Aventuras e desventuras de uma nova agência em busca da sede prometida
Na tarde de 15 de outubro de 1986, seis pessoas entraram pelo Fórum Picoas, em Lisboa, para inspecionar as instalações da futura agência de notícias portuguesa, mas, para surpresa geral, o espaço destinado à Lusa não existia.
A comissão instaladora da Agência Lusa de Informação, CIPRL, que haveria de nascer como cooperativa apenas por escritura de 12 de dezembro desse mesmo ano, tomara posse nessa manhã e não havia tempo a desperdiçar na implantação da nova agência, um processo atribulado e que levava alguns anos.
O Governo garantia que a nova agência haveria de emitir a primeira notícia a 01 de janeiro de 1987.
Após a tomada de posse na presidência do Conselho de Ministros, os três membros da Comissão Instaladora da nova agência, acompanhados pelos diretores de informação da Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) e da Notícias de Portugal (NP), de cuja junção haveria de nascer a Lusa, apresentaram-se no Fórum Picoas.
À chegada ao moderno edifício no centro de Lisboa, propriedade dos CTT, para tomar posse do local que lhes estaria destinado, rapidamente foram desenganados pelo gestor do espaço que, surpreendido com a visita, segundo relatos dos jornais da época, afiançou que só poderia tratar-se de um equivoco, já que no Fórum Picoas não havia espaço para dispensar.
Ainda assim, para que não perdessem a viagem, mostrou-lhe umas quantas dependências e o único local vazio em todo o edifício: uma cave que, todos concordaram, não reunia as condições necessárias a uma futura redação.
O diretor-geral da Comunicação Social à altura, Alves da Cunha, assegurou à imprensa que tinham existido contactos para a instalação da Lusa naquele edifício, mas proprietários e gestores do Fórum Picoas divergiam quando à utilidade de o espaço acolher a nova agência.
Quando deu posse à comissão instaladora, o secretário de Estado Adjunto dos Assuntos Parlamentares, Marques Mendes, considerou o Fórum Picoas "um excelente local, moderno e operacional", embora tivesse ressalvado que nada estava ainda decidido.
Uma semana depois, a questão da sede da agência concentrou as atenções da primeira reunião da Comissão Instaladora, tendo-se clarificado que a sede da agência não seria no Fórum Picoas. Não foram apontadas hipóteses para a instalação da nova agência, que continuava sem casa.
O Governo tinha decidido criar a agência Lusa assente na projetada extinção da ANOP - que só viria a ocorrer formalmente décadas depois - e na alteração estatutária da NP. As duas agências coexistiam desde finais de 1982, depois de ter falhado uma primeira tentativa de extinção da ANOP, que deveria ter sido substituída pela NP.
Ambas as agências eram apoiadas, em bases financeiras iguais (cerca de 65 por cento do seu orçamento), pelo erário público, através de contratos de prestação de serviços.
A comissão instaladora tinha 60 dias para colocar o projeto da nova agência de pé. Um mês depois da tomada de posse, o Conselho de Ministros aprovou um novo decreto de extinção da ANOP com efeitos a partir de 01 de janeiro de 1987, data prevista de início do funcionamento da Agência Lusa de Informação, CIPRL, que nasceu como cooperativa por escritura de 12 de dezembro de 1986.
Na cerimónia de posse da comissão instaladora, o Governo deixara o aviso: "O Estado não se pode dar ao luxo de subsidiar duas agências."
Mas, pelo menos, por mais algum tempo teria que subsidiar duas redações instaladas em dois palacetes: a da ANOP, na Rua Júlio de Andrade, nº.5 em Lisboa; e a da NP, na rua de São Domingos à Lapa.
Em dezembro de 1986, O Governo anuncia que a nova agência será instalada no 4º andar do edifício principal do Anuário Comercial de Alcântara. As obras começariam em janeiro e a estimativa era que a redação se mudasse para lá dois meses depois.
A nova agência levava já mais de 15 dias de notícias com a marca "Lusa" quando surge a notícia de que apesar de ter sido visitado pelos membros da comissão instaladora, e sugerido à administração da empresa, não existia qualquer contrato assinado, nem qualquer pedido de cedência do espaço. A Comissão Instaladora tinha sido extinta e a hipótese Alcântara ficou pelo caminho.
Uma semana depois, o foco tinha mudado para Benfica, onde, relatava a imprensa, tinha começado a procura pela nova sede. O interesse recaiu sobre "um moderno edifício entre o estádio da Luz e o Centro Comercial Fonte Nova, na Rua João Coito (sic)", contava a edição do DN de 23 de janeiro de 1987. A ideia era que a Lusa ocupasse os quatro últimos andares do edifício, pertença da Brisa, que seriam adquiridos em "leasing" ou arrendados e aos quais apenas faltaria o ar condicionado, o que permitiria acelerar o processo de mudança.
A mudança ocorreria em agosto de 1988 e, dois anos depois, a 18 de janeiro de 1989, com a redação já instalada em Benfica, a sede é formalmente inaugurada pelo então primeiro-ministro, Cavaco Silva. Os jornais da época davam conta de uma verdadeira operação de limpeza na zona para receber o chefe do Governo, que regressava a Benfica depois de lá ter estado três meses antes para inaugurar a estação de metro do Colégio Militar.