Banda de Arouca celebra 275 anos com livro prefaciado por Catarina Vaz Pinto
Arouca, Aveiro, 22 nov (Lusa) - A Banda de Música de Figueiredo, em Arouca, celebra este mês 275 anos de atividade e assinala-os lançando sábado um livro prefaciado pela sua conterrânea Catarina Vaz Pinto, mulher de António Guterres e vereadora da Cultura em Lisboa.
A obra em causa aborda "a História e as histórias" desse coletivo musical, com base numa recolha da jornalista Cláudia Oliveira, que aponta a banda como uma das três mais antigas do país e revela como essa evoluiu desde que os músicos se deslocavam a pé para as atuações, carregando os instrumentos ao longo de 40 quilómetros e leiloando entre si quem seria pago para transportar o peso do bombo.
"Este livro sublinha (...) a necessidade de dar espaço às memórias e às vozes dos que por ali foram passando e deixando a sua marca", defende Catarina Vaz Pinto, ao reconhecer o papel da Banda de Figueiredo para a formação musical dos mais jovens, o sentimento de pertença na comunidade e o relacionamento intergeracional.
"Mais importante (...) é que a banda continua em atividade", realça a autora do prefácio. "Mesmo em momentos de adversidade, há uma comunidade que a valoriza e estimula, e que continua a desenvolver esta prática cultural - (...) e há uma memória musical e comunitária que não se perde", afirma.
José Barbosa, presidente da Banda de Figueiredo, reconhece, contudo, que as dificuldades persistem. "O mais difícil é mesmo arranjar as verbas de que precisamos, seja para os instrumentos que emprestamos na escolinha, com ensino 100% gratuito, seja para a logística das deslocações quando vamos atuar fora", explica.
Ainda assim, o ambiente vivido na banda ajuda a lidar com as exigências do dia-a-dia e também com obstáculos de caráter mais pontual. "Temos cerca de 90 elementos com idades desde os 6 anos até perto dos 40 e essa diversidade ajuda a manter as coisas em funcionamento, porque os mais velhos percebem as dificuldades dos mais novos, ajudam-nos a superá-las e estabelece-se entre todos uma boa relação", começa por explicar.
É essa solidariedade que se manifesta depois perante problemas mais complexos: "Em 2011 a Câmara Municipal cedeu-nos uma antiga escola para sede, tivemos que lá fazer obras de adaptação e foram os próprios músicos a tratar disso. Isolamento acústico, a escola não tinha nenhum e nós andámos em Arouca a percorrer todas as casas de fabrico de pão-de-ló a ver se nos davam as caixas dos ovos".
Reunidos "uns milhares" dessas embalagens cartonadas, os músicos dedicaram as suas folgas a aplicá-las no revestimento das paredes interiores do edifício e nisso foram até acompanhados por ex-elementos da banda que, entretanto emigrados, colaboram com os seus projetos sempre que passam férias na terra.
Cláudia Oliveira diz que o livro sobre os 275 anos da Banda de Figueiredo não se limita, portanto, a revelar a cronologia possível sobre o seu percurso, abordando também a experiência pessoal de alguns dos músicos que já se reformaram do coletivo.
Nas 226 páginas da obra há assim uma seção para testemunhos pessoais e ainda outra para a reprodução de documentos "já muito mal tratados", cujo conteúdo histórico a jornalista pretende dessa forma ajudar a preservar.
"Temos uma partitura manuscrita de 1899, por exemplo, e uma folha de pagamentos com o nome de todos os músicos, quanto é que eles recebiam pelas atuações e o valor que lhes era pago por transportarem o bombo - que, lá está, tinha sempre tratamento especial por ser o instrumento mais pesado da banda", conclui.