Crato recua nos cortes e universidades cancelam comunicação
A comunicação ao país prometida há uma semana pelos reitores das universidades públicas foi cancelada na última noite depois de alcançado um acordo com o Ministério de Nuno Crato para suavizar os cortes que o Orçamento do Estado 2013 estipulava para o Ensino Superior, politécnicos incluídos. Dos 9,4 por cento inscritos no documento, o corte ao Superior passa agora para 3,2 por cento. Uma redefinição da austeridade para as universidades que permitirá, num primeiro momento, fazer face aos aumentos de cinco por cento para a Caixa Geral de Aposentações. Por resolver estará ainda a verba que corresponde à reposição do 13.º mês, mas os reitores já não falam de fecho das instituições.
O Orçamento do Estado para 2013 previa uma redução 9,4 por cento (cerca de 44 milhões de euros).
O ministro da Educação, Nuno Crato, anunciou ontem aos reitores que a redução será bastante menor – 3,2 por cento.
Um acordo que interrompe para já a intenção dos reitores de fazerem uma comunicação solene ao país.
Há uma semana, a leitura sincronizada nas instituições públicas de um comunicado que dava o sinal de alarme para o estado de agonia das universidades culminava com a convocação dessa reunião e de nova comunicação aos portugueses: “A absoluta necessidade de evitar a desintegração do sistema universitário português leva a que os reitores, acompanhados por outros dirigentes académicos de todas as universidades públicas portuguesas, se reúnam na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, na próxima sexta-feira, dia 16 de novembro, para fazerem uma comunicação solene ao país”.
Há uma semana, o reitor da Universidade Nova de Lisboa, António Rendas, admitia a possibilidade de sair das instituições de Ensino Superior a marcação de uma greve em caso de aprovação do texto do Orçamento nos moldes em que foi apresentado.
No texto do comunicado “As universidades e o futuro de Portugal”, os responsáveis pelas academias alertavam que “a atual proposta de lei para o Orçamento de Estado de 2013 (OE 2013), em discussão na Assembleia da República, irá ter consequências altamente nefastas para o funcionamento das Universidades [sendo que] ao reduzir, num valor médio de 9,4 por cento, as dotações a atribuir às universidades, em comparação com o ano corrente, terá efeitos imprevisíveis e irreversíveis em todo o sistema universitário, inviabilizando o desenvolvimento de atividades essenciais para o seu funcionamento”.
Academia em risco de fechar
Nos cálculos das universidades, estava posta em causa a qualidade do ensino, a investigação feita nas universidades e, em última instância, a capacidade para pagarem salários aos funcionários, o que leva a generalidade das instituições a deixar o alerta: não haverá condições para continuar a funcionar.
Os próprios estudantes temem perder mais apoios sociais e recursos essenciais para um ensino de qualidade. Muitos admitem deixar de estudar ou até ir para fora do país à procura de outras oportunidades.
António Rendas deixou uma nota sobre as finanças das universidades portuguesas, com a garantia de que estas instituições não têm dívidas, conseguindo, pelo contrário, gerar dois ou três euros por cada euro recebido do Estado.
Foi perante o pior dos cenários que de Coimbra, a mais antiga academia do país, saiu um apelo derradeiro para que o país se envolvesse em peso nesta questão.
Acordo atingido no tempo limite
“Tal como tinha sido anunciado na Assembleia da República, o Ministério das Educação e Ciência e o Ministério das Finanças estiveram a trabalhar para resolver os problemas”, congratula-se agora Nuno Crato, numa declaração registada pelo Diário de Notícias.
Com o acordo alcançado, as instituições saúdam a resolução de problemas imediatos, mas o problema de fundo mantém uma sombra sobre o funcionamento dos vários estabelecimentos públicos do ensino superior. Afastada fica, para já, a ideia que transpirava do texto dos reitores - lido ao meio-dia da passada sexta-feira - de colapso das academias.
Em causa está o desenho de um Orçamento do Estado que não contemplou as alterações ao plano de contribuições para a CGA, que António Rendas, reitor da Nova de Lisboa e presidente do CRUP, atira, em declarações ao DN, para custos suplementares de até 40 milhões às universidades e Sobrinho Teixeira, presidente do Politécnico de Bragança e do CCISP, estima em 12 milhões para os politécnicos.
De acordo com o presidente do CCISP, o somatório dos encargos não “contabilizados” pelos politécnicos atinge 17,2 milhões de euros, pelo que a redução do corte não compensará por completo a quantia: "Vai ser inferior ao que perdemos", garantiu o responsável, citado pela agência Lusa.
Resolvido este primeiro problema, com os cortes a recuarem para a medida estimada pelas academias quando desenharam os seus orçamentos para 2013, fica adiado o acerto de verbas destinadas ao pagamento do 13.º mês. Neste caso, um esforço acrescido de dez milhões para as universidades e 3,5 milhões para os politécnicos que deverá passar pelo gabinete de Vítor Gaspar, ministro das Finanças e arquiteto do Orçamento para 2013.