Fado passa a ser Património Imaterial da Humanidade

por RTP
O presidente da Comissão Científica da candidatura, Rui Vieira Nery, falou de uma "reconciliação nacional" com o fado Paulo Cordeiro, Lusa

O fado é a partir de agora Património Imaterial da Humanidade. A candidatura do género musical português foi aprovada este domingo durante o VI Comité Intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. A UNESCO distingue o fado enquanto tradição e expressão da identidade da cultura do país. Os peritos da Organização avaliaram o processo de candidatura português como exemplar. Em Lisboa, o Presidente da República viu na decisão “um motivo de orgulho para todos os portugueses”.

“O fado é um elemento importante da nossa identidade e um enorme contributo para a cultura mundial. E, acima de tudo, as comunidades do fado incentivaram o processo e nele participaram. Esta decisão traz-nos uma enorme responsabilidade, a responsabilidade de preservar e promover o fado como uma grande marca da diversidade do património humano”. Foi com estas palavras que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa acolheu, em Nusa Dua, na ilha indonésia de Bali, a decisão do VI Comité Intergovernamental da UNESCO.

Foi um antecessor de António Costa, Pedro Santana Lopes, quem lançou as bases da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, tendo por embaixadores dois nomes maiores desta expressão musical, Mariza e Carlos do Carmo. Aprovada por unanimidade na Câmara de Lisboa, a 12 de maio de 2010, a candidatura seria apresentada à Presidência da República a 28 de junho do mesmo ano e posteriormente oficializada junto da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Dois meses depois, chegava à sede da UNESCO, na capital francesa.

Confirmada a declaração como Património Imaterial da Humanidade, ao cabo de longas horas de análise de dezenas de candidaturas internacionais, António Costa destacou o que disse ser um “grande tributo que a UNESCO prestou aos fadistas”: “Finalmente tocou-se o fado”

“Tocou-se o fado e acho que foi um grande tributo que a UNESCO prestou aos fadistas, àqueles que têm cantado, que têm tocado, que têm composto, aos poetas que têm dado as suas letras ao fado e que são aqueles que justificam nós estarmos hoje aqui e que asseguram a grande salvaguarda do fado, dando-lhe futuro e perenidade”, assinalou o autarca de Lisboa, em declarações citadas pela agência Lusa.

“Estranha Forma de Vida” foi o fado que António Costa fez chegar às demais delegações presentes em Bali depois de agradecer a distinção da UNESCO. “Acho que foi a melhor forma de homenagear aqueles que têm de ser hoje homenageados. São aqueles que têm feito o fado e que são os fadistas. E aquela Estranha Forma de Vida é uma homenagem a todos”, explicou.

“Profunda satisfação”
Cavaco Silva escolheu o portal da Presidência da República na Internet para uma primeira reação aos acontecimentos de Bali. O “reconhecimento” da UNESCO, afirmou o Chefe de Estado, “constitui um motivo de orgulho para todos os portugueses”. “A partir deste momento, o fado é reconhecido como um Património de toda a humanidade, um valor inestimável no presente e uma herança cultural importante para as gerações futuras”, escreveu Aníbal Cavaco Silva.

O Presidente deixou uma saudação a todos os que se envolveram na preparação da candidatura: “O seu sucesso é também o sucesso de todos os que, ao longo de mais de um século, viveram, trabalharam, escreveram e cantaram o fado. Estão de parabéns os fadistas, os poetas, os músicos, os compositores, os estudiosos e todos os que contribuíram para fazer do fado uma melodia universal”.

Por sua vez, a diretora do Museu do Fado - onde se aguardou em ambiente de festa antecipada o desfecho da maratona de análise na Indonésia - encara a decisão da UNESCO como uma “grande alegria” e, ao mesmo tempo, uma “responsabilidade acrescida”.

“E ouviu-se o fado. Muito bom e muito bem. Estamos muito felizes e com imensa vontade de partilhar essa alegria com todos os que trabalharam nesta candidatura, com todos os que constroem o fado, com todos os nossos artistas, todos os nossos parceiros, as instituições envolvidas, os investigadores, a equipa do Museu do Fado. É uma alegria muito grande”, reagiu Sara Pereira, que lembrou os cinco eixos estratégicos do projeto de salvaguarda submetido à UNESCO: a rede de arquivos; o arquivo digital sonoro; o programa editorial; roteiros temáticos do fado; o programa educativo.

Já o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, considerou em comunicado que a distinção da UNESCO dá aos portugueses “alegria”, num momento “em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas".

“Um grande estímulo”
Ouvido pela Antena 1, Carlos do Carmo confessou-se emocionado e recompensado com a distinção da UNESCO, sublinhando que se trata de um enorme estímulo para todos os que se dedicam ao fado: “Agora, depois da emoção, vou ver se tenho voz para cantar”.

“O jogo vai ter regras, porque eles vão-nos dizer quais são as regras do jogo. Com o empenho que houve nestes seis anos, que foi muito grande, desta dedicação para apresentar a candidatura, este empenho não vai quebrar. Portanto, isto não se esgota nesta candidatura e coisas muito bonitas vão ainda acontecer, com certeza, porque a equipa não se vai desmembrar e estou convencido de que a comunidade do fado vai ficar muito sensibilizada, porque isto é bom para todos os que tocam, todos os que cantam. Isto é um grande estímulo”, sublinhou o cantor.

Na véspera da decisão, o musicólogo Rui Vieira Nery, à frente da Comissão Científica da candidatura, colocava em destaque uma “reconciliação nacional” sobre o fado. Assim como o facto de o processo ter gerado “um certo sentimento de unidade na comunidade fadista que nem sempre existe”. O especialista, que é afilhado dos fadistas Maria Teresa de Noronha e Fernando Farinha, salientava à Lusa, por outro lado, a virtude de “a candidatura ter sido acompanhada pela comunidade e não apenas por um comité de investigadores”.

À rádio pública, Rui Vieira Nery defendeu este domingo que a distinção atribuída ao fado abre portas “a outras eventuais formas culturais portuguesas”. “Fala-se de crónicas de mortes anunciadas, neste caso é uma crónica de um sucesso anunciado, mas é sempre muito consolador. Nós tivemos muitos anos de trabalho envolvidos com muita gente nesta candidatura e todos nós, que participámos nela, estamos muito felizes por esse trabalho ter chegado a bom porto”, frisou o musicólogo, que, em Bali, chegou a tecer duras críticas à presidência da reunião da UNESCO, atribuindo a demora da discussão a uma “incompetência extraordinária”.

“E é prosseguir com a responsabilidade que o Estado português assume neste momento de continuar a proteger e a difundir o fado. Mas penso que esta vitória transcende o fado. Acho que é uma vitória da cultura portuguesa no seu todo”, rematou.
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