Revista Limoeiro Real lança-se na edição de livros com "Camanchaca" de Diego Zúñiga
A editora independente Limoeiro Real, conhecida pela revista homónima que publica desde 2022, vai lançar-se na publicação de livros, inaugurando a sua coleção literária com "Camanchaca", do chileno Diego Zúñiga, uma obra de "estrutura inusitada" que desafia convenções narrativas.
A ideia de criar uma coleção de "livros de literatura traduzida de autores que são conhecidos no estrangeiro, têm uma trajetória, mas não estão a ser publicados em Portugal", já era um desejo antigo dos editores da revista, Mariano Tomasovic e Inês Viegas Oliveira, que agora decidiram dar esse passo em frente e se preparam para lançar o primeiro livro no próximo dia 10, e mais dois até ao final do ano, disse à Lusa o editor.
"Por questões das nossas afinidades e interesses literários, decidimos publicar uma coleção mais virada para a América Latina, mas pensamos também publicar autores galegos, catalães", acrescentou.
Nascido em Buenos Aires e residente em Portugal, Mariano Tomasovic é também tradutor e assina a tradução deste primeiro livro, uma escolha que se prendeu com o impacto que teve em si quando o leu, mas para publicações futuras pretende contratar tradutores do espanhol e do galego.
"Eu sou tradutor de espanhol, conheço mais e conheço melhor essa literatura, e queria também aproximar um bocadinho dos leitores portugueses aquilo que eu tenho lido, que me parece interessante e que creio que [lhes] interessará também", contou, acrescentando que pretende, acima de tudo, divulgar literatura contemporânea do século XXI, autores que "não são propriamente `best-sellers` e que estão virados para uma literatura mais trabalhada e menos comercial".
A prazo, os editores pretendem publicar três a quatro livros por ano, juntamente com a revista, um projeto editorial nascido em 2022, que começou por ter uma periodicidade trimestral, passou a semestral e "cada número é um bocadinho mais completo".
Com uma curadoria literária partilhada, a escolha dos livros é feita por Mariano e Inês, embora estejam abertos a sugestões de colegas e leitores, como é o caso de um dos títulos já planeados para este ano, que surgiu por recomendação externa.
Sem querer avançar nomes nem títulos, para "manter o mistério", o editor revelou apenas que os outros livros a publicar ainda em 2025 serão de uma autora mexicana e de uma galega.
O objetivo é apostar em autores inéditos em Portugal, disse, admitindo que possa surgir no futuro interesse em publicar "autores que já estão cá, mas talvez obras menos conhecidas ou mais experimentais."
"O nosso interesse também é mostrar alguma literatura que é um bocadinho menos convencional, por exemplo, este livro, `Camanchaca`, tem uma estrutura bastante particular e achamos que era interessante publicar, precisamente porque não é parecido com outros livros da literatura chilena, da literatura latino-americana, que tenham surgido nos últimos anos. Além da história, a própria estrutura do livro é bastante inusitada e interessante."
O caminho até este livro fez-se por via das muitas agências literárias com que trabalham, para pedir direitos de alguns contos ou ensaios que publicam na revista, e que permite aos editores manterem-se "muito informados" sobre o que acontece lá fora.
"O `Camanchaca` era um livro que os dois já tínhamos lido há algum tempo. Quando vimos que não estava para ser publicado cá -- portanto, contactámos a agência e soubemos que não ia ser publicado cá - quisemos avançar, porque achamos que é um livro importante."
"Camanchaca" -- que recebe o nome do nevoeiro vindo do Pacífico que percorre o deserto do Atacama -- é narrado pela voz de um jovem de 20 anos, solitário e com sobrepeso, que numa viagem de carro pelo deserto tenta dar sentido à violência da sua história familiar e, de alguma maneira, a história do seu país, revelou Mariano Tomasovic.
Partindo do Chile e com destino a Tacna, no Peru, com a estrada e o deserto como pano de fundo, pelo caminho vão-se vislumbrando os segredos da família, uma infância solitária, comentários feitos ao seu corpo.
"Mais do que contar uma história, `Camanchaca` insinua, avança e recua, como o nevoeiro que lhe dá nome. Um romance de formação fragmentário e em movimento: a história íntima de um jovem moldada pelos silêncios do deserto e pelas promessas falhadas do Chile neoliberal", lê-se na sinopse.
Segundo o editor, esta coleção terá "um aspeto visual cuidado e apelativo", na linha da revista: "Para nós, o grafismo e a qualidade do livro como objeto são elementos importantes, pois permitem chamar novas leitoras e leitores."
A ilustração da capa é da autoria de Inês Viegas Oliveira, que além de editora é responsável pela composição gráfica e paginação, e é também ilustradora, tendo sido selecionada em 2020 e 2023 para a exposição de ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha, e distinguida em 2023 com o Prémio Nacional de Ilustração, pela obra "O duelo", publicada pela Planeta Tangerina.
O livro "Camanchaca" terá uma tiragem de 500 exemplares e uma distribuição mais ampla do que a revista Limoeiro Real.