Memórias do colonialismo português em instalação performativa na Gulbenkian
Uma instalação performativa, composta por tecidos pintados, imagens em movimento, vozes e sons evocativos do colonialismo português, que constroem uma narrativa de memórias, está patente ao público entre hoje e domingo na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Inaugurada no âmbito da mostra "Isto é Partis & Art for a Change", que dá visibilidade a projetos de intervenção social pelas artes, esta instalação colocada na zona de congressos do edifício da Gulbenkian convida o público a "experienciar o processo de cocriação do `Projeto 1952 | Arquivo em Movimento`, promovido pelo GOT Lx, que parte de uma reflexão sobre o arquivo visual do colonialismo português existente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência".
Caminhando pelo espaço, entre os tecidos brancos verticais, com desenhos pretos, pendurados do teto, o visitante encontra três grandes monitores distribuídos, que passam imagens que aludem ao colonialismo português e aos povos africanos vítimas desse processo.
Uma cadeira em frente e uns auscultadores convidam o visitante a sentar-se, ver os filmes, ouvir as vozes, sons e ruídos que constroem uma narrativa de memórias, através do corpo e do movimento, da palavra e da imagem.
Numa zona mais central, encontram-se uns auscultadores sem televisão, junto a um tapete estendido com várias almofadas, que oferecem um espaço de partilha sentada, ou de repouso deitado, para apenas usufruir dos sons, de olhos fechados ou postos nos tecidos.
Segundo a organização, esta instalação propõe uma reflexão sobre o passado colonial e as suas reverberações no presente, tendo como ponto de partida o arquivo fotográfico das missões antropológicas portuguesas em África, nas décadas de 1940 e 1950, existentes no Museu Nacional de História e da Ciência.
O projeto pretende responder às questões "como olhar para estas imagens nos dias de hoje?"; "como revisitá-las de forma crítica, afetiva e sensível?"; "como transformá-las num gesto de escuta, reparação e futuro?".
Entre janeiro e maio de 2025, um grupo de estudantes, de várias idades e origens, do Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas da Baixa da Banheira/Vale da Amoreira, mergulhou num processo de criação artística centrado no movimento, no pensamento crítico e na cultura visual.
O resultado é este lugar de escuta, criação coletiva, diálogo entre gerações e imaginação de futuros, que agora ocupa um espaço na Gulbenkian.
"Este Arquivo em Movimento é feito de muitas vozes, memórias, corpos, territórios e experiências. É feito de travessias entre o bairro e o museu, entre o silêncio do arquivo e a vibração das vidas que nele existem, e resistem. É um convite a ocupar espaços institucionais com outras narrativas, afetos, olhares, onde a arte é lugar de resistência e lugar de encontro", lê-se numa legenda que acompanha a instalação.
No último dia da instalação, haverá uma conversa e oficina com a diretora artística, Angela Guerreiro, que vai partilhar os processos de trabalho deste projeto em curso, bem como uma performance na instalação.
A iniciativa Partis & Art for Change tem a duração de três dias, de entrada gratuita, durante os quais são apresentados espetáculos, filmes, instalações, oficinas e momentos de reflexão em torno da criação artística como prática coletiva e instrumento de participação cívica.
A Partis & Art for Change é uma iniciativa conjunta da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação "la Caixa" e foi lançada em 2020 com o objetivo de fomentar e difundir o papel cívico da arte e da cultura participativas enquanto impulsionadoras de mudança e de transformação social.