Autora brasileira nos EUA diz que política migratória americana "é sobre discriminar"
A sensação de viver permanentemente como estrangeira marca a experiência da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato nos Estados Unidos, onde diz que a atual política anti-imigração reforça a vulnerabilidade, por ter mais a ver com "discriminação do que legalidade".
A viver há 15 anos nos Estados Unidos, a escritora afirma que o ambiente político recente tornou mais visível uma tensão que já fazia parte da condição migrante, mas que se intensificou com medidas e discursos centrados na restrição e no controlo da imigração.
"Ser imigrante altera a existência de forma completa", porque não há nada que possa ser feito que mude essa condição, disse a autora em entrevista à agência Lusa, durante uma passagem por Lisboa para lançar o seu romance "Horas azuis".
Bruna Lobato conta que por vezes até se esquece que é imigrante, faz a sua vida normal, vai "tomar café, comprar um pão na padaria", mas abre a boca e as pessoas já não a "veem só como uma pessoa normal".
"Eu estou sempre sendo relembrada que estou na condição de estrangeira", afirmou, contando que embora no seu trabalho como professora universitária isso não esteja presente, até pelo caráter das suas aulas, frequentadas por alunos de diversas nacionalidades, na vida social é mais evidente.
"Um colega meu, um amigo, perguntou: `Você tem muitos amigos americanos?`. Eu falei: `Ah, tenho vários`. Aí eu comecei a listar vários amigos americanos. Ele disse: `Todos são filhos de imigrante`. Eu disse: `É verdade, são`", contou.
Este episódio foi recordado pela escritora para sublinhar que apesar de vários dos seus amigos serem americanos, "são americanos que talvez tenham uma sensibilidade" parecida e entendam um pouco da sua vida.
"Talvez eu seja uma pessoa que sempre está por dentro, mas também sempre está por fora. Então, talvez eu me sinta ainda um pouco estrangeira. E esses dias em que tem tanta tensão política, eu sou lembrada do meu estrangeirismo, até com frequência", afirmou, numa alusão às políticas anti-imigração levadas a cabo pelo atual presidente norte-americano, Donald Trump.
Para a autora, a discussão pública sobre estatuto legal nem sempre corresponde ao que observa no quotidiano, que tem muito mais a ver com atos discriminatórios, em que a retórica política tende a generalizar-se e a criar um clima de suspeição que ultrapassa a questão documental.
Tudo isto contribui para um ambiente de insegurança e aumento de vulnerabilidade, que leva a que cada um desconfie do próximo: "Eu vou na rua e converso com alguém, e fico: `Será pessoa de confiança? Eu posso conversar com ela normalmente?`", confessou.
Segundo Bruna Dantas Lobato, o impacto não se limita a quem está em situação irregular, a sensação de exposição atinge também quem tem residência estável, carreira consolidada e integração profissional.
"Eu estou mais avançada na minha jornada de imigrante legal, então eu deveria ter mais segurança, mas é como se me importasse cada vez menos qual é o `status`, porque não é sobre isso. A preocupação não é de verdade sobre leis, é sobre discriminar as pessoas de certos lugares", afirmou.
Admitindo que se encontra numa "situação privilegiada" por ser professora universitária, ter respaldo da instituição, bem como residência permanente e estatuto de imigrante legal, reconhece que hoje isso não é garantia de nada.
"A gente sabe que ser imigrante legal não protege mais as pessoas do jeito que protegia em outra hora, em que isso iria lhe garantir que você não vai ser preso ou sequestrado um dia. Hoje em dia, tudo é possível, você pode ser sequestrado", disse, contando um episódio que ilustra a situação que se vive.
"Recebi uma mensagem do trabalho com um protocolo de `o que fazer se eles tentarem te sequestrar ou sequestrar um dos seus alunos durante a aula`", contou a escritora, acrescentando: "É um absurdo que isso precisa ser dito, o que eu tenho de fazer se alguém tentar entrar na minha classe, enquanto eu estou falando, para levar um adolescente, que é meu aluno e eu tenho o papel de proteger".
Viver entre dois países -- acrescenta - é simultaneamente um privilégio e um exercício constante de deslocamento, porque se, por um lado, sente que pertence ao país onde vive, por outro reconhece que a pertença nunca é absoluta.
Em ambos os países é vista como estrangeira, no Brasil, como alguém que partiu; nos Estados Unidos, como alguém que chegou, considerou.
O facto de viver entre línguas também acentua essa posição intermédia, em que pensar em duas línguas, alternar códigos e referências e sentir-se ligada a dois contextos distintos faz parte da sua rotina.
Mas, ao mesmo tempo, essa duplicidade reforça a consciência de que não ocupa totalmente nenhum dos lugares.
Talvez seja essa condição que a inspira a continuar a escrever sobre imigração, um tema que pensou que esgotaria neste seu primeiro romance autobiográfico, "Horas azuis", sobre uma jovem brasileira emigrante nos Estados Unidos, que mantém ligação à distância com a mãe através do computador.
"Acho que não vou perder interesse no tema tão cedo. Não existe nada 100% familiar e nada 100% estrangeiro. As coisas têm essa duplicidade, isso me interessa muito, então eu quero seguir os próximos passos da vida de um imigrante, na literatura".
Além dos seus planos enquanto escritora, Bruna Dantas Lobato continuará a fazer trabalhos de tradutora, a dar aulas de escrita de ficção na universidade, e a viver nos Estados Unidos.
"Acho que é esse o meu caminho pessoal. E quem sabe ficar cada vez mais confortável em um papel de imigrante também. Acho que à medida que os anos vão passando, eu estou mais e mais acostumada com ele", disse, confessando no final: "Mas, assim, eu tenho essa fantasia de, quem sabe, voltar ao Brasil".