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Trio musical toca em Hong Kong em busca de novo público para crioulo de Macau

Trio musical toca em Hong Kong em busca de novo público para crioulo de Macau

Um trio que compõe músicas originais em patuá vai, no sábado, dar em Hong Kong o primeiro concerto fora de Macau, para tentar criar um novo público para o dialeto crioulo de origem portuguesa.

Lusa /

Há cerca de seis anos, o engenheiro civil Delfino Gabriel começou a tentar fazer músicas em patuá, dialeto que foi criado ao longo dos últimos 400 anos pelos macaenses, uma comunidade euro-asiática com muitos lusodescendentes.

"Eu sou macaense e pai de duas crianças. Por isso acho que é necessário promover e mostrar-lhes quais são as suas raízes, que não é só a gastronomia macaense", diz Gabriel.

A gastronomia macaense foi em 2019 inscrita por Macau como património cultural intangível da região. Dois anos depois, foi também incluída pela China na Lista de Património Cultural Imaterial Nacional.

"Na maior parte das vezes, escrevia em português e depois pedia ajuda a bons amigos meus que têm talento para o crioulo. Ensinaram-me e tentaram traduzir para mim", explica Gabriel.

Depois de lançar vários trabalhos a solo, o cantor criou há dois anos o trio Gabriel & Friends, com Water, um multi-instrumentalista local, e Halen Mory Woo, um percussionista de Hong Kong.

"Quando nos conhecemos, foi amor à primeira vista, porque partilhamos a mesma paixão por fazer música original com instrumentos invulgares -- handpan, jambé, kora -- tudo `champurado` [`misturado` em patuá]", defende Gabriel.

O trio Gabriel & Friends passou em outubro pelo palco do Festival da Lusofonia de Macau, organizado anualmente pelas associações das comunidades de língua portuguesa na região.

Para 2026, o objetivo é ir além de Macau, a começar no sábado, no Museek Studio, em Hong Kong, um espaço que acolhe concertos de música alternativa, com um máximo de 25 espetadores.

"O dono ficou muito interessado quando ouviu falar de música em patuá e ele apoia muito este tipo de partilha cultural", diz Halen, que dá aulas na Universidade de Macau.

"O Gabriel está a tentar não apenas preservar a língua, mas também promovê-la. Só que em vez de uma palestra, com um `Power Point`, apresentamos o patuá com música", disse o percussionista.

O patuá tem sobrevivido nas peças da companhia de teatro Dóci Papiaçám di Macau e nos concertos da Tuna Macaense, que toca sobretudo canções com letra do poeta José dos Santos Ferreira, mais conhecido por Adé (1919-1993).

"As canções tradicionais são muito interessantes. Eu inspirei-me na Tuna Macaense. Mas estamos a tentar fazer algo diferente, novo, música pop alternativa", explica Gabriel.

O cantor acredita que pode "atrair um novo público" para o patuá, algo que já tem feito também através das atividades da Associação de Estudos da Cultura Macaense.

"Muitos dos estudantes [vindos da China continental] consideram a cultura macaense em geral muito interessante", diz Gabriel, que trabalha a tempo inteiro na Universidade de Macau.

Considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como "gravemente ameaçado", o nível antes da extinção, o patuá foi desaparecendo devido à obrigatoriedade de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa.

Gabriel sublinha que o Governo da região chinesa tem "apoiado muito" os esforços para preservar o patuá e sonha com um futuro em que o crioulo seja "como o pastel de nata de Macau".

"Não apenas um património que possa ser passado de geração em geração, mas também algo que, quando um turista vem cá, sabe que existe o patuá, como um símbolo de Macau", explicou o macaense.

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