Quatro décadas de pintura de Eduardo Batarda na reflexão de Julião Sarmento

Lisboa, 21 mai (Lusa) - A exposição "Mise en abyme", do pintor Eduardo Batarda, comissariada pelo pintor Julião Sarmento, é inaugurada no próximo dia 27, no Pavilhão Branco do Museu de Lisboa, ao Campo Grande, onde vai ficar até 28 de agosto, anunciou a instituição.

Lusa /

O título da mostra adota a expressão idiomática francesa "Mise en abyme", que remete para a ideia de infinito, em particular para o efeito da multiplicação infinita de imagens - uma espécie de abismo -, que se obtém quando, por exemplo, se colocam dois espelhos frente a frente.

"Mise en abyme", a exposição, resulta do frente a frente de dois artistas próximos no tempo - Julião Sarmento (Lisboa, 1948) e Eduardo Batarda (Coimbra, 1943) -, e da proposta, feita pelo primeiro, que levou à reunião de um conjunto de 21 obras do segundo, algumas nunca mostradas em público, vindas de períodos distintos, representativas de quase quatro décadas de trabalho do pintor.

Julião Sarmento reflete sobre a obra de Eduardo Batarda e afirma que ela possui, em si mesma, a ideia de "Mise en abyme", o seu efeito: "Um quadro deste artista contém sempre, sempre, todos os outros quadros que o antecederam e, provavelmente, conterá também todos aqueles que se seguirão", escreve o artista que expôs, no início deste ano, em Paris, "Julião Sarmento. La chose, même - the real thing".

Nas palavras do comissário, a obra de Eduardo Batarda "não é, seguramente, uma obra para todos", é "uma obra falsamente democrática", escreve na apresentação da mostra. "É, sobretudo, uma obra para ele, para a sua imagem reflectida no espelho que se repete `ad infinitum`, que se prolonga e arrepia".

Os quadros de Batarda, diz Sarmento, "são sempre uma imagem dentro de uma imagem que se repete e se plasma na outra imagem que se lhe segue. Confuso? Claro! Como o discurso do Eduardo. É impossível distinguir o verbo da pintura. São apenas um. Como ele. Obcecado, genial, repetitivo e etc."

Eduardo Batarda frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e os Cursos de Pintura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1963-1968). De 1968 até 1971, cumpriu o serviço militar obrigatório, em plena guerra colonial e, de 1971 a 1974, frequentou a classe de pintura do Royal College of Art, em Londres, como Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.

De 1976 a 2008, deu aulas na Escola Superior de Belas Artes do Porto, atual Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.

Eduardo Batarda expõe desde 1966, data das primeiras obras recolhidas para "Mise en abyme", que vão até 2002, pouco antes do período em que suspendeu a atividade (2004-2008), "numa atitude consciente e de profundo questionamento do trabalho", como destacou o Museu de Serralves.

Entre as principais exposições do percurso do pintor destacam-se a de 1975, na Fundação Calouste Gulbenkian, com o seu trabalho como bolseiro, a retrospetiva do Centro de Arte Moderna, em 1998, a mostra no Centro de Arte Manuel de Brito, em 2009, e a retrospetiva "Outra Vez Não", no Museu Serralves, no Porto, em 2011, na sequência do Grande Prémio Arte EDP, que lhe fora atribuído.

"Uma obra reflexiva da consciência e maturação, de um apurado sentido crítico que o obriga a colocar-se em causa permanentemente", escrevia o museu do Porto, sobre Batarda, quando da realização da mostra.

No dia da inauguração de "Mise en abyme", no Museu de Lisboa, será também lançado o catálogo da exposição, no qual Julião Sarmento procura, "através de uma cronologia iniciada em 2016, percorrer todos os anos com produção artística de Eduardo Batarda, até 1965", com uma peça representativa de cada ano.

O catálogo conta com textos de Julião Sarmento, do crítico e historiador de arte Pedro Faro e do comissário espanhol David Barro.

"Mise en abyme" fica aberta ao público de 28 de maio a 28 de agosto, e pode ser vista de terça a domingo, das 10:00 às 18:00, com entrada livre.

Para o dia 07 de junho, às 18:30, está prevista um "visita-conversa", com Eduardo Batarda, Julião Sarmento, e os curadores João Mourão e Alexandre Melo.

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