Movimento Idanha Viva desolado com construção do IC31 em perfil de autoestrada
O movimento Idanha Viva manifestou hoje "profunda consternação" com o anúncio da construção do IC31 em perfil de autoestrada e com o recuo do Governo na decisão anteriormente tomada.
"É convicção do Movimento Idanha Viva que a construção de uma via com semelhante porte e características [perfil de autoestrada] apenas servirá para rasgar o concelho de Idanha-a-Nova, um dos poucos em Portugal que não é fragmentado por grandes vias rodoviárias e que, também por essa razão, é único na sua riqueza natural, cultural e patrimonial", afirmou, em comunicado, o movimento.
O movimento Idanha Viva integra um coletivo de atuais e futuros residentes e proprietários de terras e edificado no concelho de Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, originários de vários cantos do mundo e também de Portugal.
O ministro das Infraestruturas, João Galamba, anunciou no início de fevereiro que a construção do IC31, ligação entre a A23 e a fronteira de Termas de Monfortinho, vai ter perfil de autoestrada.
O projetado IC (itinerário complementar) 31 pretende ligar a A23, na zona de Alcains (Castelo Branco), à fronteira com Espanha, nas Termas de Monfortinho (Idanha-a-Nova), e será constituído por dois troços distintos.
"Foi com profunda consternação que os elementos do Movimento Idanha Viva tomaram conhecimento, através da comunicação social, do facto de o Governo recuar na decisão anteriormente tomada. O IC31, em nome de um modelo ultrapassado de progresso, é anunciado como uma forma de ligar e abrir o território, tornando-o mais permeável", sublinharam.
O movimento referiu que o enorme potencial para o ecoturismo sustentável no concelho de Idanha-a-Nova "está agora ameaçado".
"A construção daquela via irá contribuir para a delapidação do espaço natural, ao destruir e fragmentar a ecologia da região, levando ao desaparecimento de inúmeras espécies de fauna e flora de incalculável valor, incluindo espécies protegidas e em perigo, como o lobo ibérico e o lince ibérico, grandes áreas de florestas e habitats protegidos e prioritários de conservação, como os carvalhais de carvalho das beiras, sobreirais e azinhais, galerias ripícolas, entre outros", sustentaram.
O Movimento Idanha Viva reconheceu que uma parte da população local, que ouve falar da construção de uma nova via há décadas, acredita que a construção do IC31 será positiva para o município.
"Num país rasgado por autoestradas e IC, onde durante anos foi promovida a ideia de que o crescimento económico e a prosperidade local estão diretamente relacionados com a construção rodoviária, esta falsa promessa ainda encontra acolhimento junto de uma fatia da população", salientaram.
Contudo, sustentaram que a construção do IC31 não vai melhorar o acesso a serviços (incluindo os de saúde), e irá diminuir em apenas alguns minutos o trajeto até às cidades de Castelo Branco e de Lisboa.
"Tão pouco irá melhorar as perspetivas económicas locais. Pelo contrário, Idanha poderá vir a juntar-se a outras áreas que foram sacrificadas para projetos de infraestruturas de grande escala. Uma nova infraestrutura rodoviária corre o sério risco de prejudicar a economia local, tal como aconteceu com a construção da A2 no Algarve e a da A23 (ao lado da qual a aldeia histórica de Castelo Novo e a cidade da Guarda agonizam) e de contribuir ainda mais para a já tão acentuada desertificação na região".
O movimento deixou ainda o seu descontentamento pelo facto de não ter sido informado sobre esta intenção de mudança no perfil do IC31.
"Depois de tudo isto, as decisões continuam a ser tomadas à porta fechada", afirmaram.
No início de 2021, o Movimento Idanha Viva incluía cerca de 70 agregados familiares (27 crianças) e um total de 190 hectares de terra adquirida, que implicaram um investimento total de 1,6 milhões de euros (entre aquisição de terras e reabilitação) e cujas despesas de subsistência anuais conjuntas perfazem mais de 439 mil euros.
"Desde 2021, este número tem aumentado todos os anos e mais famílias chegam e partilham a nossa enorme preocupação com o impacto negativo que a construção do IC31 terá sobre a natureza, a qualidade de vida, o património e o futuro económico desta região".