Poluição no Rio Tejo. O que já se sabe

por RTP
Arlindo Consolado Marques

A poluição no Rio Tejo arrasta-se há vários anos. Têm sido muitas as pressões humanas ao longo do curso por causa das sucessivas descargas poluentes. A última foi denunciada com vídeos nas redes sociais pelo conhecido “Guardião do Tejo”. O maior rio da Península Ibérica estava coberto com um manto de espuma branca. As análises agora divulgadas indicam que, na origem da poluição, estão as empresas de pasta de papel da região. Os níveis de celulose das amostras superavam o recomendado em "cinco mil vezes".

Os primeiros resultados das análises foram conhecidos na quarta-feira. Concluiu-se que a carga poluente que a 24 de janeiro foi detetada na região de Abrantes teve origem em descargas da indústria da pasta de papel. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) detetou níveis de celulose “cinco mil vezes” acima do normal.

“Com base nestas análises efetuadas e na monitorização e acompanhamento efetuados, confirma-se que o acumular da carga orgânica nestas localizações do rio, com origem nas indústrias de pasta de papel localizadas a montante, tem um impacto negativo e significativo na qualidade da água no Rio Tejo”, declarou na quarta-feira o presidente da APA, Nuno Lacasta.

Arlindo Consolado Marques

Segundo o responsável, a concentração de carga orgânica na zona de Abrantes foi o desfecho de uma conjugação de fatores. Na próxima semana vai ser avaliada a redução de descargas da fábrica da Celtejo determinada pelo Ministério do Ambiente.Por determinação da tutela, a Celtejo teve de cortar as descargas de efluentes em 50 por cento por dez dias. A APA já fez saber que é desta empresa que partem 90 por cento das descargas da indústria da pasta de papel, embora responsabilize todas as unidades.

A Celtejo foi forçada a antecipar a construção de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais Industriais (ETARI) em dois anos. A estrutura está a operar desde o final de setembro de 2017, mas parcialmente, segundo a APA.

Em 2015, a poluição do maior rio da Península Ibérica foi considerada um dos piores factos ambientais do ano pela Quercus.

No último ano, as autoridades ambientais receberam dezenas de denúncias por descargas, mas apenas uma fábrica teve a atividade suspensa.

Arlindo Consolado Marques

Um facto já criticado pelo Inspetor-Geral do Ambiente que também esteve no local, acusando os tribunais de, por vezes, não punirem devidamente os responsáveis.
"Decisões não são confirmadas em tribunal"
“Nós tomamos decisões administrativas em processos de contraordenação em que muitas vezes fixamos coimas que, não raras vezes, são coimas elevadas mas que, em tribunal, elas ou não são confirmadas ou são por vezes reduzidas a valores que não são compatíveis com aquilo de que estamos a falar ou outras vezes até são alvo de decisões de condenação ou de reprimenda à empresa”, lamentou Nuno Banza.

Entretanto a APA mandou fechar a Fabrióleo. A fábrica de reciclagem de óleos alimentares de Torres Novas trabalha com uma licença ilegal. Foi já multada várias vezes por descargas poluentes para o Rio Tejo e por causa do mau cheiro.

A fábrica tem dez dias para contestar a decisão, que foi tomada na sequência de uma vistoria realizada na semana passada.

Entretanto, a Fabrióleo já anunciou que vai contestar as medidas cautelares que incluem o encerramento da exploração, determinadas na sequência da vistoria realizada na semana passada.
As imagens subaquáticas
A RTP teve acesso a imagens exclusivas do fundo rio e do local onde são feitas as descargas das indústrias de celulose. Um dia depois de a APA ter demonstrado que a principal fonte de poluição são as indústrias do papel, o ministro do Ambiente explicou que parte do Rio Tejo está morta.

O vídeo, realizado no dia 31 de janeiro, foi feito pelas diversas equipas que estão a trabalhar no rio, na sequência das investigações que foram ordenadas pelo Ministério do Ambiente, depois de ter sido detetada uma enorme mancha de espuma poluidora junto ao açude de Abrantes.

As condutas de cimento estão instaladas a 20 metros de profundidade ao largo do cais de Vila Velha de Ródão. Os mergulhadores profissionais retiram os primeiros sedimentos com a matéria orgânica.
Ministério Público investiga
O Ministério Público está a investigar as empresas de celulose, entre elas a Celtejo, a Navigator e a Paper Prime.

Os pescadores do Tejo apresentaram, entretanto, queixa no Tribunal Europeu. Querem ser compensados pelos prejuízos que têm há vários anos com a poluição do rio.

Arlindo Consolado Marques

O primeiro-ministro, António Costa, comprometeu-se a alterar as licenças das descargas da indústria da pasta de papel para travar a poluição no Tejo.

António Costa defendeu que o caudal do rio e os efeitos das condições climáticas não permitem que as empresas de celulose mantenham o mesmo volume de descargas no Tejo.

Na quarta-feira a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) concluiu que as descargas das empresas de pasta de papel a montante do açude de Abrantes, onde há uma semana foi detetada uma grande mancha de espuma, tiveram um “impacto negativo e significativo” na qualidade da água do Rio Tejo, que resultaram num acumular de carga orgânica.
Três anos de denúncias
Arlindo Consolado Marques, o “guardião do Tejo”, da Associação ProTEJO, tem vindo a denunciar às autoridades competentes, desde o início de 2015, a grave poluição que começou a observar no Rio Tejo, a qual começou a registar em vídeo e a divulgar nas redes sociais para que todos pudessem ver.



 
Em muitas das situações registadas em vídeo e denunciadas por Arlindo Consolado Marques, já se suspeitava que grande parte da poluição fosse proveniente das empresas de celulose.

A Celtejo interpôs mesmo uma ação judicial contra Consolado Marques, alegando ofensas à credibilidade e bom nome, em consequência das denúncias que o mesmo tem feito e divulgado nas redes sociais sobre a poluição do Rio Tejo, e reclamando o pagamento de uma indemnização de 250 mil euros. Um processo que ainda está a decorrer.

Entretanto o diretor de Qualidade e Ambiente da Celtejo veio alegar que a fábrica de pasta de papel da Altri, localizada em Vila Velha de Ródão, “é completamente alheia ao que tem surgido”.

Arlindo Consolado Marques

“Não temos qualquer anomalia ou qualquer descarga e a produção ao longo das últimas semanas tem sido estável”, afiançou Soares Gonçalves aos jornalistas.

O responsável da Celtejo disse que a ETARI - Estação de Tratamento de Águas Residuais Industriais - da unidade emprega tecnologia de ponta, com “ultrafiltração por membranas”, e é mesmo a mais moderna em Portugal – os três reatores que a compõem têm uma capacidade combinada de 36 mil metros cúbicos.

Também Sofia Jorge, engenheira no setor ambiental da Celtejo, advertiu para o impacto das medidas impostas pelo Ministério do Ambiente, desde logo a redução do caudal de efluentes: “A fábrica não pode continuar nestas condições. Deixa de ser viável continuar assim”.

“Não estamos aqui para acusar ninguém. Mas muita coisa ao longo do rio deve ser verificada”, acentuou a engenheira, para acrescentar a Celtejo “não tem multas, nem foi condenada”.

Só na próxima semana é que serão conhecidas análises mais pormenorizadas sobre a causa da poluição.
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