Tomas Tranströmer, poeta do realismo íntimo
Lisboa, 06 out (Lusa) -- O sueco Tomas Tranströmer, de 80 anos, hoje distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, é o mais conhecido dos poetas escandinavos vivos, cuja obra explora a relação entre a nossa intimidade e o mundo que nos rodeia.
"A existência de um ser humano não acaba onde os seus dedos terminam", declarou um crítico sueco sobre alguns poemas de Tranströmer, que classificou como "orações laicas".
O prestígio de Tranströmer no mundo anglófono deve-se sobretudo à sua amizade com o poeta norte-americano Robert Bly, que traduziu para inglês uma boa parte da sua obra -- que está traduzida em 60 línguas, entre as quais o português, numa antologia de poesia sueca editada pela Vega, com coordenação de Vasco Graça Moura e Ana Hatherly, e intitulada "21 Poetas Suecos".
Os poemas de Tomas Tranströmer são ricos em metáforas e imagens e retratam cenas simples, retiradas do quotidiano e da natureza.
O seu estilo introspectivo, descrito pela revista Publishers Weekly como "místico, versátil e triste", destoa da vida do poeta ativamente empenhado numa luta por um mundo melhor -- e não apenas através de poemas.
Nascido a 15 de abril de 1931 em Estocolmo, Tomas Tranströmer foi educado pela mãe, após a morte precoce do pai.
Depois de se licenciar em Psicologia em 1956, foi contratado pelo Instituto Psicotécnico da Universidade de Estocolmo e, a partir de 1960, passou a ocupar-se de jovens delinquentes num instituto especializado, trabalhando com deficientes, presos e toxicodependentes, enquanto edificava a sua obra poética.
Em 1954, aos 23 anos, ainda estudante de Psicologia, publicou o seu primeiro livro, intitulado "17 Poemas", na maior editora sueca, Bonniers, à qual continuou ligado ao longo da sua carreira e cujo editor considera a poesia de Transtroemer "uma análise permanente do enigma da identidade individual perante a diversidade labiríntica do mundo".
Em 1966, recebeu o prestigiado Prémio Bellman, ao qual se seguiram muitas outras distinções, entre as quais o Prémio Petrarca (Alemanha, 1981) e o Neustadt International Prize (Estados Unidos, 1990).
Em 1997, a cidade operária de Vaesteraas, onde ele viveu 30 anos, antes de regressar a Estocolmo nos anos 1990, criou o Prémio Tranströmer.
Quando tinha publicado uma dezena de livros, o poeta sofreu, em 1990, um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixou parcialmente paralisado e afásico, o que o obrigou a reduzir consideravelmente as suas atividades.
A primeira obra que publicou após o AVC, seis anos depois, é um livro de poemas intitulado "A Gôndola Mágoa", que vendeu 30.000 exemplares, um número incomum em matéria de poesia.
Após este êxito, Tranströmer não publicou nada durante oito anos, à exceção da sua correspondência com o norte-americano Bly.
A sua mais recente obra remonta a 2004, ano em que editou um livro com 45 haikus, "O Grande Enigma".
Desde então, a música tomou conta deste pianista amador, que toca todos os dias no seu piano -- com a mão esquerda, porque a direita ficou paralisada em consequência do AVC --, e passa as manhãs a ouvir música clássica, revelou a sua mulher, Monica, numa entrevista ao diário sueco Dagens Nyheter publicada este ano.