Crise no Golfo pode levar preço do petróleo para valor acima dos 100 dólares por barril
A suspensão do trânsito no estreito de Ormuz terá um impacto nos preços do petróleo, que poderão superar os 100 dólares por barril, mas os efeitos dependem da duração do encerramento e se o conflito se alastra, consideram analistas.
"Os ataques coordenados de Israel e dos EUA contra o Irão visam explicitamente a mudança de regime e, apesar do assassinato do líder supremo, o ayatollah Khamenei, provavelmente durarão muito mais do que a ação limitada observada em 2025, quando o Brent ultrapassou brevemente os 80 dólares por barril", salientou Paolo Zanghieri, economista sénior da Generali AM, numa nota de análise.
O analista apontou que a retaliação do Irão, ao atacar Israel, bases americanas nos países do Golfo e fechar o estreito de Ormuz, "tem como objetivo pressionar os países do Golfo a procurarem a desescalada".O fecho do Estreito de Ormuz "poderia reduzir a produção global de petróleo em cerca de 15 a 20%", segundo os cálculos do analista, que destacou que a OPEP+ decidiu aumentar a oferta em 206 mil barris por dia, o que poderia compensar a perda das exportações iranianas.
No entanto, "impedir que os preços do petróleo ultrapassem 100 dólares por barril depende da reabertura do estreito de Ormuz", disse, sendo que "uma interrupção parcial, obtida através de ataques esporádicos a navios e minagem do estreito, poderia elevar os preços para 90 dólares ou mais".
Além disso, ataques diretos às instalações petrolíferas do Golfo "aumentariam drasticamente os preços, mas também comprometeriam os laços regionais já frágeis do Irão e desagradariam a China".
O economista-chefe da AllianzGI, Christian Schulz, também nota que, após os ataques, os mercados enfrentam um "choque significativo, embora ainda não desestabilizador".
"A implicação imediata é a reavaliação dos riscos extremos, com os preços do petróleo a subirem potencialmente, os ativos de risco a descerem e os ativos de refúgio a beneficiarem, mas muito depende de se o conflito se vai alastrar a uma instabilidade regional ou doméstica mais ampla", considerou.Schulz admitiu que os preços do petróleo deverão subir, "mesmo que um encerramento sustentado do estreito de Ormuz permaneça improvável por enquanto", e nos mercados financeiros em geral, os títulos do Tesouro dos EUA, o dólar norte-americano e o ouro poderão apreciar-se, enquanto as ações poderão sofrer.
Ricardo Evangelista, presidente executivo (CEO) da ActivTrades Europe, destacou numa nota de análise que se começou a ver o impacto, sendo que os preços do petróleo WTI "iniciaram a nova semana quase 10% acima do nível de fecho de sexta-feira", refletindo o "nervosismo entre os investidores".
A interrupção do tráfego no estreito de Ormuz "afeta cerca de 25% da produção mundial de petróleo, que é normalmente transportada por petroleiros através do estreito", apontou, sendo que, "após a subida inicial na abertura do mercado, os preços do crude já devolveram parte dos ganhos, mas mantêm-se acima dos 72 dólares por barril, um nível que não era observado desde junho".
"Quanto mais tempo o conflito persistir e o petróleo do Golfo permanecer retido na região, maior será a probabilidade de os preços continuarem a subir, podendo aproximar-se da fasquia dos 100 dólares por barril", alertou o analista.
Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, acrescentou que na Europa as empresas de aviação foram das mais penalizadas, devido à perspetiva de menor atividade no Médio Oriente, enquanto as empresas de defesa e de energia foram as mais beneficiadas pelo choque petrolífero.
O Irão advertiu que o trânsito no estreito de Ormuz já não é seguro, na sequência do conflito desencadeado após os ataques lançados em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel contra a república islâmica.O aviso iraniano e o aumento do risco levaram, na prática, à suspensão ou ao desvio de rotas por parte de algumas grandes companhias marítimas, como a Maersk e a Mediterranean Shipping Company (MSC).
O estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é atravessado por cerca de 20% do petróleo e por uma parte significativa do gás natural liquefeito (GNL) comercializados por via marítima, segundo dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos e das Nações Unidas.
O preço do barril de Brent subia cerca de 8% esta manhã para 78,22 dólares, após o ataque ao Irão, um dos principais produtores da OPEP+ e país que controla o estreito de Ormuz.
O Irão representa cerca de 11% das importações chinesas de petróleo, sendo a China o maior comprador mundial, mas aproximadamente 45% do crude adquirido por Pequim provém de outros países do Golfo, como a Arábia Saudita, o Iraque e o Kuwait.