Pandemia deixou migrantes mais vulneráveis ao tráfico e usura, denuncia ONG

por Lusa
Luis Cortes - Reuters

O impacto da crise económica causada pela pandemia de covid-19 deixou os trabalhadores migrantes em todo o mundo mais vulneráveis ao tráfico humano, crime organizado e usura, alertou uma organização não-governamental (ONG).

A Aliança Internacional de Migrantes (IMA, na sigla em inglês) vai realizar, a partir de quarta-feira e durante quatro dias, a primeira assembleia geral desde o início da pandemia, reunindo na capital da Tailândia, Banguecoque, cerca de 150 representantes de mais de 30 países, incluindo Jenny Uchuari, representantes dos imigrantes do Equador no Brasil.

"Muita coisa aconteceu durante a pandemia", disse à Lusa a presidente da IMA.

Eni Lestari Andayani Adi deu como exemplo os EUA, que, segundo a organização International Rescue, expulsaram mais de 2,5 milhões de migrantes ao abrigo de uma medida sanitária, imposta em março de 2020, para controlar o fluxo na fronteira terrestre devido à propagação da covid-19.

"Muitos de nós fomos infetados ou corremos todos os dias o risco de sermos infetados, não só por causa do nosso trabalho, mas também devido às nossas condições de vida", sublinhou Eni Lestari.

Em países como Singapura e Malásia, muitos surtos surgiram em dormitórios onde os trabalhadores migrantes vivem "apinhados, em condições pouco higiénicas e desumanas", lamentou a ativista.

"Se formos infetados, podemos perder o trabalho a qualquer momento, não receber qualquer compensação e sermos discriminados ao ponto de não conseguir arranjar outro emprego", disse Eni Lestari.

Mesmo os migrantes que escaparam ao novo coronavírus foram afetados pela crise económica, acrescentou a indonésia.

"Especialmente os que trabalham em fábricas e em barcos, não conseguem receber o salário que lhes foi prometido", levando-os a "passar fome", lamentou Eni Lestari, que vive em Hong Kong.

Na vizinha região chinesa de Macau, durante um período de confinamento parcial, imposto em julho devido ao pior surto desde o início da pandemia, as autoridades indicaram que os empregadores não tinham de pagar aos trabalhadores, obrigados a permanecer em casa.

Na altura, associações disseram à Lusa que havia trabalhadores imigrantes com graves carências de bens de primeira necessidade e que estavam a sobreviver apenas da doação de alimentos.

Desde que Macau fechou as fronteiras a estrangeiros sem o estatuto de residente, em março de 2020, o território perdeu quase 19% da mão-de-obra não-residente, com quase 35.500 pessoas a ficarem sem emprego, situação que legalmente os obriga a abandonar a cidade.

Mas muitos ficaram, "alguns mais de um ano", disse à Lusa a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Migrantes Indonésios em Macau, Yosa Wari Yanti.

Isto apesar de, com a pandemia, "ter deixado de ser tão fácil arranjar um outro emprego", sublinhou Eni Lestari. "Há mais requisitos a cumprir, vacinação, testes e leva mais tempo agora", acrescentou.

"Quem tem chegado recentemente a Hong Kong tem pagado entre 15 mil e 17 mil dólares de Hong Kong [1.800 a 2.100 euros] só pelo processo. A agência de recrutamento e o empregador não querem pagar as despesas de quarentena, que são deduzidas do salário", referiu a ativista.

O desespero abre as portas ao aumento do tráfico humano, "por grupos cada vez mais organizados", acrescentou Eni Lestari.

Tal como os timorenses enganados com promessas de emprego e abandonados em Lisboa e em Serpa, também muitos indonésios "foram levados para a Turquia, com promessas de emprego na Polónia, e não conseguem regressar a casa", diz a líder da IMA.

Alguns migrantes acabam na prostituição, referiu Eni Lestari, enquanto Yosa Wari Yanti diz que outros recorrem à venda de droga ou são apanhados em redes de agiotas.

"Houve um caso de uma indonésia que teve cancro e a nossa associação tentou ajudá-la, mas não pudemos fazer nada porque tinham-lhe tirado o passaporte, quando pediu um empréstimo. Ela acabou espancada porque não devolveu o dinheiro", disse Yosa.

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