António Cotrim, de distribuidor de notícias a fotojornalista premiado
O fotojornalista António Contrim é, aos 68 anos, o funcionário mais antigo da agência Lusa. Começou a fotografar "a sério" ainda na ANOP, mas a ligação às agências remonta à Lusitânia onde começou como distribuidor de notícias.
Na agência Lusitânia, antes do 25 de abril de 1974, começou como distribuidor de notícias. Tinha então 16 anos e muita curiosidade por fotografia, mas só viria a entrar na profissão "a sério" em 1983 já na ANOP e depois de passar as provas do Sindicato de Jornalistas, segundo contou em entrevista à Lusa, a sua "casa", a propósito dos 40 anos da agência que este ano se assinalam.
Desde então, o funcionário 81 da agência Lusa captou com a sua lente quase meio século do Portugal democrático.
Entre os milhares de fotografias que tirou, tantas que não consegue ter totalmente a conta, está a de uma reunião entre os dirigentes das agencias ANOP e NP com o secretário de Estado Luís Marques Mendes, a 29 de abril de 1986, durante a qual foi aprovada a junção das duas agências para dar origem à Lusa.
António Cotrim, destacado para cobrir a reunião pela ANOP, era na altura um "ilustre desconhecido" no fotojornalismo onde pontuavam nomes como Alfredo Cunha e Luis Vasconcelos, Fernando Baião ou Manuel Moura. Naquela altura, os fotojornalistas não gozavam do reconhecimento que hoje têm, dependiam dos jornalistas e fotografavam o que estes determinassem, sem agenda própria.
A projeção nacional como fotojornalista aconteceria apenas três anos depois já ao serviço da nova agência.
"Em 1989, fui enviado para Riade para o Campeonato do Mundo de Sub-20 de Futebol. Portugal ganhou o título, foi o primeiro título de futebol mundial de uma seleção portuguesa. Aquilo deu-me uma projeção enorme. Era o único fotojornalista [português] que estava lá. Foi o meu momento de glória, saiam fotos minhas diariamente em todo o lado", recordou.
Nos 43 anos que leva de carreira, fotografou de tudo: política, moda, desporto, teatro, protestos, viagens oficiais, cenários de guerra, todo o tipo de gentes e lugares, em Portugal e no estrangeiro.
Assinou fotografias icónicas como a da princesa Diana a atravessar um campo de minas em Angola, em 1997, e outras que lhe deixaram marcas como uma reportagem fotográfica na antiga Colónia Penal do Tarrafal, em Cabo Verde, em 2012, e de que viria a resultar na exposição "Tarrafal - entre a resistência e o risco de esquecimento".
"Rostos de Timor", outra exposição do trabalho de António Cotrim, resultou também das várias deslocações que fez ao território ao serviço da Lusa. A mostra reuniu 24 fotografias da "marca de sofrimento, de esperança e nobreza", que encontrou nos rostos que fotografou naquele país, que visitou pela primeira vez em 2002, ano da Independência.
"Fiquei apaixonado por Timor-Leste, já lá fui várias vezes e não gostava de acabar a minha vida de fotojornalista, que acaba daqui a um ano, sem voltar a Timor", disse.
Em 2015, foi distinguido com o Prémio Gazeta de Fotografia com uma imagem captada num resgate por helicóptero dos corpos de um casal de polacos caídos no Cabo da Roca, no verão de 2014.
Nos últimos anos, a par com o trabalho quotidiano de fotojornalista, lançou a iniciativa "Uma imagem solidária", que anualmente reúne fotojornalistas e fotógrafos profissionais e amadores, no apoio a uma causa social.
O seu mais recente projeto foi a criação do Núcleo Museológico da Lusa, na sede da empresa em Lisboa, um espaço inaugurado em setembro e que pretende preservar a memória da agência.
Do tempo antes da Lusa, Cotrim recorda o período de convivência entre as duas agências que lhe deram origem - ANOP e NP - como um dos períodos "mais giros do jornalismo português".
A tensão entre as duas empresas era uma realidade, a ordem das direções era para que não falassem uns com os outros, a concorrência entre as empresas era levada a sério. No terreno as coisas eram bem diferentes.
Os fotojornalistas combinavam o equipamento que cada um levava, partilhavam materiais e o trabalho fazia-se sem rivalidades.
"A ordem era para extinguir a ANOP. A ANOP só não é extinta nessa altura porque houve uma grande mobilização popular [..] e isto fez recuar o poder político. Graças à opinião pública a ANOP viveu" até chegarem a consenso para fundar a Lusa, refere.
Segundo António Cotrim, a criação da Lusa acabou por ser um alívio para os trabalhadores das duas empresas, cansados de anos de incerteza e rivalidade.
Desses tempos, Cotrim recorda, com saudade, a maior união que, garante, existia entre os jornalistas e lamenta que, na atualidade, se tenha caído num "jornalismo populista" de constantes alertas televisivos, que atribuiu à situação financeira dos órgãos de comunicação social e à concorrência desenfreada.
"Hoje há algo de terrível no jornalismo que são os alertas. Há um alerta sobre um incêndio grave e quando lá chegas é um tipo que está a acender um isqueiro, faz-se [a cobertura] de manifestações de cinco ou seis pessoas. Não há o cuidado de analisar se aquilo é notícia ou não. Pensa-se que quantidade é qualidade. Temos quantidade e pouca qualidade", lamentou.
Sobre o papel da Lusa, neste ambiente mediático, o fotojornalista destaca o capital de credibilidade da agência e a grande abrangência em Portugal e no estrangeiro, o que acarreta também grande responsabilidade.