Com avisos. União Europeia reabre a porta ao diálogo comercial com a China

Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia com a pasta do Comércio, reuniu-se esta segunda-feira, em Pequim, com o vice-primeiro ministro chinês, He Lifeng, e sublinhou o interesse de Bruxelas no regresso ao diálogo, que se crispou nos últimos anos.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia com a pasta do Comércio, reuniu-se esta segunda-feira 25, em Pequim, com o vice-primeiro ministro chinês, He Lifeng Florence Lo - Reuters

"As empresas da UE querem ser parte da história de sucesso da China, pelo que é importante investirmos tempo no debate sobre o meio ambiente empresarial", afirmou o Comissário europeu, que está a realizar uma visita de quatro dias à China, incluindo contactos com dignitários e empresários.

A União Europeia está a responder a pressões chinesas com exigências de igual calibre, admitindo levar o seu poderoso mercado para outras economias emergentes que lhes coloquem menos riscos enquanto prestam o mesmo tipo de serviços e vantagens.

Se abre portas a Pequim, o mercado europeu estuda igualmente janelas que as substituam caso aquelas se fechem ou estreitem em demasia, como deu a entender Valdis Dombrovskis esta segunda-feira.

Pequim, por He Lifeng, garantiu na tarde desta segunda-feira que a importação de produtos europeus pode ser incrementada, desde que o mercado do grupo se mantenha livre e aberto.

"A China espera que a UE se contenha na aplicação de medidas comerciais e estabilize as expetativas gace ao desenvolvimento bilateral das trocas comerciais", afirmou o vice-primeiro-ministro chinês na conferência de imprensa comjunta após a reunião com Dombrovskis.
Uma catadupa de problemas
Uma das queixas europeias prende-se com a falta de equidade no tratamento bilateral e a politização dos negócios na China.

As empresas europeias presentes na China enfrentam diariamente uma série de obstáculos nas suas transações, desde o acesso desigual aos contratos públicos a normas discriminatórias e falta generalizada de transperância e reciprocidade.

E se a segunda-maior economia do mundo se mantém uma peça-chave na cadeia de suprimentos das empresas europeias, as recentes tensões geopolíticas e económicas têm provocado algum nervosismo face a esta dependência.

O défice da balança comercial europeia com a China subiu de 208,4 mil milhões de dólares, em 2021, para 276,6 mil milhões de dólares (396 mil milhões de euros) em 2022, de acordo com dados dos serviços alfandegários chineses.

Agastada, recentemente a Comissão Europeia admitiu estar a estudar a imposição de tarifas para proteger os produtores europeus de uma "inundação" de veículos elétricos chineses importados, caso se confirme que estes beneficiam de subsídios estatais. 

Bruxelas alega que isso distorce um mercado competitivo, Pequim denuncia a investigação e a medida tarifária como protecionismo "puro e simples".

"O lado europeu deveria agir com prudência e continuar a manter o seu mercado livre e aberto", criticou He em reação ao anúncio europeu.

O acesso a informação é outra pedra no caminho das boas relações sino-europeias. Este ano, a China impôs legislação contra "atos" prejudiciais aos seus interesses nacionais, incluindo a proibição de transferência de informação relacionada com a segurança nacional, considerada "espionagem", sem especificar parâmetros e elevando dessa forma os riscos de incumprimento por parte de empresas estrangeiras.

Dombrosvskis revelou, ao lado de He, que "a questão da incerteza legal relativamente a dados está a causar uma ansiedade real nas empresas europeias aqui na China". "Precisamos de encontrar uma forma de facilitar o cumprimento das leis de dados chinesas por parte das companhias da União Europeia", alertou.

O responsável pela pasta do Comércio da UE anunciou que ambas as partes concordaram em estabelecer dois grupos de trabalho para debater o problema da transferência de dados no sector de serviços financeiros e problemas de acesso ao mercado na indústria de cosméticos, assim como um mecanismo para resolver disputas nas cadeias de abastecimento de matérias primas.
"Fazer com que nos afastemos"
Pequim corre o risco de ver os negócios europeus desviarem-se para outras economias emergentes, caso não ceda face a algumas exigências.

A crispação do diálogo nos últimos anos tem-se devido sobretudo ao apoio Chinês à Rússia quanto à guerra na Ucrânia e às crescentes tensões geopolíticas na Ásia, assim como pela indiferença para com os direitos humanos de minorias no seu território.

O problema da fuga europeia da China foi mencionado por Dombrovskis de forma oblíqua, junto de He. "Nesta visita, pude transmitir diretamente à liderança chinesa algumas mensagens chave vitais para as nossas relações", referiu.

Mencionada especificamente foi a invasão russa da Ucrânia, que Dombrovskis descreveu como uma "ameaça massiva, que coloca em perigo não apenas vidas mas também o abastecimento alimentar global", numa referência ao embargo à exportação de cereais ucranianos.

A percepção europeia do risco pode contudo ser "reduzida" se a China fizer mais do que até aqui. 

Esse foi o recado também deixado pelo vice-presidente da Comissão Europeia numa alocução aos estudantes universitários Universidade de Tsinghua, em Pequim.

"Podemos escolher um caminho para relações mutuamente benéficas, baseado num comércio e investimento abertos e justos, e trabalhar lado a lado nos grandes desafios do nosso tempo. Ou podemos escolher um caminho que nos afasta lentamente, em que os benefícios partilhados nas últimas décadas se enfraquecem e desvanecem", afirmou.

"Num contexto global novo e exigente, tanto a UE como a China enfrentam ventos políticos e económicos adversos significativos, e alguns desses ventos podem fazer com que nos afastemos", avisou ainda.

Sobre a posição vaga de Pequim face à invasão russa da Ucrânia, Dombrovskis foi mais incisivo perante os universitários, afirmando que a Europa não compreende a posição chinesa face à flagrante violação territorial russa, contrária aos próprios "princípios fundamentais da própria China". 

A estratégia pode acarretar "riscos para a reputação" chinesa e estará já a "afetar a imagem do país, não só junto dos consumidores europeus, mas também junto das empresas", referiu.

Além disso, o conflito está também a ter impactos negativos e até mesmo críticos na cadeia de abastecimento de muitos produtos, a causar insegurança alimentar, a aumentar os preços da energia e a causar inflação recorde. Consequências vistas como um "desastre" na Europa, mas que também atingem a China e a sua indústria exportadora.

As dificuldades operacionais sentidas pelas empresas europeias na China são outros tantos pretextos que poderão levar à fuga para outras paragens mais amistosas, frisou Dombrovskis.


"As empresas europeias estão preocupadas com o rumo que a China está a tomar e muitas questionam a sua posição no país. Perguntam a si próprias se aquilo que muitos consideravam uma relação vantajosa para ambas as partes, nas últimas décadas, se poderá tornar numa dinâmica de perda nos próximos anos", afirmou, citando resultados de inquéritos às empresas.

"O Governo chinês criou um ambiente empresarial mais politizado, expandindo o seu conjunto de ferramentas para proteger a segurança nacional e os interesses de desenvolvimento", explicou.

A Europa está a ser forçada a tornar-se mais assertiva e a adotar uma estratégia de "desarriscar" para "evitar dependências prejudiciais", referiu o responsável europeu.

Apesar disso, acrescentou, a União Europeia continua interessada em empenhar-se em soluções construtivas. "O mundo precisa da China, mas a China também precisa do mundo", lembrou.

"A bola está no campo da China", rematou.

c/ agências
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