Economia
Berlim e Paris cada vez mais divergentes sobre futuro da Europa
A necessidade "urgente" de reformas para evitar o declínio da União Europeia e tornar o bloco "uma potência independente" une diversos líderes europeus. Mas os caminhos para lá chegar divergem quer se planeie o futuro em França ou na Alemanha.
Esta quarta-feira, na véspera de um encontro informal dos líderes da União Europeia, o presidente francês, Emmanuel Macron e o chanceler alemão, Friedrich Merz, lançaram o debate que deverá dominar o diálogo entre os dois países nas próximas semanas.
Perante um grupo de industriais europeus reunidos para a sua cimeira anual em Antuérpia, na Bélgica, o presidente francês deixou um alerta. "É quase tarde demais" para a Europa, afirmou.
Para Macron, a União Europeia está perante dois caminhos. Pode optar por "permanecer bastante mais lenta" perante as maiores rivais mundiais, Estados Unidos da América e China, correndo o risco de um "declínio lento".
Ou, pode "fazer concessões àqueles que estão a tentar destruir a nossa economia",
o que equivaleria a aceitar uma "vassalagem feliz" àquelas duas potências.
Potência independente
Macron propôs uma via alternativa, a de "tornar a Europa uma potência independente", É a "única" solução, argumentou em Antuérpia.
Nenhuma das ideias apresentadas para chegar ao objetivo é nova. Macron fez eco das recomendações apresentadas pela Comissão Europeia, como a simplificação regulamentar do mercado interno, diversificação dos
parceiros comerciais e proteção através das preferências europeias em
setores estratégicos.
O presidente francês fez aliás coro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que instou a Europa a "eliminar as barreiras internas" à sua competitividade, caso queira tornar-se "uma verdadeira potência global".
Perante o Parlamento Europeu, a ex-ministra alemã afirmou ser necessário eliminar "um a um" os obstáculos que dificultam a atividade económica.
"As nossas empresas precisam de capital agora. Precisamos de o fazer este ano", disse ela aos eurodeputados reunidos em Estrasburgo, antes de reiterar a sua mensagem em Antuérpia.
Na capital da Flandres, o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, declarou ainda que "hoje, uma arma está apontada ao coração da Europa, da sua indústria e da sua competitividade".
O chanceler alemão partilha do sentido de urgência que contagia as capitais europeias.
"Após 25 anos de declínio gradual em relação aos nossos principais concorrentes, é tempo de tomarmos novamente decisões firmes", disse Friedrich Merz esta quarta-feira aos industriais, enfatizando a sua prioridade de "desregular todos os setores".
No entanto, surgiram diferenças significativas em relação às medidas específicas a implementar.
"Preferência europeia"
A "preferência europeia" é uma ideia há muito defendida pela França, mas ainda é vista por vários países, principalmente no sector da Defesa, como uma forma de Paris garantir contratos para armamento fabricado em França.
Para responder a estes receios, o líder alemão propôs que a preferência fosse reservada "apenas para setores estratégicos e apenas como último recurso".
Acima de tudo, afirmou preferir a abordagem "Feito com a Europa" à "Feito na Europa", que provavelmente parecerá insuficiente para os franceses.
O chanceler não reagiu contudo a outra ideia lançada por Macron, a de uma união energética europeia, que incluiria a partilha de redes de distribuição por todos os Estados-membros e que Paris poderia usar para vender a sua energia nuclear, da qual é a principal produtora mundial.
Dívida comumEntretanto, o presidente francês reiterou o seu apelo aos "eurobonds", outra ideia antiga e tipicamente francesa, revivida no dia anterior, para financiar investimentos maciços e manter a competitividade com Washington e Pequim.
"Se queremos investir suficientemente na Defesa e Segurança espacial, nas tecnologias limpas, na inteligência artificial e na computação quântica, e transformar a nossa produtividade e competitividade, a única solução é emitir dívida comum", declarou Emmanuel Macron.
Esta ideia tem sido defendida pela França há anos, mas tem sido consistentemente rejeitada por outros países, incluindo a Alemanha, que a apoiou apenas em casos raros, nomeadamente para reactivar a economia após a pandemia de Covid-19.
"Estamos a viver um período completamente sem precedentes", afirmou Emmanuel Macron. "Portanto, devemos aceitar a adoção de medidas cruciais que não são muito comuns no conjunto de ferramentas tradicionais europeias".
Friedrich Merz, que discursou depois de Macron, nem sequer mencionou a solução, que já tinha sido criticada na terça-feira por uma fonte do Governo alemão.
c/agências