Sandra Garcia

A cabeça do toiro, o ilusionista e outras histórias de fugir



No sábado passado, no âmbito de um workshop com o escritor Gonçalo M. Tavares, foi proposto aos presentes que indicássemos dois objectos que nos lembrassem a nossa infância. Veio-me, de imediato, à mente a cabeça de toiro que imperava sobre a sala do meu avô. Não se tratava de nada de tão macabro como algo empalhado; era apenas uma cabeça de toiro em cerâmica, no entanto, para a minha versão infantil da altura, era algo assustador. Inexplicavelmente, ficava sempre à espera que o toiro se libertasse da parede onde tinha sido, obviamente, aprisionado, e que viesse no meu encalce quando ninguém estivesse a ver. Para evitar este desfecho, que me perseguia em pesadelos, sempre que passava pela sala largava-me a correr, o mais rápido que podia, até alcançar o adulto que estivesse mais à mão, pois ao pé dos adultos nada que fosse mágico, maravilhoso ou terrífico, parecia acontecer.

Alguns anos mais tarde, do alto dos meus dez anos, passei a olhar a cabeça do toiro com sobranceria: nem podia acreditar que “o toiro” , que até parecia ter encolhido - fora sempre daquele tamanho?!- me tivesse assustado tanto. No entanto, essa nova perspectiva fez-me cair em novo engano: passei a considerar, como regra, esta nova verdade conquistada, de que os problemas diminuíriam à medida que crescesse, que só me pareciam grandes porque eu era pequena e que quando fosse maior nada me assustaria de novo da mesma forma. Santa ingenuidade. Quando, a toque de quedas e esfoladelas da vida, caí em mim, ainda assim, e já sem sobranceria, abracei o facto de que “o toiro” me tinha ensinado uma lição valiosa: a de que as coisas mudam consoante o nosso ponto de vista, consoante a nossa perspectiva dos problemas que temos, inevitavelmente, de enfrentar.

Ora vem isto a propósito da elaborada encenação do sr. Primeiro Ministro que, à conta do episódio da contagem de serviço dos professores, criou uma crise política ameaçando demitir-se. Diga-se que a minha admiração não teve a ver com o facto em si - este foi o homem que afastou o líder do seu partido para lhe tomar o lugar, promovendo-se como o futuro campeão de uma vitória que lhe viria a fugir, que mesmo não tendo vencido as eleições se fez Primeiro Ministro, que se torna invisível quando os problemas surgem passando, aparentemente, incólume perante os escândalos do seu executivo - mas com o sucesso com que António Costa parece reunir junto do público em geral, como ilusionista político, ao ponto de, mesmo aqueles que percebem os seus truques, acabarem por admirar o sucesso da marosca em si.

Muito foi dito, pouco foi devidamente explicado – nem sequer se percebe exatamente o montante em causa -, ninguém saiu bem na fotografia, num processo que ainda fará correr muita tinta, e, no entanto, enquanto toda a gente olhava para a mão direita de António Costa, que esbracejava, a mão esquerda lá foi tecendo o seu ilusionismo: embora pareça que esta crise pretendia atingir os partidos à sua direita, o principal alvo eram os seus parceiros de geringonça, que ousaram discordar da nova posição de Costa, antes concertada a três, sobre o assunto. A ideia é largá-la o mais rápido possível e governar sozinho.

E enquanto espeta a faca às duas pernas mais fracas do inusitado tripé, vai sempre acenando com a sua mão direita para não olharmos para a da esquerda. Afinal, face às sondagens para as eleições europeias, que ele mesmo elegeu como barómetro do seu executivo, não tem a certeza de poder matar a geringonça de imediato. Desde que possa manter-se no poder antes a reedição da geringonça que nada, e, por isso, Aquele Que É Claro Que Nunca Se Demitiria A Não Ser Que Tivesse a Certeza Absoluta de Ganhar A Seguir, enquanto criticava violentamente os restantes protagonistas desta crise política, que nunca o foi, foi amenizando o discurso face aos seus parceiros à esquerda, apesar de terem provado, à evidência, de que o seu apoio à “governabilidade”, sustentáculo deste governo ímpar em Portugal, não é garantido. Outros “toiros”, outras touradas!

Sandra Garcia