Quando os soldados nazis se travestiam de mulheres

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Uma colecção fotografias particulares da Segunda Guerra Mundial veio agora para as mãos do grande público, num livro da autoria do artista berlinense Martin Dammann. As histórias e as imagens lançam uma nova luz sobre o lado mais obscuro da Wehrmacht.

Oficialmente, a homossexualidade era um crime na Alemanha nazi. No Exército era considerada um factor de desmoralização das tropas e punível com pena de morte.

Já antes da guerra, em 1934, um dos pretextos utilizados por Adolf Hitler para o sangrento putsch contra Ernst Röhm, na "Noite das Facas Longas", foi a homossexualidade assumida e quase exibicionista do chefe das Secções de Assalto. Com efeito, Röhm não se privava de organizar orgias com os seus jovens milicianos, nem se inibira, uma vez, de apresentar queixa em tribunal contra um prostituto que lhe roubara a carteira, com abundância de detalhes sobre as circunstâncias desse roubo de alcova.

Mas é um ponto assente para os historiadores que se têm debruçado sobre esse período histórico que o pretexto nada teve que ver com o verdadeiro motivo: Hitler queria, na verdade, desembaraçar-se de um Ernst Röhm que lhe fora útil durante alguns anos à frente dos "camisas castanhas", mas que em 1934 se tinha tornado um estorvo para as relações entre o novo regime e a velha oficialidade prussiana. Röhm, o arruaceiro plebeu, alimentava a insensata ambição de ser colocado à frente das aristocráticas forças militares do Reich e só liquidando-o Hitler podia inspirar confiança aos junkers em uniforme.

No momento em que, por outro motivo, decidiu liquidá-lo, Hitler deixou de fazer vista grossa à vultosa corrente gay que até aí tolerava nas fileiras nazis.

Mas também entre a selecta oficialidade prussiana as acusações de homossexualidade eram usadas quando pareciam oportunas: em 1938, ao querer afastar do cargo o chefe de Estado-Maior do Exército, general Werner von Fritsch, a Gestapo forjou contra ele um libelo por homossexualidade, que depois viria a ser demolido em tribunal devido à fragilidade dos testemunhos apresentados. Mas entretanto Fritsch, nazi convicto até ao fim da vida, já tinha perdido a sua alta função.
Exército nazi: recordista mundial do travestismo
Agora, depois de várias décadas a juntar imagens de fotógrafos amadores, o artista berlinense Martin Damman publicou um livro
(Soldier Studies. Crossdressing in der Wehrmacht, da editora Hatje Cantz) que completa estas histórias da cúpula nazi com outras tantas dos soldados rasos, suboficiais e quadros intermédios do Exército.

Segundo Dammann, "se não existissem as fotografias, não se acreditaria nisto". O autor começou por trabalhar para o Arquivo de Londres sobre Conflitos Modernos e, com o patrocínio dessa entidade, pôde viajar pelo mundo inteiro à procura de fotografias feitas por militares nos respectivos exércitos.

Em breve começou a tirar conclusões que o surpreendiam. Uma delas dizia respeito à inusitada frequência com que os militares do sexo masculino aparecem nessas fotografias travestidos de mulheres. Outra dizia respeito ao facto de fotografias com esse tema, banais em todos os exércitos, aparecerem "de forma especialmente frequente nos álbuns de fotografias alemães da Segunda Guerra Mundial".

Muitas das fotografias recolhidas dão conta de festas de Carnaval, em que os militares dispunham de um alibi mais ou menos inócuo para poderem travestir-se.

Mas, muitas vezes, a pulsão pelo travestismo manifestava-se em circunstâncias que nada tinham que ver com o Carnaval - por exemplo, em espectáculos organizados em unidades da frente, sem a presença de mulheres, e portanto com homens a desempenharem papeis femininos. E manifestava-se também quando tropas alemãs tomavam posse de uma aldeia ou cidade e os seus soldados pilhavam os guarda-roupas das mulheres locais.

Damman deduz das imagens e da documentação recolhidas que, "mesmo se a maioria dos soldados era heterossexual, transparecem [nas fotografias] orientações homo- ou transsexuais com invulgar nitidez". Por outro lado, em parte alguma parece ter havido uma repressão do travestismo por parte da hierarquia.

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