Contemporâneo de Miguel Torga destaca homem solitário, íntegro e duro

por Agência LUSA

Vizinho e companheiro de caça do escritor Miguel Torga, em São Martinho de Anta, Sabrosa, o padre Avelino Silva recorda o homem "solitário, íntegro e duro" a quem diz que faltou o reconhecimento do Prémio Nobel da Literatura.

Este ano vai ser assinalado, em várias localidades portuguesas, o centenário do nascimento do escritor, com as comemorações a arrancar oficialmente quarta-feira, dia do 12º aniversário da morte de Miguel Torga.

Quarta-feira, será descerrada uma placa no Itinerário Principal 4 (IP4), zona do Alto de Espinho (Vila Real), alusiva ao "Reino Maravilhoso", que pretende assinalar a entrada na região que foi perpetuada pela escrita de Miguel Torga.

Miguel Torga, cujo nome de baptismo era Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, e faleceu a 17 de Janeiro de 1995, em Coimbra.

Avelino Silva, 93 anos, disse à agência Lusa que conheceu Adolfo Rocha ainda muito novo, mas que, na altura, não era amigo dele.

"Só mais tarde, e nos serões que fazíamos em casa dele (Miguel Torga) já depois de formados, é que nos tornamos amigos", frisou, mostrando com orgulho uma página do Diário XVI, escrito em 1990 por Torga, dedicada a este "vizinho de porta".

"Era um homem titânico, vertical, onde não havia mentira", revela o padre, que partilhou muitas horas de caça com o escritor, uma das maiores paixões de Miguel Torga.

Apesar de viver em Coimbra, Torga visitava muitas vezes a sua terra natal À a que, na sua autobiografia "A Criação do Mundo", chamava Agarez.

No entanto, na terra onde nasceu Adolfo Rocha não era "estimado nem reconhecido".

"As pessoas achavam-no mal educado, duro, agreste. E a verdade é que era um homem "de poucas palavras e pouco simpático", frisou.

E era também, segundo Avelino Silva, um homem "solitário".

"Ele tinha consciência do movimento adversário que lhe era dirigido e a única coisa que respondia era: eles um dia me dirão", salientou.

O reconhecimento da sua obra chegou mais tarde. Hoje a principal rua de São Martinho de Anta tem o nome do escritor, existe um Circulo Cultural em sua homenagem na localidade e, em breve, abre o Espaço Torga - um edifício com auditório e sala de exposições.

São centenas os visitantes que todos os anos se deslocam à sua terra natal para conhecerem a casa onde nasceu o escritor, o seu primeiro consultório e o negrilho [árvore de grande porte] localizado no centro da vila, que foi muitas vezes descrito nos seus poemas e curiosamente secou no mesmo ano da morte de Miguel Torga.

Miguel Torga formou-se em medicina pela Universidade de Coimbra.

Em 1976, foi distinguido com o Grande Prémio Internacional de Poesia das Bienais Internacionais de Knokke-Heist e, em 1981, com o Prémio Montaigne (Alemanha). Em 1989, recebeu o Prémio Camões.

Em 1992, foi eleito Figura do Ano da Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira em Portugal.

O padre Avelino apenas lamenta que Torga nunca tenha ganho o Prémio Nobel da Literatura, porque considera que "era o reconhecimento que ele merecia".

Entre algumas das obras de Torga destacam-se os "Contos da Montanha", "Bichos", "A Criação do Mundo", "Senhor Ventura" ou "Vindima", e na poesia "Rampa", "Abismo", "Lamentação", "Libertação" ou "Poemas Ibéricos".

Segundo João Luís Sequeira, da Delegação Regional da Cultura do Norte (DRCN), as acções programadas para homenagear o escritor vão desde a apresentação de espectáculos musicais, peças de teatro, livros e organização de roteiros, até à realização de seminários, concursos de fotografias e ao lançamento de um selo comemorativo.

Coordenadas pela DRCN, estas acções contam com a colaboração das câmaras de Sabrosa e de Vila Real, Cooperativa Árvore, Círculo Cultural Miguel Torga, Teatro de Vila Real, Universidade de Trás-os- Montes e Alto Douro, Junta de São Martinho de Anta, IPPAR, Instituto de Estradas, Centro Português de Fotografia, Quercus, CTT e Museu do Douro.


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