Música nos Hospitais faz Candy esquecer a doença por momentos

De onde está, Candy sabe que só sairá para o céu. Mas quando a música entra no seu quarto, nas vozes e nos instrumentos de Joana e Rute, há uma nova alegria que a faz esquecer-se de onde está e porquê.

Lusa /

Internada há 15 dias na unidade de cuidados paliativos da Clínica São João de Ávila, em Lisboa, Candy Correia, que nasceu Cândida há 76 anos, mas não gosta do nome que herdou da avó, sabe que o cancro está a vencer, mas aceita "aquilo que vem" porque não é "uma pessoa triste".

Não tem dores, tem estado sempre medicada e está bem acompanhada, mas nada se compara ao efeito da música: "Traz-me uma alegria reforçada. Ouvir estas canções, (...) esqueço completamente onde é que estou, porque é que estou", diz, enquanto o som de Cinderela, de Carlos Paião, se afasta no corredor, a caminho do próximo quarto.

Joana Afonso e Rute Matias são apenas duas dos 18 músicos intervenientes da Música nos Hospitais, uma associação de solidariedade fundada em 2006 e que leva a música aos serviços pediátricos e cuidados paliativos em 10 hospitais, clínicas e lares de idosos das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

"Nós vimos aqui para que as pessoas que aqui estão, sejam utentes, sejam acompanhantes, cuidadores, sejam profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, auxiliares, se lembrem de que são, acima de tudo, seres humanos", diz Joana, que tem formação musical em flauta transversal, mas também canta e toca guitarra e instrumentos de percussão.

Joana e Rute, formada em órgão, mas que escolhe a voz como o seu principal instrumento, circulam pela clínica sempre a cantar e a tocar. A música raramente deixa de se ouvir durante as duas horas em que ali estão.

Consigo levam um carrinho cheio de instrumentos musicais, uns comprados, como a guitarra, a flauta transversal ou a harmónica, outros feitos por elas com objetos comuns ou até material hospitalar.

Bolas de pingue-pongue cheias servem de `shakers` para fazer percussão, uma seringa com buracos faz as vezes de flauta, garrafas de alumínio com níveis diferentes de gesso no interior emitem sons diferentes quando sopradas e radiografias abanadas imitam o som do vento.

Enquanto cantam "Malmequer Pequenino", de Amália Rodrigues, Joana e Rute vão tocando diferentes instrumentos e passando alguns para as mãos dos utentes que se mostram mais abertos a experimentar.

Com 74 anos, Alexandra Cortez pega nas baquetas e acompanha o ritmo da canção enquanto trauteia "Oh Laurindinha, vem à janela", contrariando "o malvado" do Parkinson que teima em "atingir tudo".

Alexandra diz que a música "realmente dá vida" e a faz sentir que ainda é alguém.

O impacto que Alexandra descreve deve-se a algo mais do que a música, explica a enfermeira Sílvia Miguel.

"O que elas fazem não é só música. Uma coisa é a música ambiente que nós colocamos", outra é o que fazem os músicos intervenientes da Música nos Hospitais.

São profissionais com formação e que trabalham coordenados com os profissionais de saúde, que percebem os gostos individualizados de cada doente, a sua história de vida, e fazem "uma intervenção não farmacológica" que ajuda a controlar a dor física, a ansiedade e transmite "uma leveza necessária", descreve.

"Tudo isto é feito com muito rigor, apesar de, à partida, muitas vezes estes projetos serem identificados como coisas muito leves, muito banais, que não são assim tão científicas quanto isso".

A enfermeira diz que os doentes já esperam a visita semanal dos músicos e admite que seria bom se as intervenções fossem mais frequentes e "um bocadinho mais alongadas", até porque os músicos intervenientes são vistos como parceiros pelos profissionais de saúde.

"Fazem parte da equipa e fazem parte das estratégias que nós utilizamos para chegar a um fim que sempre será a dignidade, o conforto, a qualidade de vida".

Apesar de todos serem músicos com formação, os 18 elementos da Música nos Hospitais têm de passar por uma formação de nove meses em que aprendem a não ser "corpos estranhos" nas unidades de saúde e a usar a música como veículo para chegar às pessoas e despertar emoções num "ambiente muito peculiar", conta Joana.

Tocar música num local onde se lida com a morte nem sempre é bem recebido e por vezes a primeira reação é de estranheza, como se fosse desadequada a alegria naquele espaço, admite Sílvia Miguel.

Rute Matias recorda uma doente que não queria música no seu quarto, sentia que não tinha motivos para estar feliz. "E nós respeitávamos, nem íamos lá", mas isso é raro e "geralmente, a aceitação é quase plena".

Após participar pela segunda vez numa intervenção da Música nos Hospitais desde que foi internada, Candy é exemplo vivo dessa aceitação e pede às músicas que "repitam mais vezes".

Diz que gosta de música boa e dos fados de Coimbra e, embora ache que não tem boa voz, confessa que vai cantarolando "baixinho, que é para que ninguém perceba".

Na despedida, Candy aponta para o alto enquanto diz que daqui já vai para o céu e, com a voz trémula, recita um fado que diz cantarolar para consigo: `Quando eu morrer, rosas brancas / Para mim ninguém as corte / Quem as não teve na vida / Também as não quer na morte".

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