Autoeuropa gera preocupação e motiva críticas
O poder político desdobrou-se esta quinta-feira em manifestações de "surpresa" e "preocupação" com o futuro da Autoeuropa. Depois de os trabalhadores terem chumbado o pré-acordo com a administração, o ministro da Economia admitiu que "não pode fazer nada", enquanto o primeiro-ministro pediu mais negociações. A CGTP lembra "o que aconteceu na Opel" e fala em "trapaça".
A preocupação do Governo socialista, assinalou Manuel Pinho, prende-se "não só com a Autoeuropa, mas também com a Volkswagen e toda a indústria".
O titular da pasta da Economia não deixou de dramatizar o discurso: "Houve noites em que não dormi para conseguir certas coisas para a Autoeuropa. Não tem conta o número de vezes que fui à Alemanha e a emoção que senti quando soube que o Scirocco ia ser produzido em Portugal".
Comissão quer "defender os postos de trabalho"
Os trabalhadores da Autoeuropa rejeitaram na quarta-feira uma base de entendimento estabelecida a 5 de Junho que passava por um corte no pagamento do trabalho extraordinário realizado em seis sábados por ano. A medida deveria abranger os profissionais que já tivessem beneficiado de mais de 22 dias anuais sem produção (downdays).
Ao invés do que estava consagrado no Acordo de Empresa - pagamento dos sábados a 200 por cento com uma adenda de 25 por cento -, os trabalhadores passariam a receber seis sábados por ano como trabalho normal, averbando seis horas positivas no "banco de tempo".
Conhecido o resultado do referendo (1.381 votos contra, 1.252 a favor, 28 em branco e sete nulos num universo de 3.400 trabalhadores inscritos), o presidente da Comissão de Trabalhadores, António Chora, lembrou que uma aprovação do pré-acordo teria permitido manter, à partida, os postos de 250 profissionais contratados e a produção em dois turnos.
"Nunca pensámos, sinceramente, que o acordo não passasse. Como Comissão de Trabalhadores, só temos uma coisa em mente, que é defender os postos de trabalho, os 250 trabalhadores contratados", sublinhou António Chora à RTP.
"É preciso negociar"
Os números entram também nas contas do Governo, que reparte as declarações no espaço mediático entre a "pena" e a "preocupação". Isto porque os 1.970 milhões de euros aplicados na unidade de Palmela correspondem ao maior investimento externo em Portugal. Se o ministro da Economia diz "ter muita pena" do desfecho da "votação democrática" dos trabalhadores, o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, afirma ter a "confiança de que vai ser possível ultrapassar as divergências e chegar a um acordo".
À entrada para o Conselho Europeu, José Sócrates expressou o mesmo desejo: "É preciso negociar, é preciso obter um compromisso e tenho a certeza de que os trabalhadores compreenderão, tal como a administração, que o facto de este acordo ter sido recusado em referendo só deve ser um estímulo para que negoceiem mais e produzam um novo acordo satisfatório para ambas as partes".
Num eco das reacções do Governo, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, Basílio Horta, manifestou-se "surpreendido, triste e preocupado".
A preocupação estendeu-se ao maior partido da Oposição. À margem de uma reunião do Partido Popular Europeu, em Bruxelas, a presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, disse esperar "que o consenso e o bom-senso imperem nas negociações que estão em curso".
CGTP alerta para "trapaça"
A administração da Autoeuropa debruçou-se esta quinta-feira sobre o resultado do referendo. Após a reunião, os gestores da empresa prometeram revelar "muito em breve" as medidas a adoptar para "responder competitivamente às oscilações do mercado".
Da CGTP saiu entretanto um alerta para o que a Intersindical considera ser a "trapaça" em curso na fábrica de Palmela. Depois de salientar que o peso dos salários auferidos pelos trabalhadores da Autoeuropa nos custos de produção representa "apenas cinco por cento", Carvalho da Silva apontou baterias à administração: "Não se pense que são as horas extraordinárias de meia dúzia de sábados num ano que têm influência nos custos de produção da Autoeuropa. Insistir nesta trapaça é um crime autêntico porque trata-se de uma margem mínima dos custos de produção".
"Os trabalhadores da Autoeuropa são, seguramente, no seu conjunto, a entidade que melhor conhece a realidade da Autoeuropa e que melhor capta os sinais quanto ao futuro da empresa e, portanto, a sua posição não é uma posição do acaso", frisou o secretário-geral da CGTP, em declarações à agência Lusa.
"Mas também vimos o que aconteceu na Opel há poucos anos atrás, os trabalhadores irem cedendo em nome da resolução dos problemas e depois vimos a empresa ir embora, não para reduzir custos, uma vez que foi para Espanha pagar mais 60 por cento dos salários que pagava aqui", recordou Carvalho da Silva.
Por sua vez, o secretário-geral da UGT lamentou a rejeição do pré-acordo laboral, lembrando que a estrutura foi contra essa decisão.
"Lamentamos essa não ratificação e dizemos claramente que os sindicatos da UGT foram favoráveis à ratificação do acordo porque consideram o emprego uma questão central e porque consideram que o acordo criava condições para a Autoeuropa continuar a processar a sua actividade", reagiu João Proença em conferência de imprensa.