Filipa Simões quer resgatar os letreiros de néon de uma Macau mais triste
A designer portuguesa Filipa Simões lança esta quinta-feira um guia de letreiros de néon em Macau, um primeiro passo para resgatar a luz e a trepidação deste ícone urbano em risco.
As luzes da cidade não se apagaram, mas perderam-se velhos cúmplices noturnos. Os letreiros de néon, parte indissociável da cultura visual e material local, parecem ter os dias contados. Macau, diz Filipa Simões, está hoje uma cidade "mais triste" sem a luz, vibração e até o som dos néones. Por isso, partiu em seu resgate.
Nasceu assim o "Guide to Neon Signs in Macau", um roteiro publicado pelo CURB - Centro de Arquitetura e Urbanismo, com fotografias de Wilson Kam, que quer trazer à luz este património em risco.
"O Governo tem dado atenção ao património intangível, mas há muito que fica de fora. Este não é um estudo aprofundado, mas uma ferramenta para chamar a atenção e sensibilizar as pessoas para a preservação desta artesania", começa por dizer à Lusa a designer.
A sinalética néon, com berço em França no início do século XX, foi introduzida na China nos anos 1920. Estes tubos cromáticos alimentam ainda hoje a imagem que o mundo tem das cidades asiáticas - Hong Kong, Xangai, Tóquio -, imortalizada também no cinema de Wong Kar-wai (`In the mood for love`) ou de Ridley Scott (`Blade Runner`). Em Macau, as estruturas luminosas prosperaram sobretudo com a expansão dos casinos.
Mas entender o legado destes letreiros de néon - diz-nos agora este novo guia -- obriga-nos a ir além da nostalgia. Os exemplares encontrados nas noites de "neon hunting" (`caça aos néones`), como lhes chama a designer, são "pistas sobre práticas gráficas, técnicas de fabrico e transformações urbanas" do território.
E as pistas escasseiam. Quando Filipa Simões e a equipa começaram a fazer o levantamento, no início de 2025, encontraram em Macau 57 exemplares sobreviventes - 16 já apagados. No final desse ano, três tinham desaparecido. "Estávamos incrédulos", recorda, notando que o roteiro contempla 45 sinais, estando sete desligados em permanência. Entretando, dois foram retirados já depois da impressão do guia.
"Há uma série de objetos, de artefactos da cultura urbana que estão a desaparecer, por causa da globalização. Estamos a tentar fazer registos e a começar a estudá-los", continua.
Mas ao contrário de Hong Kong, trabalhar a memória deste património em declínio, conta com entraves. Na antiga colónia britânica, ainda é possível bater à porta de um mestre artesão. Em 2015, em Macau, recorda Filipa Simões, a CURB coordenou um projeto para a Bienal de Urbanismo e Arquitetura em Shenzhen que envolvia a produção de néones e, das cerca de duas dezenas de negócios que constavam das páginas amarelas, apenas um trabalhava ainda no ofício. Hoje, também esse fechou as portas.
O endurecimento da regulamentação para afixação de letreiros em Hong Kong, há mais de dez anos, por razões de segurança, levou à retirada de milhares de placas na cidade - incluindo de néon. "É uma técnica frágil num local onde há tufões", diz Filipa Simões, que acredita que em Macau, a questão económica - com a emergência de opções mais baratas como as luzes led - pesou na decisão.
"Os néones requerem manutenção, gastam muito mais eletricidade, estragam-se e as pessoas teriam de chamar alguém da China [continental]", explica.
Para os mais atentos, a diferença entre as duas técnicas é percetível: a trepidação, o barulho, a dobragem do vidro são características dos letreiros de néon, cuja técnica envolve a moldagem de tubos de vidro com um maçarico, o preenchimento destes com gases nobres - por exemplo, néon, árgon ou hélio, que são responsáveis pela obtenção de cores diferentes - a baixa pressão e selagem com elétrodos. A alta tensão elétrica ioniza o gás e gera a luz vibrante.
"Há que fazer um trabalho de preservação. O mínimo é fazer um arquivo. Se possível, guardar objetos físicos", diz a designer, notando que a promoção do uso do néon pode incluir novas abordagens, mas também na manutenção das fachadas publicitárias tradicionais, com garantias de segurança.
De um total de 45 letreiros de néon, o guia inclui os icónicos sinais do restaurante Federal, do cinema Alegria, do casino Lisboa e do primeiro casino de capitais norte-americanos de Macau, o Sands. De luzes apagadas, é possível encontrar ainda a inscrição da loja de lotaria Pakapiu, do canídromo, já inativo, e do negócio de eletrodomésticos Tai Peng, que encerrou recentemente.
Está lá também a placa do antigo cinema Capitol, parcialmente iluminada - não fosse esta falha elétrica uma das imagens de marca da cidade.