Cultura
Exposição em Díli com 30 obras da literatura portuguesa abre discussão sobre o livro em falta
O Centro Cultural Português em Díli inaugurou esta semana uma exposição com as 30 grandes obras de autores portugueses para indignar as pessoas, provocar o debate e a revisitação da história da literatura portuguesa.
Imaginada há um ano pelo embaixador de Portugal em Díli, Duarte Bué Alves, a exposição foi montada pela curadora Maria João Branco, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Denominada "Desfralda na tua alma o inventário -- 30 Clássico da Literatura Portuguesa", a exposição foi buscar o título a um verso do poeta Ruy Cinnati, que viveu em Timor-Leste entre 1946 e 1947 e de 1951 a 1955, tendo regressado uma última vez em 1966, antes de ser proibido de voltar à ilha por Salazar.
Maria João Branco explicou à Lusa que a ideia e o desejo da exposição é provocar um "debate sobre a literatura portuguesa, mas também, e sobretudo, uma releitura" dos livros expostos e uma "revisitação da história da literatura portuguesa".
"A exposição está concebida cronologicamente, mas a ideia não é deixar as obras reféns da sua época, pelo contrário, o passado tem futuro, é um exercício de liberdade, a releitura e recriação daqueles que continuamos a chamar hoje os clássicos", disse Maria João Branco, salientando que é também uma "homenagem à língua portuguesa".
A exposição inclui peças de arte contemporâneas, como, por exemplo, a música do compositor João Madureira, um pequeno filme de João César Monteiro sobre Sophia de Mello Breyner e a declamação da poesia de Herberto Hélder por Luís Miguel Cintra.
"Penso que são maneiras de reanimar a língua, que, na verdade, é um organismo vivo e temos essa responsabilidade e também essa liberdade de o fazer constantemente", afirmou a curadora.
Desde as Cantigas de Amigo até Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, a exposição conta 800 anos de história da literatura portuguesa.
"Esta lista é uma lista possível, mas cada pessoa que fizesse esta reflexão teria a sua própria lista", explicou o embaixador de Portugal.
"O que nós queremos fazer é lançar um desafio, um debate, é que as pessoas atravessem esta exposição e acabem indignadas, porque falta o livro do autor A, B ou C, porque o livro preferido é X, Y, Z", disse Duarte Bué Alves, salientando que o importante é as pessoas fazerem o exercício do que leram e do que podem ler.
Todos os livros expostos podem ser requisitados na biblioteca do Centro Cultural Português.
A exposição, inaugurada na quarta-feira com a presença do Presidente timorense, José Ramos-Horta, já recebeu centenas de visitantes, incluindo alunos de várias escolas.
"Se nós conseguirmos que nas escolas em Timor-Leste haja um ou outro debate sobre o que estes livros ou esta lista significa, para mim, cumprimos o objetivo", acrescentou o embaixador de Portugal.
A exposição vai estar patente ao público durante todo o mês de novembro e o livro e o autor em falta podem ser escritos num quadro no final da visita.