Escavações no Mosteiro de S. Vicente revelam conjunto de tecidos antigos único no país
Um conjunto de tecidos datados do século II ao XVIII, uma referência científica única no país, está exposto no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, resultado de escavações feitas durante décadas no monumento.
Os tecidos centenários fazem parte da exposição "Dois mil anos de Quotidiano e Memória", que engloba dezenas de objectos recolhidos pelo arqueólogo Fernando Rodrigues Ferreira e a sua equipa dentro do próprio edifício e em redor.
Trata-se de uma exposição permanente que pretende "mostrar aquilo que normalmente não se vê nos museus", explicou à Agência Lusa o arqueólogo responsável pelo trabalho, iniciado nos anos 60.
"Nos museus aparecem sobretudo peças mais deslumbrantes, mas nem sempre as mais importantes", comentou, sobre os diversos retalhos de indumentárias, retiradas de restos mortais exumados no mosteiro.
São tecidos de lã, seda, linho e algodão, num total de 180 peças estudadas pela equipa de Rodrigues Ferreira e que podem servir de referência para datação de outros achados.
Foi esse o caso na avaliação dos restos mortais do humanista português Damião de Góis, que viveu no século XVI, e em cujo túmulo foram encontradas algumas fibras de tecidos.
Depois de comparadas com os tecidos da colecção, concluiu-se que o escritor, contemporâneo de Erasmo e Lutero, tinha sido inumado com dois tipos de roupa, uma de lã e outra de seda.
Os especialistas puderam confirmar a época das roupas que Damião de Góis vestia quando morreu e conferi-la com os registos históricos do tempo em que viveu o escritor, relatou Fernando Rodrigues Ferreira.
Nos anos 60, o arqueólogo começou por escavar a cripta da Igreja de São Vicente de Fora, adjacente ao mosteiro, um edifício fundado por D. Afonso Henriques no século XII e totalmente reconstruído entre 1582 e 1629 por Filipe I de Portugal.
As escavações iniciais revelaram muita cerâmica dos séculos XVI E XVII, mas foi na cripta da igreja que os peritos se depararam com mais surpresas: encontraram uma grande caixa de argamassa com inúmeras ossadas humanas, provenientes das sepulturas do templo.
"Aconteceu uma coisa curiosa. Quando o rei ordenou a reconstrução do mosteiro, recomendou pessoalmente que fossem preservados os ossos das sepulturas que aqui existiam", relata.
O arqueólogo sublinha que a importância dos achados é dupla:
porque abrange uma vasta época, com todos os períodos históricos representados, e o número de peças de tecido descobertas é "particularmente significativa".
As escavações das sepulturas revelaram outros vestígios interessantes, nomeadamente ossadas dos cavaleiros que acompanharam D.
Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros.
Mas o uso do espaço como cemitério recua ainda mais no tempo, havendo registos de ter sido uma necrópole - a exposição mostra o capeamento de um altar romano do século II - e outros de sepulturas moçárabes, quando a região era dominada pelos muçulmanos.
Nos últimos anos os arqueólogos têm vindo a fazer escavações no que restou da cerca construída no século II no mosteiro.