Câmara de Penacova cancela sessão do escritor Miguel Carvalho em festival literário
A participação do jornalista e escritor Miguel Carvalho num festival literário, organizado por um município da zona centro, foi cancelada por instruções do presidente de Câmara, denunciou o autor de "Por dentro do Chega".
O evento é o Festival Literário de Penacova, que irá decorrer entre 02 e 07 de março, confirmou fonte da autarquia à agência Lusa.
Miguel Carvalho relatou, numa publicação nas redes sociais, ter recebido um `email` a cancelar a sua presença "por instruções diretas do presidente de Câmara, eleito pelo PSD e, curiosamente, ex-jornalista", sem, no entanto, identificar o autarca.
"Foi-me comunicado, por `e-mail`, que a ordem foi dada pelo presidente [da Câmara]. E, obviamente, 51 anos depois do 25 de Abril, não vou tolerar este tipo de coisas em nenhuma circunstância", confirmou hoje à agência Lusa.
O presidente da Câmara de Penacova, Álvaro Coimbra, por seu lado, numa resposta por escrito à Lusa, recusou a existência de censura, afirmando que se trata de uma opção de "conteúdos do festival" e da recusa de "temáticas politico-partidárias".
"Gostava de saber o que é que a generalidade das forças vivas e das pessoas que valorizam a cidadania ativa pensam disto em Penacova", acrescentou à Lusa Miguel Carvalho.
Segundo a publicação do jornalista e escritor, o convite, feito em outubro, era para uma sessão de apresentação do seu livro "Por dentro do Chega".
"Tudo ficou acertado com a autarquia em novembro e foi-me confirmado que o apresentador do livro seria um social-democrata prestigiado, com pensamento próprio e professor na Universidade de Coimbra, que já o tinha lido e considerado que o seu conteúdo era relevante", escreveu.
Num excerto de uma resposta encaminhada para o presidente da Câmara, Miguel Carvalho confessou que receber a informação, a menos de dois meses do evento, lhe gerou "espanto e indignação".
"O que verdadeiramente me revolta e tira o sono é este cancelamento, sem qualquer justificação", referiu, exigindo "um esclarecimento urgente, por escrito, sobre os motivos do cancelamento", face ao que ainda julga serem os valores do Portugal democrático e da liberdade de expressão, conquistados em Abril de 1974.
A conclusão do jornalista é que, mais de 51 anos depois do 25 de Abril, "por cobardia ou acomodação face a estes tempos sombrios, uma autarquia entende voltar atrás num convite formulado há meses, sem qualquer explicação".
"É o mais grave episódio até ao momento, mas não é único: outras autarquias, que me tinham convidado para determinadas sessões, também recuaram para, e passo a citar, `não terem problemas`", assinalou.
À Lusa, o presidente da Câmara de Penacova, Álvaro Coimbra, disse, por escrito, que "não se trata de censura, mas sim de uma opção em relação aos conteúdos do festival literário".
"Tratando-se de um evento organizado por uma instituição pública entendemos, desde a primeira hora, que não devemos incluir temáticas politico-partidárias. Como é óbvio, isto é válido para todo o espetro político", assinalou, acrescentando que o mesmo já foi transmitido ao autor através de `email`.
Álvaro Coimbra indicou ainda que "desconhecia que existia um convite ao autor desde outubro passado".
"Foi um erro de programação que não deveria ter acontecido", disse.
João Paulo Barbosa de Melo confirmou também à Lusa que tinha sido convidado para apresentar o livro "Por dentro do Chega", em Penacova, a 03 de março, e que, "há dias", lhe foi dito que a sessão "já não ia acontecer", desconhecendo as razões.
"Não tenho a mais pequena ideia. Apenas me disseram que já não ia ocorrer", afirmou.