Fim dos planos da Nissan "não é bom para imagem" do país

O cancelamento dos planos da Nissan para a construção de uma fábrica de baterias em Aveiro, ontem confirmado pela construtora, causa danos à “imagem” do país, dado que se tratava de “um investimento muito publicitado”. É assim que Basílio Horta, antigo presidente da AICEP, reage a uma decisão que deita por terra um projeto que criaria 200 postos de trabalho diretos. O agora deputado eleito pelo PS considera que, para a decisão, pode ter pesado “o desinteresse” do atual Governo. O grupo diz que apenas concluiu que tem fábricas suficientes.

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Basílio Horta encara “com muita pena” a inviabilização de um “investimento que foi negociado com bastante trabalho” Antena 1, RTP

A unidade de produção de baterias de iões de lítio de Aveiro deveria começar a produzir em dezembro de 2012. Por decisão da Nissan, já não haverá uma nova fábrica em Cacia. É assim revogado um investimento de 156 milhões de euros. Assim como a anunciada criação de duas centenas de postos de trabalho diretos. Basílio Horta, que esteve envolvido nas negociações com o grupo, diz-se “triste”. E enuncia “dois motivos”.“Decisão do investidor”

Do Ministério da Economia saiu entretanto a garantia de que a tutela está “a acompanhar a situação” após o anúncio da Nissan.

O gabinete de Álvaro Santos Pereira sublinha, no entanto, o facto de se tratar de uma “decisão do investidor”.

Fonte do Ministério, citada pela agência Lusa, adiantou que o Governo mantém a expetativa de que a estratégia do grupo volte a passar por Portugal.


“Primeiro, porque é realmente um investimento onde se pôs algum trabalho nosso, portanto, algum trabalho da nossa equipa, mas depois é também a questão da imagem de Portugal, porque este investimento foi muito publicitado. Muito publicitado. E o facto de a Nissan agora desistir do investimento não é bom para a imagem de Portugal”, declarou à Antena 1 o antigo presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).

O deputado eleito nas listas socialistas encara “com muita pena” a inviabilização de um “investimento que foi negociado com bastante trabalho”.

Ao mesmo tempo, conjetura que as opções do atual Governo podem ter contribuído para o cancelamento dos planos da construtora automóvel: “O Governo entendeu deixar cair a mobilidade elétrica e, se calhar, é também nesse quadro que a Nissan, vendo o desinteresse do Governo pela matéria, decide não fazer o investimento. É muito provável que seja isso”.

“Uma análise dos negócios”
Em declarações à agência Lusa, o porta-voz da Nissan em Portugal garantiu que o cancelamento da fábrica de Aveiro não está associado ao projeto português da mobilidade elétrica. Ainda que, à data do lançamento do projeto, “o avanço e a aposta do Governo nesta matéria tenha contribuído” para a empresa “ter optado por Portugal”.

Na base da decisão, indicou António Pereira-Joaquim, está o resultado de “uma análise de negócios”. O grupo concluiu, em suma, que as quatro fábricas que detém são suficientes para alcançar o objetivo da comercialização de “milhão e meio de veículos elétricos” ao longo dos próximos cinco anos.

Igualmente ouvido pela rádio pública, Pereira-Joaquim explicou que a “produção de baterias a nível global” está “a superar” as expetativas da construtora “nas fábricas que já existem”, designadamente no Japão (Vama), Estados Unidos (Smyrna), Reino Unido (Sunderland) e França (Slinns): “Com esta maior eficiência das fábricas que existem, tornou-se claro que, para atingir as vendas acumuladas de um milhão e meio de veículos elétricos até 2016, no âmbito da aliança Renault-Nissan, teríamos que suspender a construção da fábrica de baterias em Cacia”.

“Momento muito especial”

O lançamento do projeto da fábrica de baterias para carros elétricos aconteceu a 11 de fevereiro deste ano. Presente na cerimónia, José Sócrates diria tratar-se de um “momento muito especial para Portugal”, que necessitava, segundo declarações do então primeiro-ministro recuperadas pela Lusa, de “mais fábricas, mais produção e mais emprego na fronteira tecnológica”.

A fábrica ocuparia 20 mil metros quadrados do complexo da Companhia Aveirense de Componentes para a Indústria Automóvel (CACIA) e deveria estar apta a produzir 50 mil baterias de iões de lítio por ano, preenchendo assim 25 por cento das necessidades do mercado europeu de automóveis elétricos com o emblema da Nissan.

A própria construtora fixou em 200 o número de postos de trabalho diretos a criar com a construção da fábrica de Aveiro. E admitia gerar centenas de empregos indiretos. No dia do lançamento da primeira pedra, Toshiyuki Shiga, Chief Operating Officer da Nissan, assegurava à agência Lusa que haveria “oportunidade de investir mais no futuro para aumentar a produção”.
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