Cultura
Recuperação integral dos destroços. Arqueólogos resgatam naufrágio romano de 1.700 anos em operação histórica em Maiorca
Uma operação inédita, em Espanha, permitiu recuperar integralmente os destroços de Ses Fontanelles, um navio mercante do século IV d.C. com mais de 300 ânforas ainda preservadas e um dos mais importantes conjuntos de inscrições comerciais romanas descobertos no Mediterrâneo.
A equipa de arqueólogos do projeto Arqueomallornauta concluiu, no fim de junho, na ilha de Maiorca, a recuperação integral dos destroços da embarcação romana de Ses Fontanelles, um navio mercante do século IV d.C. afundado há cerca de 1.700 anos ao largo da praia de Can Pastilla.
A extração da última secção do casco encerrou uma complexa operação arqueológica iniciada em março e considerada um marco para a arqueologia subaquática espanhola e mediterrânica. Segundo o Conselho de Maiorca, a intervenção permitiu recuperar na totalidade os restos da embarcação, encontrada em 2019, para garantir a sua conservação e estudo futuro.
A fase final do resgate começou antes do amanhecer, com a elevação da derradeira porção do casco através de um sistema de balões de flutuação. A estrutura foi depois rebocada até ao Club Marítimo San Antonio de la Playa e transferida para o Castelo de San Carlos, onde permanecerá submersa em tanques de dessalinização durante aproximadamente um ano e meio. De acordo com os responsáveis pelo projeto, citados na publicação Ara Balears "esta etapa é fundamental para estabilizar as madeiras antes dos tratamentos de conservação de longo prazo".
À Forbes Espanha, Miguel Ángel Cau, co-responsável pela intervenção, enfatiza que o principal objetivo estabelecido há cinco anos – a recuperação completa do navio para garantir sua preservação – "foi alcançado".
Última parte do casco de Ses Fontanelles a ser retirada do fundo mar através de um sistema de balões de flutuação | Arqueomallornauta
“Hoje culmina uma operação histórica para o património de Maiorca e do Mediterrâneo”, realçou também o presidente do Conselho Insular de Maiorca, Llorenç Galmés. O responsável acrescentou que foi possível “salvar um tesouro arqueológico único” graças à colaboração entre arqueólogos, conservadores e instituições académicas.
“Este naufrágio permitirá descobrirmos como era a navegação há mais de 1.700 anos e reforçará o papel de Maiorca como um dos principais centros de investigação e conservação do património subaquático”, sublinhou o presidente da ilha. sublinhando que o naufrágio permitirá aprofundar o conhecimento sobre a navegação romana há mais de 1.700 anos.
A intervenção foi conduzida no âmbito do projeto Arqueomallornauta, envolvendo investigadores da Universidade de Barcelona, da Universidade das Ilhas Baleares e da Universidade de Cádis | Arqueomallornauta
Uma cápsula do tempo do comércio romano
Se o casco constitui um testemunho excecional da construção naval romana, a carga preservada no interior do navio representa um dos conjuntos arqueológicos mais importantes alguma vez recuperados de um naufrágio romano na Península Ibérica. Segundo os investigadores do projeto Ses Fontanelles Shipwreck, da Universidade de Barcelona, citados no Guardian "a embarcação transportava mais de 300 ânforas comerciais provenientes da região de Carthago Spartaria (atual Cartagena), muitas delas encontradas intactas e no seu contexto original".
As análises realizadas indicam que estas ânforas continham produtos característicos das redes comerciais do Império Romano, incluindo vinho, azeite e garum, o conhecido molho de peixe fermentado amplamente consumido em todo o Mediterrâneo.
A "conservação excecional" da carga faz do naufrágio uma verdadeira “cápsula do tempo”, permitindo reconstituir circuitos comerciais, hábitos alimentares e práticas económicas da Antiguidade Tardia explicam os investigadores do projeto do naufrágio do Ses Fontanelles,
Entre o espólio estavam perto de uma centena de ânforas que apresentavam inscrições pintadas diretamente sobre a cerâmica / Arqueomallornaut/Universidade de Barcelona – Ses Fontanelles Shipwreck Project
Um dos aspetos que mais entusiasmo gerou entre os arqueólogos foi a identificação de cerca de uma centena de tituli picti — inscrições pintadas diretamente sobre as ânforas. Estes registos contêm informações sobre os produtos transportados, a sua origem e os agentes envolvidos no comércio marítimo, constituindo, segundo os especialistas da Universidade de Barcelona, um dos mais importantes conjuntos de epigrafia anfórica pintada descobertos em Espanha.
Vestígios da vida a bordo
Além da carga comercial, os arqueólogos recuperaram um vasto conjunto de objetos associados à navegação e ao quotidiano da tripulação. Entre os materiais recolhidos encontram-se quatro âncoras, algumas ainda com os nós originais preservados, cerca de 90 metros de cordame, uma roldana e dois cestos de fibras vegetais.
Embarcação identificada em 2019 | Arqueomallornauta
Foram igualmente encontrados recipientes de cozinha norte-africana, cerâmicas finas decoradas e uma panela utilizada a bordo, materiais que ajudam a compreender as condições de vida dos marinheiros durante as viagens comerciais da época.
Entre as descobertas mais invulgares destacam-se vestígios das velas da embarcação preservados sob o casco, um achado raro em arqueologia subaquática, bem como materiais vegetais que terão servido para proteger a carga durante a travessia. Segundo os investigadores, estes elementos poderão fornecer novas informações sobre as técnicas de navegação, acondicionamento de mercadorias e construção naval no Mediterrâneo romano.
O início de uma nova investigação
Para os responsáveis pelo projeto, o verdadeiro trabalho começa agora. Depois da conservação das madeiras, seguir-se-á o estudo detalhado da estrutura do navio, da carga e dos materiais associados.
Segundo Antònia Roca, vice-presidente e responsável pela Cultura e Património do Conselho Insular de Maiorca, a extração “não é o final do projeto, mas o início de uma nova etapa de investigação e conservação”, centrada no estudo detalhado da embarcação e dos materiais recuperados.
Os investigadores esperam que a análise do conjunto permita compreender melhor as ligações comerciais entre a Hispânia e outras regiões do Mediterrâneo durante o século IV d.C., um período marcado por profundas transformações económicas e políticas no Império Romano.
Arqueólogos a investigarem o naufrágio | Arqueomallornauta