Ir ao teatro é um acto político, defende o director do Teatro dos Aloés

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Ir ao teatro é um acto político, defende José Peixoto, director do Teatro dos Aloés e fundador do Teatro da Malaposta, argumentando que "o teatro só é útil às pessoas quando fizer parte do quotidiano delas".

Numa altura em que continua a discutir-se em Portugal a necessidade de criar novos públicos para o teatro, quando as companhias teatrais se debatem com a inadequação ou insuficiência dos apoios e a ausência de espaços, o actor e encenador considera que o teatro é "uma escola de cidadania" que nasceu há 2.500 anos na Grécia.

"Ir ao teatro ou não ir é pôr em causa a organização social, porque, se uma pessoa não tem tempo para ir ao teatro, é porque a organização social não é boa e não permite às pessoas tempo livre. E só há uma forma de aprender a ver teatro: vendo", disse o actor e encenador à Lusa.

"Em Atenas, o teatro era tido como uma forma de estruturação da personalidade e da consciência cívica. E hoje devia sê-lo também (Ó) Ir ao teatro é um acto político, porque o teatro é, inevitavelmente, político, no sentido em que questiona os homens organizados, a Polis, e portanto a sua conotação política existe sempre", sustentou.

Para José Peixoto, "a cultura e as artes transformam o mundo, transformam as pessoas interiormente, transformam as pessoas nas suas relações e o teatro pode ser um contributo valioso para a vida cívica, para a democracia, porque é um laboratório de experimentação em que se podem criar situações fictícias que transportam para a sala ensinamentos de como viver em sociedade".

Com um longo percurso teatral, iniciado em 1974, na companhia Os Bonecreiros, José Peixoto passou pelo Centro Dramático de Évora, Teatro de Almada, Teatro Aberto e Teatro da Rainha, nas Caldas da Rainha, antes de fundar, em 1987, o Teatro da Malaposta, do qual foi director artístico durante 12 anos, até ser afastado, em Dezembro de 1999, por razões - afirma - "de natureza política".

"Eu tinha uma conotação política e, quando mudou a cor política das autarquias, decidiram pôr lá outras pessoas. Na altura, fiquei magoado, porque nunca o Teatro da Malaposta teve uma orientação partidária, nunca ninguém foi convidado por ser deste ou daquele partido", asseverou.

"Passaram por lá mais de 100 actores e mais de duas dezenas de encenadores, sem contar com cenógrafos, figurinistas, etc., e nunca perguntei a ninguém `de que partido és tu?`", insistiu.

Do trabalho desenvolvido antes de ir para a Malaposta, José Peixoto destaca "dois saltos qualitativos": a série televisiva "Retalhos da Vida de um Médico", baseada na obra de Fernando Namora, que protagonizou, em 1980, e, posteriormente, os estágios que fez na cidade francesa de Gennevilliers, com Bernard Sobel, e no Piccolo Teatro de Milão, com Giorgio Strehler, que lhe abriram "novas perspectivas" dramatúrgicas e literárias e o introduziram "à grande magia do teatro".

Ainda sobre o Teatro da Malaposta, criado no âmbito de uma associação de municípios (Amadora, Loures, Vila Franca de Xira e Sobral de Monte Agraço), José Peixoto salientou que "era um teatro único", que revelou muitos autores.

Neste passo, apontou como fundamental a necessidade de experimentar para renovar, para criar novos públicos - e haver espaços para tal.

"Não há teatro - fundamentou - sem estruturas produtivas. É evidente que pode haver um espectáculo de teatro, até de importância grande, mas o objectivo é fazer público, o que nós queremos é criar um público novo para o teatro. Novo, quer dizer aquele que ainda não vai ao teatro e que nós queremos motivar, para que passe a ser espectador".

"Eu queria era ter um teatro onde pudesse experimentar, onde o público me reconhecesse - não a mim, pessoalmente, mas à minha companhia -, soubesse `ali estão os Aloés, eles fazem este tipo de teatro`. O teatro, para cativar públicos e para avançar, precisa de se renovar permanentemente e, para se renovar, é preciso experimentar", frisou.

O encenador entende o teatro como um serviço público e defende que os teatros são espaços públicos que "não podem ser de uma só companhia".

"Acho que devíamos fazer ver que há companhias que precisam de ser acolhidas nos espaços públicos. O meu projecto era ter um espaço que pudesse partilhar com outras companhias, onde pudesse acolher outras companhias", afirmou.

Depois de sair do Teatro da Malaposta, José Peixoto considerou que se tinha fechado um ciclo e criou, em 2000, juntamente com outros elementos da equipa também afastados, o Teatro dos Aloés, uma associação cultural sem fins lucrativos.

O nome da companhia ficou a dever-se a uma peça do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, estreada na Malaposta em 1996, intitulada "Uma Lição dos Aloés".

"Era sobre a amizade entre um branco e um negro, na África do Sul do apartheid, e falava dessa coisa da lealdade, dos ideais, da poesia, da crença de que a arte transforma as pessoas. Para mim, foi galvanizante fazer esse espectáculo", disse o encenador, explicando que a nova companhia adoptou o nome "como prova de resistência".

"Na peça - contou -, defendia-se que o aloés é capaz de viver quatro anos sem água e que, assim que chove, dá flor. E nós tomámos os aloés como um símbolo".

Ainda sem sede própria, a companhia ensaia na Fábrica da Cultura, propriedade da câmara municipal da Amadora, com quem assinou um protocolo, e leva as peças a cena no espaço Recreios da Amadora, o antigo cinema Plaza.

Sobre o novo regime de apoio às artes, apresentado a 26 de Junho pelo ministério da Cultura, José Peixoto sublinha que "as estruturas produtivas são beneficiadas" e que não se tem em devida conta o currículo dos profissionais.

"Ando no teatro desde 1965, trabalho no teatro profissional desde 1974 e lutei por um teatro de serviço público. É uma injustiça [o ministério] contar agora os seis anos de existência do Teatro dos Aloés e considerar que sou um jovem criador teatral, um jovem encenador ou um jovem actor", observou.

"Só posso candidatar-me aos concursos das companhias que têm cinco anos de vida, não posso concorrer aos apoios quadrienais, não tenho `idade` suficiente para o fazer e considero isso uma coisa imprópria", acrescentou.

A companhia de Teatro dos Aloés tem, a trabalhar de forma fixa, quatro pessoas, mas a associação cultural que a criou tem 10 e são contratadas pontualmente outras pessoas, em função dos espectáculos.

"É evidente que, se tudo funcionasse e tivéssemos público, o Estado olhava para nós de outra maneira. Eventualmente, dava-nos mais dinheiro. Mas vivemos neste ciclo vicioso: não temos o dinheiro para fazer as coisas e, como não fazemos as coisas, não temos o dinheiro de que essas coisas precisam para serem feitas. É um desespero", comentou.

Com os meios de que dispõe, José Peixoto pretende levar a cena vários projectos em 2007: três de autores africanos - um sul- africano, um congolês e um argelino - que nunca foram representados em Portugal e outro com textos de Goldoni, projecto com que o Teatro dos Aloés concorreu ao apoio estatal à actividade teatral do próximo ano, em que se assinala o tricentenário do nascimento do autor italiano.

O actor e encenador revelou-se também recentemente como dramaturgo, com as peças "Ensaio", de 2002, e "Os Guardas do Museu de Bagdad", estreada em 2005, no Festival Internacional de Teatro de Almada, pelo Teatro dos Aloés.

No Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio, José Peixoto foi convidado para apresentar "Os Guardas do Museu de Bagdad" no Museu Nacional de Arqueologia, "gratuitamente, porque os museus não têm dinheiro para pagar a uma companhia de teatro para ir lá fazer um espectáculo", ironizou.

"Nós fizemos o espectáculo nas condições que havia, no sítio que havia, com as luzes que havia. Mas sucedeu que na assistência estavam dois conservadores do museu de Bagdad que, por coincidência, se encontravam em Portugal para fazer um estágio no museu Gulbenkian e foram convidados pelo director do museu de Arqueologia", relatou.

"Foi um momento emocionante, porventura o mais emocionante da minha vida teatral, sentir como aquelas duas pessoas estavam comovidas. No final, disseram `não sabemos o que vocês estavam a dizer, mas compreendemos tudo o que quiseram transmitir`", concluiu, classificando o episódio como "uma grata recordação".


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