Berlim e Paris cada vez mais divergentes sobre futuro da Europa

Berlim e Paris cada vez mais divergentes sobre futuro da Europa

A necessidade "urgente" de reformas para evitar o declínio da União Europeia e tornar o bloco "uma potência independente" une diversos líderes europeus. Mas os caminhos para lá chegar divergem quer se planeie o futuro em França ou na Alemanha.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Emmanuel Macron recebe Friedrich Merz, no Palácio do Eliseu, em Paris, França, em janeiro de 2026. Foto: Mustafa Yalcin - AFP

Esta quarta-feira, na véspera de um encontro informal dos líderes da União Europeia, o presidente francês, Emmanuel Macron e o chanceler alemão, Friedrich Merz, lançaram o debate que deverá dominar o diálogo entre os dois países nas próximas semanas.

Perante um grupo de industriais europeus reunidos para a sua cimeira anual em Antuérpia, na Bélgica, o presidente francês deixou um alerta. "É quase tarde demais" para a Europa, afirmou.

Para Macron, a União Europeia está perante dois caminhos. Pode optar por "permanecer bastante mais lenta" perante as maiores rivais mundiais, Estados Unidos da América e China, correndo o risco de um "declínio lento".

Ou, pode "fazer concessões àqueles que estão a tentar destruir a nossa economia", o que equivaleria a aceitar uma "vassalagem feliz" àquelas duas potências.
Potência independente

Macron propôs uma via alternativa, a de "tornar a Europa uma potência independente", É a "única" solução, argumentou em Antuérpia.

Nenhuma das ideias apresentadas para chegar ao objetivo é nova. Macron fez eco das recomendações apresentadas pela Comissão Europeia, como a simplificação regulamentar do mercado interno, diversificação dos parceiros comerciais e proteção através das preferências europeias em setores estratégicos.

"Financiamos com tanta frequência soluções não-europeias: estamos loucos!", protestou.

O presidente francês fez aliás coro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que instou a Europa a "eliminar as barreiras internas" à sua competitividade, caso queira tornar-se "uma verdadeira potência global".

Perante o Parlamento Europeu, a ex-ministra alemã afirmou ser necessário eliminar "um a um" os obstáculos que dificultam a atividade económica.

"As nossas empresas precisam de capital agora. Precisamos de o fazer este ano", disse ela aos eurodeputados reunidos em Estrasburgo, antes de reiterar a sua mensagem em Antuérpia.

Na capital da Flandres, o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, declarou ainda que "hoje, uma arma está apontada ao coração da Europa, da sua indústria e da sua competitividade".

O chanceler alemão partilha do sentido de urgência que contagia as capitais europeias.

"Após 25 anos de declínio gradual em relação aos nossos principais concorrentes, é tempo de tomarmos novamente decisões firmes", disse Friedrich Merz esta quarta-feira aos industriais, enfatizando a sua prioridade de "desregular todos os setores".

No entanto, surgiram diferenças significativas em relação às medidas específicas a implementar.
"Preferência europeia"
A "preferência europeia" é uma ideia há muito defendida pela França, mas ainda é vista por vários países, principalmente no sector da Defesa, como uma forma de Paris garantir contratos para armamento fabricado em França.

Para responder a estes receios, o líder alemão propôs que a preferência fosse reservada "apenas para setores estratégicos e apenas como último recurso". 

Acima de tudo, afirmou preferir a abordagem "Feito com a Europa" à "Feito na Europa", que provavelmente parecerá insuficiente para os franceses.

O chanceler não reagiu contudo a outra ideia lançada por Macron, a de uma união energética europeia, que incluiria a partilha de redes de distribuição por todos os Estados-membros e que Paris poderia usar para vender a sua energia nuclear, da qual é a principal produtora mundial. 
Dívida comum
Entretanto, o presidente francês reiterou o seu apelo aos "eurobonds", outra ideia antiga e tipicamente francesa, revivida no dia anterior, para financiar investimentos maciços e manter a competitividade com Washington e Pequim.

"Se queremos investir suficientemente na Defesa e Segurança espacial, nas tecnologias limpas, na inteligência artificial e na computação quântica, e transformar a nossa produtividade e competitividade, a única solução é emitir dívida comum", declarou Emmanuel Macron.

Esta ideia tem sido defendida pela França há anos, mas tem sido consistentemente rejeitada por outros países, incluindo a Alemanha, que a apoiou apenas em casos raros, nomeadamente para reactivar a economia após a pandemia de Covid-19.

"Estamos a viver um período completamente sem precedentes", afirmou Emmanuel Macron. "Portanto, devemos aceitar a adoção de medidas cruciais que não são muito comuns no conjunto de ferramentas tradicionais europeias".

Friedrich Merz, que discursou depois de Macron, nem sequer mencionou a solução, que já tinha sido criticada na terça-feira por uma fonte do Governo alemão.

c/agências
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