Linguista alerta para o risco de extinção dos crioulos de São Tomé e Príncipe
O linguista Tjerk Hagemeijer alertou que os crioulos de São Tomé e Príncipe enfrentam um "declínio bastante acentuado" e estão em risco de extinção, com o português a assumir-se como a "língua hegemónica" no arquipélago.
O especialista em crioulos do Golfo da Guiné explicou, em entrevista à agência Lusa, que o panorama linguístico são-tomense sofreu uma reviravolta desde o final do século XIX, com a introdução do regime de contrato e a chegada de trabalhadores de Angola, Moçambique e Cabo Verde, o que fragmentou o uso das línguas locais.
"Hoje em dia, praticamente todos os são-tomenses e pricipenses falam português, maioritariamente como língua materna, e observa-se um declínio bastante acentuado das línguas crioulas, que ainda são línguas faladas, mas todas estas línguas estão em algum grau de risco de extinção", disse Hagemeijer, sublinhando que, enquanto quase 98% da população domina o português, a soma dos falantes de todas as línguas crioulas locais - forro, lung`ie e angolar - é já inferior a 50%.
O investigador mostrou-se preocupado com o caso da ilha do Príncipe, que é o mais crítico, restando apenas "algumas centenas" de falantes de lung`ie.
Já o forro, a língua da ilha de São Tomé, viu o seu número de falantes a "reduzir-se para metade" num intervalo de apenas 30 anos, entre 1980 e 2012, sendo atualmente utilizado por cerca de "um terço da população são-tomense que fala esta língua".
"O português é o principal jogador, linguisticamente falando, no contexto de São Tomé e Príncipe", reforçou o linguista, observando que, ao contrário de Cabo Verde, onde o crioulo mantém uma vitalidade dominante, em São Tomé o português "conseguiu vingar enquanto grande língua franca".
Hagemeijer explicou que estas línguas descendem de um "protocrioulo do Golfo da Guiné", formado a partir do século XVI no ciclo do açúcar, que mais tarde se desdobrou em quatro variantes distintas devido ao isolamento geográfico e social.
Contudo, a hegemonia atual do português, impulsionada pela massificação do ensino e mobilidade social, interrompeu a transmissão geracional.
Questionado sobre as estratégias de revitalização, o especialista admitiu não haver "receitas milagrosas", destacando que a sobrevivência destas línguas depende tanto do Estado como da base comunitária.
"É preciso mostrar às populações que as suas línguas têm relevância e podem ter estatuto", defendeu, citando exemplos de projetos de curta duração, como a colocação de idosos falantes em creches na ilha do Príncipe.
O linguista recordou ainda que, em 2003, houve uma tentativa legislativa de oficializar um alfabeto para estas línguas, mas a iniciativa não teve continuidade prática.
"Infelizmente, no caso de São Tomé e Príncipe, não tenho grandes motivos para otimismo. A sociedade valoriza o património linguístico em teoria, mas na prática utiliza o português", lamentou o professor.
Além de São Tomé e Príncipe, o investigador alertou também para a situação do fa d`ambô (fala do Ano-Bom), o crioulo da ilha de Ano-Bom, Guiné Equatorial, que tem entre quatro a cinco mil falantes, sendo que metade dos mesmos se encontram noutra ilha, a ilha de Bioko, a sul do arquipélago lusófono.
A língua enfrenta a concorrência do espanhol e do pichi, crioulo de base lexical inglesa, agravada pela dispersão da população anobonesa.
Tjerk Hagemeijer concluiu que o termo "crioulo" é, muitas vezes, um rótulo académico que esconde uma enorme diversidade, sublinhando que o contacto linguístico é uma "transversal à humanidade", embora os contextos de escravatura e plantação tenham dado a estas línguas uma história social "muito específica".