Assinado acordo entre UE e Mercosul. Maior zona de comércio livre do mundo nasce no Paraguai

O acordo foi assinado pelos representantes dos países do Mercosul - Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai -, sem a presença de Lula da Silva, e pelo comissário europeu com o portefólio do Comércio, Maros Sefcovic.

Carlos Santos Neves - RTP /
Cesar Olmedo - Reuters

Ao cabo de 25 anos de negociação, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi este sábado assinado na capital do Paraguai, Assunção. Ficou assim oficializada a criação daquela que é a maior zona de comércio livre do mundo.

Na presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, o acordo foi assinado pelos representantes de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai - países que formam o Mercosul - e por Maros Sefcovic, comissário europeu do Comércio.

Telejornal | 17 de janeiro de 2026

O acordo agora firmado abre caminho à eliminação de tarifas para 91 por cento das exportações europeias com destino ao Mercosul e para 92 por cento das exportações sul-americanas que visam a Europa.Trata-se, segundo números de Bruxelas, de um mercado de mais de 700 milhões de consumidores que equivale a um Produto Interno Bruto de cerca de 19 biliões de euros.

A Comissão Europeia prevê mesmo crescimentos das exportações anuais para o Mercosul em 39 por cento e de 50 por cento em produtos agroalimentares.

O acordo, sublinha em comunicado a Comissão Europeia, constitui um "forte sinal geopolítico" numa conjuntura "de incerteza global e crescente fragmentação". Levará, ainda de acordo com o Executivo comunitário, a um ponto final a várias taxas aduaneiras sobre as exportações, entre as quais para "produtos agroalimentares e produtos industriais fundamentais como automóveis, maquinaria e produtos farmacêuticos, permitindo às empresas da UE poupanças anuais de cerca de quatro mil milhões de euros".

Numa mensagem destinada aos agricultores europeus, que têm vindo a contestar, em diferentes capitais, a assinatura do acordo com o Mercosul, a Comissão Von der Leyen sustenta que se "abrirá um acesso sem precedentes à região do Mercosul para os agricultores e produtores agroalimentares europeus".Perto de 2.500 pessoas protestaram este sábado, em Berlim, com 50 tratores, contra o acordo entre União Europeia e Mercosul.

A União Europeia acautelou, de acordo com Bruxelas, que os sectores agroalimentares "beneficiem de todas as salvaguardas necessárias".
"Fazemos pontes"
Pouco antes da assinatura, em aparente farpa à Administração norte-americana, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, propugnou que, "enquanto uns levantam barreiras", a União Europeia e o Mercosul constroem "pontes".

"Enquanto uns levantam barreiras e outros violam as regras de concorrência leal, nós fazemos pontes e concordamos com as regras", afirmou Costa, para acrescentar que a União é pelo "comércio justo como força geradora de prosperidade, emprego e estabilidade".

O acordo, prosseguiu o antigo primeiro-ministro português, "vai ajudar ambos os blocos a navegar um entorno geopolítico cada vez mais turbulento", sem "renunciar" a valores.

Por sua vez, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, descreveu a assinatura do acordo como a demonstração de que o diálogo, a fraternidade e a integração constituem "o caminho" contra "as trevas do unilateralismo": "Sejam bem-vindos, então, a este berço da integração para testemunhar um acontecimento, sem dúvida, histórico, a assinatura de um acordo que mostra que o caminho do diálogo, da cooperação e da fraternidade é o único caminho".A cerimónia de assinatura realizou-se no Grande Teatro José Asunción Flores, em Assunção, o mesmo espaço onde, em 1991, foi instituído o Mercosul.


Para a presidente da Comissão Europeia, esta é uma declaração ao mundo da opção por um "comércio justo em vez de tarifas": "Isto é muito mais do que um acordo comercial".

"Estamos a criar a maior zona de livre comércio do mundo, um mercado que representa quase 20 por cento do PIB global", enfatizou Ursula von der Leyen.

"Reflete uma escolha clara e deliberada: escolhemos o comércio justo em vez das tarifas; escolhemos uma parceria de longo prazo em vez do isolamento e, acima de tudo, queremos oferecer benefícios reais e tangíveis às nossas sociedades e empresas".

Já o presidente da Argentina referiu-se ao acordo comercial como um instrumento de "relevância política e económica para todos os membros deste bloco e para o mundo inteiro".

"Reúne-nos um facto de grande relevância política e económica para todos os membros deste bloco e para o mundo inteiro", afirmou Javier Milei, para quem esta "é, talvez, a maior conquista obtida pelo Mercosul desde a sua criação e o resultado de uma parceria estratégica que a Argentina ajudou a impulsionar com determinação durante a sua presidência temporária no ano passado".

Milei quis capitalizar o momento para se referir à Venezuela, suspensa do Mercosul. Agradeceu a Donald Trump o que considerou ser a "decisão e a determinação demonstradas", ao capturar o "narcoterrorista e ditador" Nicolás Maduro.
A perspetiva do Governo português
Ouvido pela agência Lusa em Berlim, onde participou no Fórum Global para a Alimentação e a Agricultura, o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, acentuou a ideia de que o acordo com o Mercosul é um "oportunidade para Portugal".

"É uma oportunidade para Portugal, temos de nos preparar, ser proativos, não nos podemos esquecer que é um novo mercado de 270 milhões, desses 212 milhões falam português com o Brasil. Temos muitos produtos como o azeite, os queijos e os vinhos, mas também as frutas e os legumes onde temos aí uma oportunidade. Também traz estabilidade, previsibilidade", vincou o governante português.

"É importante que as cláusulas de salvaguarda consigam ser explicadas. Os agricultores ficam mais protegidos com este acordo do que sem ele", enfatizou.

c/ agências

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