Economia
Guerra na Ucrânia
Compasso moral. Crise ucraniana abala critérios para decisões financeiras
O impacto do que está a suceder na Ucrânia adivinha-se tremendo numa indústria conhecida pelo seu pragmatismo ao lidar com ditadores e autocratas, a da alta finança que gere fundos de investimentos globais.
De acordo com estudos da Morningstar Inc, a exposição à Rússia atinge cerca de 14 por cento dos fundos de investimento ESG, que supostamente têm uma baixa tolerância a investimentos de risco ambiental, social ou administrativo.
No final de 2021, muitos deles apostavam em empresas como a Gazprom PSJC, Lukoil PJSC e Rosneft, entre outras. Ainda há uma semana, a maioria dos seus gestores considerava estes os investimentos seguros. Foram apanhados com as calças na mão.
Stephen Bird, diretor executivo da Abrdn Plc admitiu terça-feira que a sua firma estava a tentar vender os seus ativos russos avaliados em cinco milhões de libras, com base em critérios ESG, sem o conseguir.
Houve quem salvasse a sua riqueza ao aplicar a ética às suas decisões.
Logo às primeiras horas da invasão da Ucrânia pela Rússia, os gestores do fundo de pensões da Igreja de Inglaterra [avaliado em cinco mil milhões de dólares] decidiram desfazer-se de todos os ativos russos que detinham em carteira. Dia 1 de março tinham vendido tudo, arrecadando 11 milhões em moeda americana.
Perante o acumular de perdas em escassos dias, os gestores de ativos afirmam agora que este é um momento clarificador da indústria em matéria de investimentos ESG. A sigla ESG corresponde às palavras inglesas para Ambiental, Social e Administrativo, os fatores não-financeiros aplicados na análise de riscos e de oportunidades financeiras.
De facto, demasiados investidores descartaram a ideia de que o investimento ético pode revelar-se uma forma de proteger os seus bens, afirmou à Bloomberg o principal gestor do Conselho de Administração do Fundo de Pensões da Igreja de Inglaterra.
Adam Matthews acrescentou que a alegada separação entre “finança pragmática” e “moralidade” é falsa. “É possível – e importante – levar em conta ambos os aspetos”, recomendou, lembrando que, quando um país viola “as normas internacionais e invade um outro país soberano, então essa é uma decisão ética e moral que tem um impacto financeiro”.
Uma questão de consciência
Em menos de uma semana, as decisões de Vladimir Putin forçaram cada vez mais gestores de fundos e patrões corporativos a refletir se imperativos de consciência ou a política deveriam guiar as suas decisões de investimento.
A BP Plc, por exemplo, detinha há cerca de uma década uma participação na Rosneft PJSC, sem ligar às preocupações dos seus investidores com o registo ambiental da empresa russa. Esta semana, contudo, o Governo britânico pressionou a BP a vender a sua participação, considerando-a inaceitável à luz da invasão ucraniana.
Também na Noruega, o gestor principal do fundo nacional soberano avaliado em 1.3 biliões de dólares recusou vender ativos russos avaliados em 3 mil milhões, até o Governo afirmar que “a guerra brutal de agressão da Rússia contra a Ucrânia” implicava que a participação fosse congelada e vendida. A lição para os investidores é a de “agir antes de a guerra começar e não ter receio de denunciar e de desinvestir em empresas e países vistos como violadores em série dos direitos humanos”, comentou Kiran Aziz.
Para o diretor da KLP “o conhecimento da lei internacional, assim como reagir primeiro e rapidamente, pode ser muito eficaz, já que cria um efeito dominó”.
Algumas firmas de investimento com grandes ambições ESG só começaram agora a dar pequenos passos para se distanciarem do regime de Vladimir Putin.
Em comunicado, o grupo DWS, detido em 80 por cento pelo Deutsche Bank AG, afirmou terça-feira em comunicado que “esta guerra de agressão não só fragilizou a confiança entre o Governo russo e o mundo Ocidental, mas irá também alterar de forma permanente a arquitetura de segurança europeia, a política energética e provocar volatilidade significativa”.
O grupo decidiu assim não investir “até nova ordem” em ativos russos e irá “suspender a subscrição de novas participações” em fundos mutualistas com grande exposição russa.
Um compasso moral aplicado à finança
O atual conflito tornou-se um momento crucial para todos aqueles que se preocupam com a forma como o seu dinheiro é usado mundialmente, concluiu Fiona Hill, diretora sénior para as questões russas e europeias no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América, sob a Administração Trump. Entrevistada pelo Politico, Hill lembrou outras ocasiões em que os problemas éticos foram financeiramente determinantes. “Tal como as pessoas não queriam ver o seu dinheiro investido na África do Sul durante o Apartheid, quer mesmo ter o seu dinheiro investido na Rússia durante a invasão brutal russa, subjugação e desmantelamento da Ucrânia?”, questionou Fiona Hill.
“Se as empresas ocidentais, os seus planos de pensões ou fundos mutualistas têm investimentos na Rússia, deviam pensar em sair de lá”, aconselhou, acrescentando “todos os que se sentem nos Conselhos de Administração das grandes empresas russas deviam demitir-se imediatamente”.
O que sucedeu ao ex-chanceler da Alemanha e amigo pessoal de Vladimir Putin, Gerhard Schroeder é paradigmático dos novos tempos.
Schroeder recusou demitir-se dos altos cargos que ocupa em pelo menos três grandes companhias energéticas russas e ficou sem pessoal, depois dos seus colaboradores mais próximos e membros de gabinete se terem demitido em bloco, em protesto.
Nem todos têm este compasso moral. Tanto a Abu Dhabi’s Mubadala Investment Co como a Qatar Investment Authority, QIA, planeiam reter os seus ativos russos avaliados em milhares de milhões de dólares, vendo-os como estratégicos no longo prazo.
A QIA, que detém cerca de 19 por cento da Rosneft vê a participação como fulcral nas relações de Doha com Moscovo, tentando equilibrar os riscos das sanções com as relações de longo-prazo.