade que a União Europeia nos oferece.
E quando se diz todos é mesmo todos, sejam de que partido for e de que ilha for.
Cá estaremos para o respectivo escrutínio.