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Spinosaurus mirabilis de crista em forma de cimitarra apresenta-se como uma espécie de dinossáurio inédita

Spinosaurus mirabilis de crista em forma de cimitarra apresenta-se como uma espécie de dinossáurio inédita

No coração do Saara nigeriano foram encontrados fósseis de um dinossáurio - até então desconhecido - com uma crista em forma de cimitarra. Denominado Spinosaurus mirabilis, este grande predador bípede apresenta-se com características de ser um animal semiaquático que viveu há 95 milhões de anos.

Carla Quirino - RTP /
O paleontólogo Paul Sereno posa no Laboratório de Fósseis na Universidade de Chicago com um crânio reconstruído do dinossauro Spinosaurus mirabilis. A fotografia foi divulgada pela Universidade de Chicago a 19 de fevereiro de 2026 Foto: Keith Ladzinski/Divulgação via Reuters

Uma expedição ao deserto do Saara, no norte do Níger, liderada pelo paleontólogo Paul Sereno, da Universidade de Chicago, revelou um conjunto de fósseis de um dinossáurio até então desconhecido.

Denominados por Spinosaurus mirabilis, este gigante bípede viveu há 95 milhões e vem reescrever a história dos espinossaurídeos. Este grupo de dinossáurios foi sempre descrito por serem grandes carnívoros bípedes com crânios semelhantes aos dos crocodilos, longos, baixos e estreitos, com dentes cônicos com serrilhas reduzidas ou ausentes.

Agora, o novo estudo traz novidades sobre a existência de uma crista nunca vista anteriormente. Esta formação saliente do crânio apresenta uma curvatura semelhante a uma cimitarra, espada icónica de lâmina curva, com um só gume, típica do Médio Oriente, Ásia Central e Norte da África, usada por árabes, persas e turcos.

Esta descoberta realizada a partir de fósseis encontrados em depósitos fluviais remotos no Níger, na região de Jenguebi, também reacendeu o debate sobre o estilo de vida destes gigantes, inspirando a pelo menos duas interpretações.  

Uma como um predador semiaquático que faria emboscadas nas linhas costeiras e rasas e outra como um predador totalmente aquático em busca de presas debaixo de água. 

Os fósseis dos ossos e dentes foram encontrados apenas em depósitos costeiros perto das margens marinhas, um local potencialmente consistente com qualquer interpretação de estilo de vida, diz o estudo.

A ilustração mostra o dinossauro Spinosaurus mirabilis de crista em forma de cimitarra e foi divulgada pela Universidade de Chicago em fevereiro de 2026 | Ilustração: Dani Navarro/Divulgação via Reuters
A crista da surpresa
A característica mais impressionante de S. mirabilis é a enorme crista em forma de cimitarra, que se "eleva do crânio em formato curvo e elegante, algo completamente inédito no grupo dos espinossauros" sublinha Sereno.

Segundo os investigadores da Universidade de Chicago, "a superfície externa da crista e os canais de irrigação sanguínea encontrados no interior indicam que ela era coberta por queratina, provavelmente exibindo cores vibrantes, tal como os bicos de algumas aves modernas. Além do impacto visual, a crista parece ter desempenhado funções de exibição, talvez ligadas a comportamento social ou acasalamento" argumentam.

À publicação ScienceDaily, Paul Sereno descreveu o momento da descoberta como profundamente marcante: “Foi imediato quando Dan retirou a crista reconhecível da areia [...] Todos sabíamos o que aquele achado poderia significar”, recordou o paleontólogo.
Artigo "Nova espécie de espinossauro-cimitarra descoberta no Saara central" mostra o fóssil da crista em forma de cimitarra durante a escavação | Foto: Universidade de Chicago
Dentes interligados: um predador feito para caçar peixe
Outra característica única de Spinosaurus mirabilis é a sua dentição singular: dentes superiores e inferiores interdigitados, que se entrelaçam de tal modo que formam uma armadilha quase inescapável para peixes escorregadios.

Este tipo de dentição ocorre em outros predadores aquáticos do passado — como ictiossauros e crocodilos semiaquáticos — mas é extremamente raro entre dinossáurios. A presença deste padrão reforça a interpretação de que S. mirabilis era um "especialista piscívoro", descreve o estudo.
“Garça infernal”
Ao contrário das descobertas anteriores de espinossauros, geralmente associadas a depósitos costeiros, os fósseis de S. mirabilis apareceram centenas de quilómetros no interior do continente africano, numa paisagem antiga composta por rios arborizados.

Essa localização e as novas evidências sugerem que eram grandes predadores semiaquáticos, capazes de vadear em águas profundas mas igualmente adaptados a ambientes terrestres explica o estudo.

Sereno descreveu-o poeticamente como uma "garça infernal": "Eu imagino este dinossáurio como um tipo de ‘hell heron’ - garça infernal - que com as suas pernas robustas, não teria problema em entrar em dois metros de água, mas provavelmente passava o tempo a perseguir peixes nas zonas mais rasas”, explicou.

Spinosaurus mirabilis que viveu há 95 milhões de anos seria um predador semiaquático apresenta-se como um dinossáurio que reescreve a história dos espinossaurídeos | Ilustração: Dani Navarro/Divulgação via Reuters
Descoberta de uma vida

A busca pelos restos deste dinossáurio começou décadas antes, inspirada por uma referência enigmática num monógrafo francês dos anos 1950, que mencionava um dente de formato peculiar encontrado no Níger. A confirmação, porém, só chegou em expedições realizadas entre 2019 e 2022.

“Essa descoberta foi tão repentina e incrível, foi realmente emocionante para o nosso grupo de trabalho”, disse Sereno. “Eu irei sempre valorizar o momento no acampamento em que nos juntámos em torno de um computador portátil, no meio do Saara, para observar a nova espécie, pela primeira vez, após um membro da nossa equipa ter gerado modelos digitais 3D dos ossos que encontrámos para montar o crânio. Foi quando o significado da descoberta realmente se revelou”

Em 2026, as análises, as reconstruções digitais e a descoberta de múltiplas cristas de diversos indivíduos permitiram identificar formalmente a nova espécie — uma das últimas linhagens sobreviventes dos espinossaurídeos, com cerca de 95 milhões de anos.

A descoberta de S. mirabilis ganhou destaque internacional e foi apresentada na capa da revista Science, reforçando a relevância paleontológica do achado enquanto a Universidade de Chicago produziu um vídeo que mostra alguns momentos da escavação que pode ser visto aqui.

Citado na DiscoverMagazine, Sereno remata dizendo que se trata de uma oportunidade rara e realça: “Esta é a nossa possibilidade de escrever um capítulo na história dos dinossáurios de África, e às vezes essa possibilidade surge apenas uma vez na vida".

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