Covid-19. Negros, latinos e nativos em maior risco de doença grave nos EUA

Os dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos apontam que as populações negra, hispânica e nativo-americana têm quatro vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas com Covid-19. As autoridades de saúde soaram o alarme sobre esta disparidade há vários meses e exigem uma melhor resposta por parte do Governo Federal.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Brendan McDermid - Reuters

Segundo os números do CDC, no período entre 1 de março e 7 de novembro foram registadas 70.825 hospitalizações por Covid-19. Embora o maior número de hospitalizações esteja associado a brancos e negros não hispânicos, os dados demonstram que os grupos raciais e étnicos foram afetados de forma desproporcional.

Ao analisar as taxas ajustadas por idades entre raças e etnias, o CDC concluiu que a taxa de hospitalizações entre hispânicos ou latinos foi aproximadamente 4,2 vezes superior à taxa entre brancos não hispânicos.

O mesmo se aplica a indígenas americanos ou nativos do Alasca e negros não hispânicos, que foram hospitalizados cerca de 4,1 a 3,9 vezes mais do que a taxa de brancos não hispânicos, respetivamente.

As conclusões do CDC são consistentes com relatos de que americanos não brancos foram severamente atingidos pela pandemia do novo coronavírus. Uma outra pesquisa publicada na revista EClinicalMedicine, que pertence à revista científica The Lancet, também concluiu que a população negra e asiática corre um risco substancialmente maior de contrair a doença Covid-19 do que pessoas brancas. Os negros têm duas vezes mais probabilidade de serem infetados com o SARS-CoV-2 do que os brancos e as pessoas de origem asiática têm 1,5 mais probabilidade.

O número de casos de Covid-19 entre crianças negras e hispânicas, assim como em todas as idades, é superior comparativamente a outros grupos. Ao analisar as taxas brutas de hospitalização estratificadas por idade entre raças e etnias, o CDC concluiu que, em comparação com pessoas brancas não hispânicas na mesma faixa etária, as taxas de hospitalização foram 6,5 vezes superiores entre hispânicos ou latinos até aos 17 anos; 7,3 vezes superiores entre hispânicos ou latinos de 18 a 49 anos; 5,2 vezes superior entre indígenas americanos não hispânicos ou nativos do Alasca com idade entre 50 e 64 anos e 3,1 vezes superior entre negros não hispânicos com idade igual ou superior a 65 anos.

Para além disso, a taxa de mortalidade entre pessoas negras e hispânicas infetadas com Covid-19 também foi desproporcionalmente mais elevada durante o verão.
Como se explica esta disparidade?
As visíveis diferenças de infeção, hospitalização e mortalidade por Covid-19 entre a população negra, hispânica e nativo-americana são causadas por um conjunto de fatores, como maiores níveis de pobreza e profissões que não são compatíveis com o teletrabalho.

Jarvis Chen, epidemiologista social, explica à CNN que uma maior proporção da população negra tem empregos nas áreas da saúde, produção alimentar e transportes públicos, onde o risco de exposição à Covid-19 é maior. No caso de ficarem doentes, muitos temem que a sua saúde possa afetar a sua capacidade de sustentar financeiramente as suas famílias a curto e longo prazo.

Para além disso, algumas destas comunidades, incluindo latinos e afro-americanos, geralmente não têm seguro ou não confiam no sistema de saúde e sofrem mais de hipertensão, doenças cardíacas, diabetes e de obesidade, o que pode conduzir a um desenvolvimento de uma doença mais grave em caso de infeção por Covid-19.

Esta disparidade de números entre as diferentes comunidades evidencia uma grande falha no cerne da resposta dos EUA à Covid-19. “Não é notícia de última hora que as comunidades negras e latinas estão a sofrer e a morrer por causa da Covid-19 em taxas muito superiores às dos americanos brancos. Mas, com o passar dos meses, vemos que as taxas de mortalidade continuam a ser muito mais altas e até estão mesmo a acelerar entre os grupos vulneráveis”, disse Andi Egbert, investigadora do APM Research Lab.

É extremamente desencorajador saber que estamos cientes de onde estão as maiores vulnerabilidades e, ainda assim, temos sido ineficazes nas nossas respostas”, lamentou Egbert a The Guardian.

As autoridades de saúde soaram o alarme há meses sobre esta tendência e especialistas em saúde pública consideram que o curso apenas mudará se os fatores agravantes que colocam estes grupos em desvantagem forem discutidos.

Para Chen, as conclusões do CDC devem ser um alerta para que as autoridades de saúde reflitam sobre a distribuição de equipamentos de proteção individual, políticas sensatas de auxílio à doença e distribuição de uma potencial vacina para Covid-19.

"Os dados demográficos contam parte da história, mas eles realmente devem levar-nos a pensar sobre como ajudar as populações que mais beneficiarão em termos de proteção", disse Chen.
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