Campanha lançada por jornalistas da Visão alcança 200 mil euros para leilão pelo título
A campanha de angariação de fundos lançada pelos jornalistas que, nos últimos meses, têm feito a revista Visão, com vista à aquisição do título, arrecadou até hoje cerca de 200 mil euros, objetivo inicial da iniciativa.
Alexandra Correia, subdiretora da Visão, que integra o grupo de 12 jornalistas que continuam semanalmente a trabalhar para colocar a revista nas bancas, disse hoje à agência Lusa ser "impressionante" a adesão a esta campanha de `crowdfunding`, quer dos leitores, quer de muitas figuras públicas.
"Ficámos impressionados. Dá-nos muita força", afirmou a jornalista, assegurando que a campanha continuará aberta.
"O dinheiro destina-se a concorrermos ao leilão [pelo título], que prevemos que decorra em março, pelo que não vai ser usado para qualquer outra coisa. Estamos focados em ficar com a Visão", revista que Alexandra Correia sublinha que "não existe sem os seus jornalistas".
Os 12 jornalistas que se mantêm em atividade serão o núcleo central da próxima sociedade que, entretanto, será criada, para concorrerem ao leilão.
No dia a dia, a revista está a ser feita por este grupo de profissionais, com os proveitos das vendas da revista a ser usados para as despesas como a impressão ou as licenças de software.
"Quando sobra alguma coisa, o administrador de insolvência vai pagando os salários", por frações, mas cujo pagamento regista atrasos significativos, não estando ainda liquidadas verbas referentes aos meses desde setembro de 2025. O último mês integralmente pago foi agosto do ano passado.
Numa publicação hoje nas redes sociais, os jornalistas da Visão registam que "em menos de uma dezena de dias", foi alcançado o objetivo inicial desta campanha.
"Graças ao apoio de mais de 4.500 doadores, atingimos os 200 mil euros - um valor que muitos nos disseram que seria impossível, irrealista e exagerado. Mas que, afinal, foi alcançado com uma rapidez que, sinceramente, também nos surpreendeu, preparados que estávamos para um processo que, prudentemente, imaginávamos que poderia ser demorado, lento e difícil", escrevem na mensagem.
Os jornalistas acrescentam que "este resultado demonstra que a Visão tem uma comunidade de leitores relevante, ativa e solidária. Mas revela também que em Portugal somos muitos os que insistimos em lutar por uma Imprensa livre, independente e de qualidade".
Os jornalistas sublinham ainda que o leilão, "que só deverá iniciar-se em março, na melhor das hipóteses, será sempre uma incógnita no que diz respeito ao valor das licitações", pelo que decidiram "manter a recolha de fundos aberta a mais doações, atendendo a todos aqueles que continuam a manifestar o seu interesse em procurar garantir o futuro da Visão com os jornalistas que a fazem".
Caso não consigam a licitação, não estão ainda decididos os passos futuros, embora exista uma certeza: "não iremos parar", assegurou Alexandra Correia.
No texto de apresentação da campanha, na plataforma GoFundMe, os jornalistas dizem querer "estar preparados para apresentar, em leilão, uma proposta sólida e vencedora -- que resista às investidas de um qualquer aventureiro ou de alguma entidade de origem desconhecida".
"Precisamos também de investimento para o arranque da nova fase da VISÃO, gerida por uma empresa de jornalistas, criada do zero, ainda sem receitas, mas já com custos nos primeiros meses: de impressão, de produção, de equipamentos, de licenças de software, de armazenamento de dados, de telecomunicações e, naturalmente, de salários", acrescentam, garantindo terem "um plano de negócios, prudente e realista, com um horizonte a 10 anos, que demonstra que a Visão é financeiramente sustentável com as receitas que gera".
Segundo estes profissionais, "a ideia é começar com uma estrutura muito reduzida (...). Depois, num horizonte temporal relativamente curto, segundo o (...) plano de negócios, (...) ir reforçando a redação -- o coração deste projeto -- tanto na edição impressa como no digital".
"Aos poucos, queremos retomar a publicação da Visão História, da Visão Biografia, da Visão Júnior, da Visão Saúde e de outras marcas com a chancela Visão, que têm um público fiel e ativo", afirmam.
A assembleia de credores da Trust in News (TiN) aprovou no dia 01 de outubro a cessação da atividade da empresa, dona da Visão e outros títulos.
Além da aprovação da cessação de atividade, foi aprovado na assembleia de credores, no tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, com abstenção dos dois principais credores (Segurança Social e Autoridade Tributária) um requerimento, apresentado por trabalhadores da Visão, para assegurar a produção da revista até à sua venda.
Fundada em 2017, a Trust in News detinha 16 órgãos de comunicação social, em papel e plataformas digitais, como a Exame, Caras, Courrier Internacional, Jornal de Letras, Activa, Telenovelas, TV Mais, entre outros.