Lídia Jorge elogiou "votação tão expressiva" em António José Seguro por ser de inclusão
A escritora Lídia Jorge, que recebeu hoje o Prémio Pessoa, em Lisboa, elogiou "a votação tão expressiva" em António José Seguro nas eleições presidenciais de domingo passado, por ser a proposta da inclusão.
À margem da cerimónia de entrega do Prémio Pessoa, Lídia Jorge, em declarações aos jornalistas presentes na sessão, fez o elogio da Literatura afirmando que "não há outra disciplina tão intensa e forte", que permita "entender o outro", e associou a candidatura de António José Seguro à possibilidade de "construir um país com a ajuda de todos".
"O que a narrativa faz, o que a narrativa está sempre a dizer, é que a minha história não é mais importante do que a dos outros. E isto torna-nos muito mais humanos", disse Lídia Jorge, num elogio à Literatura, acrescentando que não distingue "as pessoas pelos sinais exteriores de riqueza, mas por esses sinais interiores de riqueza, que é [a capacidade de] entender o outro".
Interrogada sobre o papel da Cultura no mundo de hoje, a escritora lembrou que "a Cultura move-se na subjetividade, no campo do mundo interior" e que, atualmente, "está por toda a parte a dizer: os homens bons estão acobardados e as pessoas perto da delinquência estão cheias de coragem".
Segundo Lídia Jorge, a Cultura é assim "o reduto daqueles que estão a dizer que uns países não podem mandar noutros".
"A Cultura está a dizer que temos de lutar pela liberdade, que temos de lutar para que sejamos todos fraternos [...], porque, se não o formos, não seremos", afirmou a autora de "Misericórdia", acrescentando que são precisas "novas utopias".
Interrogada pela RTP sobre a atualidade do seu discurso do passado dia 10 de junho, Lídia Jorge reiterou as suas palavras.
Na altura, a escritora, como presidente da comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa, alertou para os riscos do populismo, condenou o racismo e a xenofobia, rejeitou a ideia de pureza de sangue, defendeu os valores humanos e recordou a mistura de povos e culturas que enriquecem a identidade portuguesa.
"No fundo, o que eu disse é que todos nós temos direito à cidadania", afirmou hoje a autora de "O Dia dos Prodígios", dando como exemplo "a votação tão expressiva na proposta que venceu" as eleições presidenciais do passado domingo.
"Esta proposta", concluiu Lídia Jorge numa referência à candidatura de António José Seguro, "inclui exatemente isso mesmo: a inclusão de todos, a ideia de construir um país com a ajuda de todos".
Lídia Jorge recebeu hoje o Prémio Pessoa 2025, que lhe foi entregue pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que também lhe atribuiu a grã-cruz da Ordem de Sant`Iago da Espada, numa cerimónia na sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD), em Lisboa.
Na sua intervenção, a escritora incitou à vigilância sobre a Inteligência Artificial (IA), numa defesa do "pensamento autónomo e singular".
Para Lídia Jorge, "no mundo de hoje, decomposto, à beira do estado de alucinação", a linguagem, a Poética, o pensamento são determinantes, tal como a vigilância sobre o poder das máquinas e a falsidade difícil de desmontar.
Nascida há 79 anos em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se no romance em 1980 com "O Dia dos Prodígios". Ao longo da carreira, recebeu os mais importantes prémios literários portugueses e internacionais, como o Prémio Médicis de Melhor Romance Estrangeiro publicado em França, por "Misericórdia", em 2023, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas em 2020, de Guadalajara, um dos mais importantes da América Latina.
Ao Prémio Pessoa juntam-se outras distinções que a autora de "O Vale da Paixão" (1998) e "Os Memoráveis" (2014) tem recebido, designadamente, os prémios da Latinidade, da União Latina e Luso-Espanhol de Arte e Cultura.
O Estado português condecorou-a com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e França com a comenda da Ordem das Artes e Letras.
O Prémio Pessoa tem um valor monetário associado de 70 mil euros.