Agência africana de `rating` é essencial para capturar especificidades do continente
O economista chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento defendeu hoje, em entrevista à Lusa, a necessidade de uma agência africana de notação financeira para capturar as especificidades das economias da região.
"Mais de 50% da atividade económica em África existe fora do setor bancário, por isso se todos os dados financeiros e sobre fluxos financeiros [nos ratings] derivam do que se vê nos balanços do bancos e das contas públicas, que deixam de fora metade da economia de um país, então não é possível retratar corretamente o que se passa num país", disse Raymond Gilpin.
Em entrevista à Lusa a propósito da criação da agência africana de `rating`, uma iniciativa da União Africana que deverá entrar em funcionamento este ano com sede nas Maurícias, o economista-chefe do PNUD defendeu que a criação desta entidade vai obrigar não só as três principais agências de `rating` a envolverem-se mais no continente, mas também forçar os governos a apresentarem melhores dados económicos e financeiros e a organizarem-se melhor.
"A questão não é só culpa das agências de `rating` nem dos países; a falta de capacitação está nos dois lados da equação; as agências de `rating` têm problemas de metodologia e dados, mas os governos também enfrentam desafios na qualidade institucional e no desempenho", explica o economista, lembrando que o PNUD lançou, em 2023, a Iniciativa Africana para os `ratings`, e um relatório que estimava em mais de 70 mil milhões de dólares o custo da subavaliação dos `ratings` em África, que se reflete em financiamento mais caro.
"Fartámo-nos deste enviesamento e quisemos fazer alguma coisa que, na prática, ajudasse os países a extraírem mais do processo de atribuição de `ratings`", lembrou, explicando como surgiu a iniciativa.
A atribuição de `ratings` é fundamental para os países conseguirem ter acesso aos mercados financeiros internacionais, não só pela confiança que transmite aos grandes investidores globais, mas também porque há investidores institucionais que só podem `apostar` em países ou entidades que tenham um `rating` atribuído por uma das três maiores agências -- Moody`s, Standard & Poor`s e Fitch Ratings.
Nos últimos meses, as críticas por parte dos governos africanos a estas agências têm subido de tom, e em janeiro o Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank), a maior entidade de financiamento comercial no continente, decidiu cortar laços com a Fitch, considerando que a agência "não compreende" o modelo de funcionamento e o próprio mandato do banco.
Para Raymond Gilpin, o enviesamento que existe na atribuição de `ratings` a África revela-se não só pelo facto de apenas três (Marrocos, Botsuana e Ilhas Maurícias) em 34 países avaliados no continente terem um `rating` acima da linha de água, ou seja, com recomendação de investimento, mas também em questões concretas de avaliação da capacidade e vontade de um governo para saldar as dívidas.
"Para além da questão da informalidade da economia, que não é avaliada, o segundo problema é a própria estrutura das economias africanas; muitos países estão a investir no futuro, o que requer significativos fluxos financeiros, incluindo endividamento; só que se não se leva em conta que estes investimentos são necessários a médio e longo prazo e que vão compensar, então temos uma visão parcial e enviesada do potencial da economia que se reflete nos `ratings`", argumenta o economista-chefe do PNUD.
Uma terceira crítica às agências é a falta de implantação local, já que apenas a Moody`s tem uma representação em África, obtida através da compra de uma agência local.
"As três grandes agências de `rating` não têm pessoas no terreno; o país é avaliado em visitas de duas a três semanas, em que falam com algumas pessoas e é assim que se avalia a robustez institucional e as questões políticas e de segurança, e às vezes as conversas políticas nem incluem o governo" do país que os analistas estão a avaliar.
É por isso, conclui, que é importante "que uma instituição como a agência africana de `rating` possa investir, ainda que apenas de forma regional, e tenha pessoas no terreno que realmente seguem o lado financeiro e macroeconómico de um país".
O principal objetivo, garante, não é criticar as agências de `rating` nem os governos, mas sim criar um ecossistema das avaliações em que todos os intervenientes estejam mais bem preparados para garantir que a capacidade de um país pagar aos seus credores é bem analisada e refletida.