Escavações no Mosteiro de S. Vicente

Dois preciosos colares do século XIV pertencentes a uma jovem e um cinto de castidade são algumas das peças de uso pessoal que os arqueólogos desenterraram do passado para contar histórias centenárias do quotidiano lisboeta.

Ana Goulão, Agência LUSA /
Fragmento de um cinto de castidade André Kosters, Lusa

Fernando Rodrigues Ferreira e a sua equipa descobriram na cripta da Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora, entre um conjunto de ossadas, as de uma jovem de 14 anos que terá morrido presumivelmente com peste.

A posição do corpo da "menina dos colares" intrigou os peritos quando descobriram as ossadas, entre outras guardadas na cripta.

"Pensamos que deve ter sido essa a causa da morte porque a embrulharam de qualquer maneira, atiraram-na para um buraco para a sepultar e nunca mais lhe quiseram tocar", descreve o arqueólogo, recordando o pavor que a doença suscitava na época.

Os especialistas avançam com esta hipótese partindo dos conhecimentos sobre os rituais de enterramento da época. As pessoas eram sepultadas de costas, com as mãos no peito ou sobre a cintura, mas a menina dos colares não.

"Foi enterrada em decúbito ventral e como não quiseram tocar- lhe mais, ainda trazia os objectos pessoais", dois colares, um de quartzo e outro de azeviche, que estão agora em exposição.

Fernando Rodrigues Ferreira comenta que o colar de quartzo ainda hoje seria muito caro porque era de pedras naturais. Talvez fosse um trabalho oriundo da Índia, que tivesse chegado a Portugal pelas rotas caravaneiras.

Naquela altura - século XIV - o colar de quartzo "teria com certeza ainda mais valor", assevera o arqueólogo, sugerindo que a posição social da jovem fosse elevada.

Anéis, pulseiras de vidro usadas por crianças, atacadores de sapatos, botões, medalhas, partes de terços, crucifixos e abotoaduras de punho são outros objectos pessoais do quotidiano revelados na exposição e que foram encontrados junto aos restos mortais ou na lixeira que ali existiu, junto à antiga muralha de Lisboa.

São objectos que ainda hoje poderiam ter uso, não fosse a antiguidade os ter transformado em relíquias. Porém, um cinto de castidade também encontrado no mosteiro chama a atenção por sair fora dos usos e costumes do nosso século.

Contam-se muitas anedotas sobre o cinto de castidade, esse objecto de metal com chave que alguns maridos ciumentos colocavam às suas mulheres para lhes garantir a virtude.

Rodrigues Ferreira sorri e garante que essas histórias são mitos: "Na realidade, naquela época usavam-se para segurança das mulheres, que eram muito assaltadas e até violadas durante as deslocações".

Ossos, espinhas, pratos de cerâmica, terracota, agulhas e colchetes, pregos, cadeados, pratos de porcelana chinesa, um mealheiro e moedas de prata e cobre do século XVI são outros dos objectos recuperados pelos arqueólogos para relatar o quotidiano dos lisboetas há mais de seis séculos.

Escavaram os Claustro dos Corvos, no mosteiro, e encontraram a primeira lixeira da cidade, junto à cerca fernandina, onde as pessoas lançavam pequenas coisas estragadas ou restos de comida.

"A muralha está a meio. De um lado está a parte da cidade, que era um cemitério, e do outro a lixeira", descreve o arqueólogo.

Rodrigues Ferreira sublinha que a zona onde o mosteiro está edificado foi ininterruptamente ocupada desde o período romano, constituindo um enorme repositório de registos, diariamente acumulados, sendo um dos poucos locais de Lisboa capaz de narrar dois mil anos de História.

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